
O mercado de card games no Brasil vive um boom sem precedentes, consolidando o país como a capital latino-americana do setor. Este crescimento exponencial, que transforma coleções em ativos financeiros, reflete-se em eventos grandiosos como a LigaFest, que acontece em São Paulo, atraindo milhares de entusiastas e movimentando a economia do entretenimento, com impacto sentido em todo o Interior do RJ.
Longe de ser apenas um passatempo, o universo dos Trading Card Games (TCG) viu sua valorização disparar, com cartas raras alcançando cifras milionárias. Essa ascensão profissionaliza um hobby que, antes de nicho, agora surpreende pela capacidade de gerar negócios e investimentos, impulsionando a economia criativa e o comércio especializado em cidades como Rio das Ostras e Macaé, onde a comunidade de jogadores da Região dos Lagos e do Norte Fluminense cresce.
O Crescimento Exponencial dos Card Games no Brasil
O mercado global de Trading Card Games (TCG) estava avaliado em US$ 8,4 bilhões em 2025, com uma projeção de dobrar esse valor até 2035, atingindo US$ 16,9 bilhões e um crescimento anual de quase 7%. Contudo, o desempenho de Magic: The Gathering no ano passado ilustra ainda melhor o aquecimento do setor: a franquia gerou US$ 1,7 bilhão de receita em 2025, um crescimento de 59% em relação ao ano anterior, sendo o principal motor para a Hasbro fechar o ano com US$ 4,7 bilhões de faturamento total.
No quarto trimestre de 2025, impulsionado pelos lançamentos de Avatar: The Last Airbender e Final Fantasy, Magic cresceu impressionantes 141% em comparação ao mesmo período de 2024. E o Brasil está no epicentro dessa expansão, respondendo por mais de 60% de todas as transações de TCG na América Latina, uma participação desproporcional que tem uma explicação clara na infraestrutura e comunidade construídas ao longo dos anos.
LigaMagic e LigaFest: Pilares de um Ecossistema Vencedor
Há quase 25 anos, Diogo Pires e seu sócio Rafael Giovanini criaram a LigaMagic como um projeto de hobby, sem equipe ou plano de negócio. A plataforma se destacou por focar na comunidade e, posteriormente, nas lojas, oferecendo infraestrutura vital para o varejo especializado: marketplace, sistema de loja virtual e suporte para torneios. Enquanto concorrentes latino-americanos seguiram outros caminhos, a LigaMagic solidificou a base para o crescimento no Brasil.
O resultado é visível: o Brasil possui hoje cerca de 700 lojas de TCG, um número significativamente maior que as poucas dezenas na Argentina ou as cerca de 50 no Chile. Essa infraestrutura é crucial, pois as lojas precisam de clientes, e os clientes precisam de acesso a informações, preços, torneios e uma comunidade ativa. Com essa base sólida, o mercado floresce.
A LigaFest, que começou há cerca de 13 anos como Circuito LigaMagic, tinha o objetivo de reunir os melhores jogadores do país em um torneio nacional. Após a pandemia, o evento foi expandido para abraçar todo o ecossistema de card games, sendo rebatizado como LigaFest. A primeira edição nesse novo formato atraiu 7.000 pessoas ao Shopping Frei Caneca, em São Paulo.
A quarta edição, marcada para 11 e 12 de julho de 2026, já conta com mais de 10.000 inscritos e a expectativa é chegar a 12.000. O evento ocorre duas vezes ao ano, em julho e dezembro, e já tem contrato assinado para dezembro em um espaço 60% maior, demonstrando a contínua expansão e o sucesso da iniciativa.
De Hobby a Ativo: O Valor das Cartas Colecionáveis
A discussão sobre investimento em cartas colecionáveis transcendeu o nicho, com canais no YouTube e perfis em redes sociais dedicados ao tema. Contudo, ainda há confusão sobre o funcionamento desse mercado, especialmente entre Magic e Pokémon. No Pokémon, o valor das cartas deriva da raridade absoluta e da nota de conservação (grading). Cartas como o Charizard graduado em nota 10, vendido por cerca de US$18 milhões, são ativos que raramente são tocados após a compra, com o jogo sendo secundário.
Em Magic, a lógica é mais acessível e diferente. As cartas que valorizam são, em sua maioria, aquelas que aparecem em jogo competitivo e não são mais reimpressas. As Dual Lands, por exemplo, que geram mana de duas cores e que Diogo Pires guardou por décadas, valiam R$ 10 quando ele era jovem e hoje alcançam R$ 1.000, cem vezes mais. “Quem joga Magic nunca vê o dinheiro que está gastando como um gasto — vê como um investimento”, afirma Diogo. “É diferente de ir ao cinema ou comprar um board game. Com as cartas, você sempre pensa que pode vender depois.”
Isso não significa que todos construirão uma casa com seu baralho, mas demonstra a liquidez e a realidade do mercado secundário, que atrai desde jogadores veteranos até especuladores. A Black Lotus, a carta mais icônica de Magic, foi vendida pela última vez por US$3 milhões. O “Um Anel” do Senhor dos Anéis, uma carta única no mundo, foi adquirido pelo músico Post Malone por US$2 milhões. Esses exemplos extremos calibram o quanto esse mercado cresceu além de um simples hobby.
O Futuro Promissor e a Diversidade de Títulos Nacionais
O cenário atual não se destaca apenas pela força de Magic e Pokémon, mas pela velocidade com que novos títulos ganham espaço. Na 4ª LigaFest, além dos gigantes, o evento reunirá torneios de One Piece, Lorcana (da Disney), Riftbound (o card game de League of Legends, com alta procura), Star Wars, Dragon Ball e, notavelmente, cinco TCGs de produção brasileira: Oroman, Éther TCG, Fábula TCG, Odisséia Card Game e Ecos da Guerra.
Esse grupo de jogos desenvolvidos no Brasil, embora ainda em fase inicial de alcance, possui um público fiel e espaço reservado no evento para que novos jogadores os conheçam. Essa iniciativa, que não aparece em relatórios de mercado, é fundamental para construir a base do ecossistema a longo prazo e fortalecer a comunidade. As colaborações com IPs pop também estão mudando o perfil dos novos jogadores, como o irmão de Diogo, que nunca se interessou por Magic, mas se engajou após comprar a coleção Final Fantasy.
Quinze anos de crescimento consecutivo desafiam a análise convencional, com o mercado superando expectativas a cada ano. Diogo Pires se mostra otimista, mas também pragmático, ciente de que os desafios, como o ritmo acelerado de lançamentos de Magic, já estão no radar das empresas para garantir um crescimento sustentável. O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso.
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