06/07/2026

Antidepressivo é detectado no cérebro de tubarões no litoral do Rio de Janeiro

Imagem gerada com IA
Imagem gerada com IA

Pesquisadores do Projeto EcoShark, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fizeram uma descoberta inédita no Brasil: a presença do antidepressivo sertralina no cérebro de tubarões-martelo capturados no litoral fluminense. O achado, um dos poucos registrados globalmente, levanta sérias preocupações sobre a contaminação dos oceanos por resíduos farmacêuticos e seus possíveis impactos em espécies marinhas ameaçadas de extinção na Região dos Lagos e Norte Fluminense.

A coordenadora da pesquisa, bióloga Mariana Alonso, destacou que este é o primeiro registro do tipo no país, acendendo um alerta crucial. Os resultados, que ainda aguardam revisão por pares para publicação em revista científica, revelam uma realidade preocupante sobre a persistência de medicamentos no ambiente marinho, afetando até mesmo predadores de topo de cadeia como os tubarões.

A Inédita Descoberta e Seus Detalhes

O estudo analisou 20 tubarões-martelo de duas espécies – o tubarão-martelo-recortado (Sphyrna lewini) e o tubarão-martelo-liso (Sphyrna zygaena). Esses animais foram capturados acidentalmente por pescadores parceiros do projeto em diversos pontos do litoral do Rio de Janeiro, incluindo áreas como Copacabana, Barra da Tijuca, Recreio e Guaratiba. O trabalho de coleta, análise laboratorial e interpretação dos dados se estendeu por cerca de três anos.

Diferente do esperado, a sertralina foi encontrada predominantemente no cérebro dos tubarões, e não apenas no fígado, que é o órgão mais comum para a detecção de contaminantes. "Normalmente, o fígado é o órgão onde encontramos a maior parte dos contaminantes. Desta vez, a sertralina apareceu praticamente apenas no cérebro. Foi isso que nos chamou atenção", explicou Mariana Alonso. A substância foi detectada na maioria dos exemplares analisados, embora limitações de amostra e equipamentos possam ter influenciado a ausência em alguns casos.

Impactos Potenciais e Próximos Passos da Pesquisa

A presença do antidepressivo no cérebro é particularmente preocupante, pois é nesse órgão que a sertralina atua em humanos. Contudo, a bióloga ressalta que ainda não há evidências diretas de alterações comportamentais nos tubarões devido à contaminação. "Encontrar o contaminante foi o primeiro passo. Agora precisamos entender se ele interfere nos níveis de serotonina dos tubarões e se isso pode alterar seu comportamento", afirmou Alonso.

Estudos anteriores com peixes-zebra, uma espécie modelo em laboratório, já associaram a exposição à sertralina a mudanças como natação mais lenta e dificuldades de aprendizagem. A próxima fase da pesquisa buscará verificar se efeitos similares ocorrem nos tubarões, além de investigar a contaminação em diferentes estágios de vida (filhotes, juvenis e adultos) e a possível transferência da substância da mãe para os filhotes durante a gestação.

O Alerta dos Oceanos e a Contaminação Emergente

Ambas as espécies de tubarão-martelo estudadas estão classificadas como ameaçadas de extinção: o tubarão-martelo-liso é vulnerável, e o tubarão-martelo-recortado é criticamente ameaçado. A presença de contaminantes nesses animais serve como um "sentinela dos oceanos", indicando que a substância já percorreu toda a cadeia alimentar marinha.

A sertralina pode chegar aos tubarões por diversas vias, seja diretamente pela água contaminada por esgoto doméstico, seja pela ingestão de presas que já contêm a substância. O problema é complexo, pois mesmo as estações de tratamento convencionais não conseguem remover completamente esses "contaminantes emergentes". O Projeto EcoShark já havia identificado outros poluentes em tubarões e golfinhos, como filtros solares, inseticidas e resíduos industriais, alertando para o potencial de efeitos combinados dessas substâncias nos organismos marinhos.

A pesquisadora Mariana Alonso enfatiza a lentidão do processo de transformar descobertas científicas em políticas públicas eficazes. "A gente tenta levar essas informações aos tomadores de decisão, mas esse é um processo muito lento. Normalmente são necessários muitos estudos mostrando efeitos tóxicos para que um composto passe a ser restringido", pontua. A descoberta reforça a ideia de que o que descartamos no dia a dia, como medicamentos, tem um impacto direto e profundo no ambiente marinho. Para mais informações sobre contaminantes emergentes, clique aqui.

O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso e continuará a trazer as últimas notícias sobre meio ambiente e saúde na Região dos Lagos e no Interior do RJ.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!