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24/06/2026
Polícia Federal investiga Banco Digimais por suspeita de fraude contábil
A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta terça-feira (dia 23) a Operação Miragem, que tem como alvo o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. A investigação apura suspeitas de manipulação contábil e ocultação da real situação financeira do banco, que acumulou prejuízos significativos e viu desmoronar as negociações para uma possível venda ao BTG Pactual, repercutindo no cenário financeiro nacional e com atenção de investidores e clientes em cidades como Rio das Ostras e Macaé.
As apurações da PF indicam que o Digimais teria transferido créditos de alto risco de inadimplência para fundos de investimento, como o Hermon, sem que esses ativos fossem marcados pelo seu valor real de mercado. Essa prática, segundo os investigadores, teria criado uma falsa aparência de solidez financeira, mascarando um rombo que, se revelado, exigiria um reforço de capital imediato para a continuidade das operações.
A Trajetória de um Banco em Crise
Fundado em 1981 em Porto Alegre como Banco Renner, a instituição tinha uma reputação de finanças equilibradas. Em 2009, Edir Macedo adquiriu uma participação minoritária de 40%. Onze anos depois, em 2020, o bispo assumiu o controle integral, rebatizando-o como Digimais e reposicionando-o como um banco digital, sob a gestão do bispo João Urbanela. Contudo, essa transição não trouxe a estabilidade esperada.
Dois anos após a mudança de controle, o banco registrou um prejuízo de R$ 740 milhões, um contraste marcante com o desempenho da era Renner. A deterioração das carteiras de crédito, especialmente no financiamento de veículos seminovos, e a sequência de resultados negativos passaram a alertar o mercado e os órgãos reguladores. A consultoria Cross Harbor, por meio de Carlos Henrique da Silva Junior, apontou que a carteira do banco estava concentrada em financiamento de veículos seminovos e crédito consignado, dependendo de investidores em CDBs para captação de recursos.
O Modelo de Negócios e as Suspeitas da PF
O Banco Digimais construiu seu modelo de negócios inicialmente sobre o financiamento de veículos seminovos. No entanto, essa carteira apresentou uma inadimplência crescente, um problema estrutural desse segmento, como explicou Luiz Miguel Santacreu, da Austin Rating. A retomada de bens e os custos de leilão impactaram severamente a saúde financeira do banco. Diante desse cenário, a instituição tentou uma mudança estratégica, migrando para o crédito consignado, uma modalidade de menor risco de calote.
É justamente na carteira de veículos que a Operação Miragem concentra suas investigações. A suspeita é que créditos com alta inadimplência foram transferidos para fundos de investimento, como o Hermon, e que o administrador desses fundos não teria avaliado os ativos pelo seu valor real de mercado, mas por um montante inflacionado. Isso teria gerado a falsa impressão de um lucro de R$ 31 milhões no ano passado, quando, na realidade, o prejuízo seria muito maior, corroendo o patrimônio do banco e exigindo capitalização.
Auditoria e Negociações Frustradas
A auditoria externa do balanço do banco, referente a dados de dezembro de 2025 (conforme o documento), não cobriu os fundos em questão, o que gerou ressalvas formais. O auditor sinalizou que parte dos ativos não possuía avaliação externa verificável. Esses três fundos — um FIDC, um fundo de participações e um veículo multimercado — representaram quase 43% do total de ativos da instituição, evidenciando a concentração de risco.
Em abril, o BTG Pactual chegou a confirmar um acordo preliminar para adquirir o Digimais, visto como uma saída para estabilizar a instituição. As negociações envolviam um possível aporte de R$ 5 bilhões do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Contudo, as condições não foram cumpridas: o Banco Central exigia que Edir Macedo injetasse cerca de R$ 250 milhões no capital do banco até o fim de 2025, o que não ocorreu. Fontes próximas às negociações indicaram que o interesse do BTG já havia diminuído antes mesmo da operação da PF. Após a ação policial, as chances do acordo são consideradas mínimas.
O BTG Pactual, procurado, optou por não comentar o assunto. O balanço do segundo semestre de 2025 do Digimais já continha alertas da auditoria externa sobre a avaliação de parte dos ativos. Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master, também havia anunciado a compra do Digimais em janeiro do ano passado, mas o negócio foi abandonado meses depois. A situação atual, com a imagem comprometida e a falta de capitalização, coloca o Banco Digimais em uma posição delicada, exigindo uma decisão do Banco Central sobre fiscalização, ajustes ou até mesmo uma intervenção.
O Banco Digimais, em nota, afirmou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”, reiterando seu “compromisso com a transparência e a conformidade regulatória”. A instituição não se pronunciou sobre o impacto da operação nas negociações de venda. O FGC também não comentou sobre as empresas associadas.
O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso.
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