20/06/2026

Ebola: Surto mata dezenas em campo de deslocados no Congo e acende alerta global

Ebola: Surto mata dezenas em campo de deslocados no Congo e acende alerta global

Mais de 30 pessoas morreram desde o início de maio no campo de deslocados de Kigonze, localizado no nordeste da República Democrática do Congo. O aumento incomum de óbitos, registrado pelas autoridades locais e organizações humanitárias, levanta sérias preocupações sobre a propagação do ebola, com casos confirmados entre as vítimas.

A situação no campo de Kigonze, situado na cidade de Bunia – epicentro da epidemia no país – é alarmante. O local abriga mais de 15 mil pessoas que fugiram de conflitos armados, e o número de mortes, que antes variava entre uma e três por mês, disparou. Somente nesta semana, dez moradores foram enterrados, evidenciando a gravidade da crise de saúde.

Aumento Alarmante de Óbitos e Desafios no Diagnóstico

O porta-voz do campo, Desire Grodya Bapi, expressou preocupação à Reuters, afirmando que “antes as pessoas não morriam assim”. Muitas das vítimas apresentavam sintomas compatíveis com o ebola, como febre, dor de cabeça e vômitos, conforme relatos de representantes do campo, trabalhadores humanitários e líderes comunitários.

Apesar dos esforços, a extensão real do surto permanece incerta. Moradores e familiares das vítimas têm recusado a realização de testes em pacientes e corpos, dificultando a confirmação da causa de todas as mortes e o rastreamento da doença. No entanto, amostras coletadas de cinco vítimas já retornaram positivas para o ebola, e fontes ligadas à resposta humanitária confirmam outros diagnósticos.

O atual surto foi declarado oficialmente pelas autoridades congolesas em 15 de maio, mas os primeiros óbitos relacionados ao vírus ocorreram antes dessa data, indicando que a doença pode estar circulando há mais tempo sem ser totalmente detectada.

Transmissão Oculta e Condições Precárias

O aumento das mortes em Kigonze intensifica o temor de uma transmissão não identificada do vírus entre as populações deslocadas. O leste do Congo abriga mais de 5 milhões de pessoas que foram forçadas a deixar suas casas devido à violência armada, criando um cenário propício para a rápida disseminação de doenças infecciosas.

A dificuldade em realizar exames e rastrear contatos em meio a essa população vulnerável pode permitir que cadeias de transmissão passem despercebidas, conforme alertam trabalhadores humanitários. Imagens do local mostram equipes da Cruz Vermelha utilizando roupas de proteção para desinfetar corpos antes dos enterros, um procedimento crucial para conter o vírus.

As condições sanitárias precárias do campo agravam ainda mais o risco. Famílias numerosas vivem em barracas improvisadas, com menos de um metro de distância entre elas. Os banheiros são insuficientes e frequentemente transbordam, criando um ambiente ideal para a propagação do ebola, transmitido pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas.

Cortes de Financiamento Agravam a Crise Humanitária

A situação é ainda mais crítica devido à redução significativa no financiamento para projetos de água, saneamento e higiene (WASH) na República Democrática do Congo. Dados das Nações Unidas revelam que os recursos disponíveis caíram para cerca de US$ 38 milhões entre 2024 e 2025, pouco mais da metade do valor registrado no ano anterior.

Além disso, apenas 21% dos US$ 80 milhões solicitados para este ano pelas agências humanitárias foram efetivamente financiados. Quatro organizações atuantes na região confirmaram que programas essenciais de abastecimento de água, construção de banheiros e outras medidas de saneamento foram reduzidos ou interrompidos após cortes em financiamentos internacionais.

A província de Ituri, onde Bunia está localizada, concentra mais de 90% dos cerca de 900 casos confirmados do atual surto de ebola no país. As autoridades de saúde tentam ampliar a testagem e o rastreamento de contatos para conter a transmissão, mas enfrentam desafios enormes, incluindo a resistência de parte da população e as limitações estruturais em áreas marcadas por deslocamentos em massa e anos de instabilidade. O Rio das Ostras Jornal acompanha o caso.

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