
A eleição presidencial do Peru permanece em um cenário de indefinição, cinco dias após a realização do pleito. O país, que tem enfrentado uma notável turbulência política, com nove presidentes em apenas uma década, viu 35 candidatos disputarem o cargo no último domingo (17), refletindo a fragmentação e a complexidade do panorama político nacional.
Enquanto a candidata de direita Keiko Fujimori assegurou matematicamente sua presença no segundo turno, com 17% dos votos, a disputa pela segunda vaga segue acirradíssima. O adversário de Fujimori ainda não está definido, com o esquerdista Roberto Sánchez Palomino e o ultraconservador Rafael Aliaga separados por uma margem mínima de menos de 3 mil votos, mantendo o país em suspense.
A complexa conjuntura política do Peru
A prolongada contagem de votos e a disputa apertada são sintomas de uma crise política mais profunda que assola o Peru há anos. A instabilidade é marcada por frequentes embates entre o poder Executivo e o Legislativo, acusações de corrupção e uma sucessão de governos de curta duração. Este cenário de incerteza eleitoral apenas sublinha a polarização e a dificuldade em construir consensos em uma nação que busca estabilidade.
Até o início da tarde desta sexta-feira, 93,3% das urnas haviam sido contabilizadas, com as atualizações disponíveis para acompanhamento online. O Peru, o quarto país mais populoso da América do Sul, com cerca de 34 milhões de habitantes, compartilha uma extensa fronteira de 2,9 mil quilômetros com o Brasil, o que confere à sua política interna uma relevância regional considerável.
Implicações geopolíticas e a disputa China-EUA
A eleição peruana transcende as fronteiras nacionais, inserindo-se na dinâmica da disputa comercial e geopolítica entre China e Estados Unidos na América Latina. Gustavo Menon, professor de pós-graduação em Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o resultado pode redefinir o alinhamento internacional do Peru.
Roberto Sánchez, por exemplo, representa uma plataforma que se opõe veementemente à de Keiko Fujimori. Segundo Menon, Fujimori busca um realinhamento com os EUA, o que incluiria o endurecimento da política migratória e a contenção da influência chinesa, especialmente visível no Porto de Chancay, um projeto com vultosos investimentos chineses para escoar a produção para a Ásia. A escolha do próximo presidente, portanto, terá um impacto direto nas relações comerciais e diplomáticas do Peru.
Keiko Fujimori: a persistência de um legado
Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, que governou o Peru de 1990 a 2000, lidera a corrida com 2,6 milhões de votos entre os 27 milhões de eleitores. Esta é a quarta vez que Keiko disputa a presidência, tendo sido derrotada no segundo turno nas três eleições anteriores (2011, 2016 e 2021). Suas repetidas derrotas sugerem uma dificuldade em superar um teto de votos, em grande parte devido à resistência ligada à herança política de seu pai, condenado por violações de direitos humanos.
O antropólogo Salvador Schavelzon, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e especialista em política latino-americana, explica que Keiko evoca a memória da guerra contra o Sendero Luminoso e um discurso antiterrorista. Contudo, nas províncias, essa retórica é frequentemente associada às elites e ao neoliberalismo, gerando um forte antagonismo em parte do eleitorado.
A disputa acirrada: esquerda e ultraconservadorismo
O esquerdista Roberto Sánchez Palomino acumula, até o momento, 1,890 milhão de votos. Ele é um aliado próximo do ex-presidente Pedro Castillo, que foi deposto e preso sob a acusação de tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o parlamento. Para seus apoiadores, Castillo foi uma vítima do poderoso parlamento peruano, representando o voto da população rural e marginalizada.
Schavelzon descreve Sánchez como um político com um perfil nacionalista-popular, que reivindica símbolos como a cor da pele e o chapéu, importantes para um setor político que vem ganhando espaço apesar da forte resistência das elites. Suas propostas incluem a nacionalização de recursos naturais, a convocação de uma nova constituinte para reformar os poderes institucionais do Peru e a ampliação dos direitos trabalhistas. Sánchez, que foi ministro do Comércio Exterior e Turismo no governo Castillo em 2021, é psicólogo de formação e deputado pelo partido Juntos Pelo Peru, além de ter sido um entusiasta da criação do Porto de Chancay.
No entanto, Schavelzon alerta que, apesar de sua ligação com a população rural, Sánchez é um político oriundo do jogo partidário do Congresso peruano. Ele pondera que, embora acene para o povo, muitas vezes pode se aproximar mais das elites, talvez de novas elites que se reposicionam, um fenômeno já observado em outros países da América Latina.
Disputando o segundo lugar com Sánchez está o autointitulado ultraconservador Rafael López Aliaga, que o professor Menon classifica como pertencente ao campo da extrema-direita. Aliaga é conhecido por sua admiração pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Um eventual segundo turno entre Keiko Fujimori e Rafael Aliaga, segundo Menon, fortaleceria o campo da extrema-direita no Peru, com um realinhamento em direção à Casa Branca, apesar da interdependência econômica entre Peru e China.
O futuro incerto do Peru
A indefinição do segundo turno reflete a profunda divisão ideológica e social no Peru. Independentemente do resultado final, o próximo presidente enfrentará o desafio de unir um país polarizado, lidar com a instabilidade política crônica e buscar soluções para questões econômicas e sociais urgentes. A eleição é um termômetro da complexa realidade peruana, que exige uma liderança capaz de navegar entre diferentes forças e interesses.
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Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
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