Desmatamento impacta produção de cocares e ameaça cultura indígena, alertam artesãos no ATL | Rio das Ostras Jornal

Desmatamento impacta produção de cocares e ameaça cultura indígena, alertam artesãos no ATL

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Em um alerta contundente sobre as consequências da devastação ambiental, artesãos indígenas que participaram do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília (DF), relataram que o desmatamento e as queimadas estão reduzindo drasticamente a população de aves nos territórios. Essa diminuição impacta diretamente a produção de cocares, peças ancestrais que são símbolos de identidade, resistência e proteção para seus povos.

Tapurumã Pataxó, um artesão de 32 anos da Aldeia Barra Velha, em Porto Seguro (BA), que exibia um cocar feito com penas de maritaca e arara, foi uma das vozes a denunciar a situação. Ele enfatizou que o cenário nos territórios indígenas é de céus com menos pássaros, uma realidade que ameaça não apenas a biodiversidade, mas também a continuidade de práticas culturais milenares.

Ameaça à Tradição e ao Ecossistema

A mudança observada nos ecossistemas indígenas, segundo as lideranças, está intrinsecamente ligada ao avanço do desmatamento, às queimadas criminosas e ao uso indiscriminado de agrotóxicos, práticas impulsionadas por grileiros e invasores não-indígenas. Tapurumã Pataxó, que aprendeu a arte de produzir cocares com seus avós na infância, lamentou a destruição.

O artesão ressaltou que a ação dos fazendeiros não afeta apenas os territórios indígenas, mas todo o Brasil, uma luta que se estende desde 1500, quando os Pataxó foram os primeiros a ter contato com os portugueses. Ele recorda que, em sua infância, a presença de aves como as araras era muito mais abundante, um contraste doloroso com a escassez atual.

Para mitigar os danos, a comunidade de Tapurumã desenvolve projetos ambientais focados na reinserção de aves no ecossistema local. Ele explicou que os cocares são tradicionalmente confeccionados com penas que caem naturalmente dos animais, sem prejudicá-los. Contudo, a redução das populações de pássaros, muitos dos quais desapareceram devido às queimadas criminosas, torna a coleta de material uma tarefa cada vez mais difícil.

Luta por Penas e Consciência Ambiental

A escassez de penas é uma realidade tão grave que Ahnã Pataxó, artesã de 45 anos da Aldeia Velha, também em Porto Seguro (BA), revelou a necessidade de recorrer a zoológicos para conseguir o material. Essa situação, para ela, é um reflexo da falta de consciência ambiental do ser humano.

Ahnã expressou profunda tristeza ao ver animais que antes viviam livres confinados em espaços fechados, uma consequência direta do desmatamento. Ela sente falta de aves como o gavião real, a arara e o papagaio, este último também se tornando cada vez mais raro. A artesã enfatiza a urgência de promover mais ações de conscientização ambiental para reverter esse quadro.

O impacto ambiental também é percebido por Keno Fulni-ô, de 40 anos, que vive em uma aldeia próxima a Águas Belas (PE). Em sua região, aves como o gavião, o carcará, a garça e o anu ainda são presentes, mas as mudanças climáticas já alteram seu comportamento. Ahnã Pataxó destacou que eventos como o Acampamento Terra Livre se tornam cruciais para que os artesãos troquem penas, considerando a diversidade de aves em cada habitat e sua resiliência aos impactos ambientais.

O Cocar: Símbolo de Identidade e Resistência

Além de sua beleza estética, o cocar carrega um profundo significado cultural e espiritual para os povos indígenas. Tapurumã Pataxó esclareceu que a peça simboliza a identidade e a proteção de seu povo, sendo um emblema de resistência.

Para o artesão, o cocar é o que lhes confere força para lutar por seus direitos, pela educação e pela demarcação de seus territórios. Dada sua importância, Tapurumã defende que não-indígenas que adquirem um cocar devem tratá-lo com respeito, guardando-o como um objeto de arte e proteção em suas casas, e não utilizá-lo de forma casual ou desrespeitosa, como se fossem indígenas.

Keno Fulni-ô reforça esse pedido de respeito à simbologia do cocar, expressando a expectativa de que a peça não seja usada em contextos inadequados, como festas ou carnaval. Ahnã Pataxó complementa que o cocar é um símbolo de aliança, inclusive em casamentos tradicionais, onde a troca de cocares substitui as alianças de metal. A costura das penas, nesse contexto, representa a união de todo o povo.

Transmissão de Saberes e a Arte de Fazer Cocares

Apesar dos desafios, a tradição de fazer cocares persiste e é transmitida entre gerações. Aalôa Fulni-ô, um jovem de 21 anos da aldeia em Águas Belas (PE), aprendeu a arte aos 14 anos, impulsionado pela união de seu povo. Sua habilidade na produção dessas peças é amplamente reconhecida na comunidade.

Enquanto costurava um cocar com penas de papagaio, Aalôa demonstrava a destreza de quem consegue finalizar a arte em menos de 30 minutos, após limpar e tingir as penas e costurá-las uma a uma. Para ele, o processo é mais do que uma técnica; é uma forma de expressão e bem-estar. "Eu me sinto muito bem em fazer. Acaba com estresse, me relaxa. Somos a voz do nosso povo e uma só família", afirmou, evidenciando a conexão profunda entre a arte, a cultura e a identidade indígena.

A luta dos povos indígenas pela preservação de seus territórios e de sua cultura é um chamado urgente à sociedade. O Rio das Ostras Jornal continuará acompanhando de perto essas questões, trazendo informações relevantes e contextualizadas sobre os desafios e as resistências dos povos originários. Mantenha-se informado com nosso portal, que se compromete com a qualidade da informação e a diversidade de temas que impactam nossa realidade.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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