Grafite fica na Rua Joaquim Silva, na esquina com a
Escadaria Selarón
Morto em 2019, Pablo Carlos Rodrigues Quintanilha, que tinha
o controle da venda de drogas na Lapa, tem um mural em sua homenagem numa via
do bairro, a Rua Joaquim Silva, na esquina com a Escadaria Selarón. Ele é filho
do traficante Wilton Carlos Rabello Quintanilha, conhecido como Abelha e um dos
chefes do Comando Vermelho.
Um dos lugares mais visitados por turistas e conhecida pela
noite boêmia mais pulsante da cidade, a Lapa sucumbiu ao tráfico de drogas.
Bandidos transformaram casarões históricos em bocas de fumo e cobram taxas de
feirantes e ambulantes que montam suas barracas ao redor da Escadaria Selarón,
um dos cartões-postais mais clicados por visitantes. A venda indiscriminada,
principalmente de crack, atrai uma massa de dependentes químicos, que circula à
deriva pelo bairro e dorme sob marquises e os Arcos. Ontem, uma operação
prendeu 17 suspeitos e revelou como o Comando Vermelho se instalou na região.
Deflagrada pelas polícias Civil e Militar, em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público do Rio (Gaeco/MPRJ), a Operação Colmeia também mostrou que o tráfico submete os usuários de drogas a sessões de tortura. Moradores e comerciantes da Lapa dizem que, nos últimos meses, a situação vem se degradando dia a dia. Um deles contou que pequenas cracolândias se formam em diferentes pontos do bairro e que, até no lixo que se acumula pelas ruas, é possível ver embalagens de crack.
Mudança na rotina
A biomédica Camile de Araujo, que trabalha na Lapa, diz que
o trajeto da empresa até o ponto de ônibus — da Rua do Riachuelo à Avenida Mem
de Sá — é um momento de grande tensão:
— Já fui agredida às 15h por uma usuária entorpecida e já
tentaram me roubar de noite. Não tem horário tranquilo. De um ano para cá, é
sempre um horror andar a pé na Lapa.
Essa percepção é compartilhada por Isaura Oliviere, de 73
anos. Moradora de Santa Teresa, a aposentada desce com frequência até o bairro
para fazer compras, ir a consultas médicas e cumprir outras tarefas cotidianas.
Mas, segundo ela, a insegurança tem feito com evite determinados trechos e
redobre os cuidados ao transitar sozinha.
— São cada vez mais usuários sob efeito de drogas que
intimidam ou agridem as pessoas. Moro há 11 anos em Santa Teresa, frequento a
Lapa todo este tempo e nunca vi a área assim — diz a idosa.
A Operação Colmeia teve como alvo a estrutura do Comando
Vermelho na Lapa e nas favelas que seriam a base da facção: Fallet-Fogueteiro,
no Rio Comprido, e Morro dos Prazeres, em Santa Teresa. A investigação,
conduzida pela 5ª DP (Mem de Sá) ao longo de um ano e dois meses, levou ao
indiciamento de 25 criminosos. Ao todo, foram expedidos 28 mandados de prisão
preventiva, além de ordens de busca e apreensão.
Os dois principais chefes desse braço do Comando Vermelho
que controla a Lapa não foram localizados. Um deles é Wilton Carlos Rabello
Quintanilha, o Abelha — o nome da operação é uma referência ao bandido. O
traficante estaria, segundo a Polícia, escondido na Rocinha, na Zona Sul. Ele é
parceiro Anderson Venâncio Nobre de Souza, o Piu. Os policiais estiveram na
casa dele, no Morro dos Prazeres: o imóvel em construção tem piscina, ambientes
com materiais de primeira linha e vista panorâmica.
De acordo com a investigação, os criminosos montaram os
pontos de venda de drogas próximos a áreas de grande circulação, como a Rua
Joaquim Silva, vizinha à Selarón. Reportagens do GLOBO mostram que a venda e o
consumo de drogas na Lapa são problemas antigos, mas que vêm escalando. Um
homem que mora na Rua Joaquim Silva há 30 anos, que preferiu não se
identificar, diz que o entorno da famosa e colorida escadaria mudou com o
“feirão” de drogas escancarado, até mesmo à luz do dia.
— Eles ficam na calçada mesmo. O usuário chama atenção
deles, eles fazem sinal para um comparsa escondido em um desses imóveis
abandonados, a droga é repassada e segue a vida. Tudo é muito rápido — conta o
morador.
A descrição chama atenção pelo local onde acontece. A
esquina da Rua Joaquim Silva com a Travessa do Mosqueira, onde os policiais
estiveram ontem, fica a cerca de cem metros da Selarón e a 200 metros dos Arcos
da Lapa. Ainda está a 380 metros do Quartel-General da Polícia Militar e a 670
metros da sede da Secretaria de Polícia Civil e da 5ª DP.
Um dos eixos da investigação trata da extorsão de camelôs.
Abelha é acusado de exigir, desde meados do ano passado, uma “taxa” para quem
trabalha no entorno da Selarón. Assim, os ambulantes que ficam nas ruas
Teotônio Regadas, ao lado da Sala Cecília Meireles, e Joaquim Silva são
obrigados a pagar até R$ 130 por dia ao tráfico. A polícia afirma ter
identificado comprovantes de transferência em nome de Endrew Silva Lima, o Di
Mulher, apontado como comparsa de Abelha.
As investigações ainda recolheram áudios que, segundo
investigadores, indicam tentativa de ampliação da influência da facção para
além do comércio de drogas. Mensagens de voz de um homem identificado como
“Bolão” e de Pedro Martins Ramos, o Magrinho, mostram a intenção do grupo atuar
na associação de moradores do Fallet-Fogueteiro, lucrar com isso e ajudar “o
amigo” — referência, segundo a operação, a Piu. Para os investigadores, o
conteúdo das conversas sugere uma tentativa de infiltração em espaços
comunitários como forma de ampliar o domínio territorial, obter renda e
conferir aparência de legalidade à atuação criminosa.
Impacto na boemia
Essa “invasão” de dependentes químicos tem afetado até mesmo
a vocação boêmia do bairro.
— Nós buscamos reforçar nossa equipe de segurança, além de
mudar um pouco o horário de trabalho. Ficam seguranças na porta até o último
cliente ir embora. É uma zumbilândia — conta o dono de uma tradicional casa de
eventos.
A Secretaria municipal de Assistência Social informou que,
de janeiro a março deste ano, foram 10.130 acolhimentos de pessoas vulneráveis
em situação de rua. No mesmo período de 2025, foram 7.950. Já no primeiro
trimestre de 2024, foram 2.736 atendimentos. O crescimento foi de 270% em dois
anos.

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