Luis Arce falou à RECORD sobre a
briga feroz contra o ex-mandatário e do enfraquecimento do apoio da esquerda
Há um mês, entrevistei
Evo Morales, ex-presidente boliviano foragido da Justiça que tenta se
reeleger, apesar de estar legalmente impedido.
Nesta semana, estive com o atual
mandatário, Luis
Arce Catacora, que não concorrerá, apesar de estar habilitado, em
decorrência da fragmentação dos partidos de esquerda, que o apoiariam.
Também encontrei os dois
candidatos com mais chances de ganhar o pleito de agosto.
Um deles é o ex-presidente Jorge
“Tuto” Quiroga. O outro, o megaempresário Samuel Doria Medina. Ambos de
direita.
O ex-presidente da Bolívia
Jorge 'Tuto' Quiroga. Reprodução/redes sociais/@tutoquiroga - 01.07.2025
O cenário acontece em meio às
comemorações dos 200 anos de república de um país que, no mesmo período, teve
190 eventos como golpes de Estado e revoluções.
Neste panorama, a esquerda
fragmentada que defendia Evo Morales fervorosamente — e hoje o critica — perde
espaço para as candidaturas de direita e centro-direita.
Bolívia espelha a
desintegração da esquerda latino-americana
A Bolívia parece espelhar as
mudanças que alguns países latino-americanos, com governos alinhados ao mesmo
modelo político e econômico, vêm sofrendo: a perda de espaço dos candidatos de
esquerda.
Em casos de nações onde não há
uma democracia (ou esta apenas mascara ditadores, como Cuba, Venezuela,
Nicarágua e Honduras), este fenômeno não acontece porque a liberdade de escolha
de mandatário simplesmente não existe — independentemente da vontade dos seus
cidadãos.
Já a Colômbia ensaia um retorno à
direita após o atual presidente, Gustavo Petro, sofrer uma série de revezes no
Congresso. Isso além do atentado
contra o senador oposicionista Miguel Uribe.
No Chile, Gabriel Boric tem
perdido adesão popular, chegando a atingir 60% de rejeição apenas no primeiro
ano de mandato — após o país chegar a índices alarmantes de criminalidade,
entre outros erros atribuídos à sua gestão. Nas eleições da Assembleia
Constituinte, a direita que Boric derrotou nas urnas alcançou impressionantes
56% de votos.
Na entrevista com o presidente
Luis Arce, abordei a crise de combustíveis, que poderá parar desde o transporte
público até o aéreo, a possibilidade de colapso energético (que pode levar os
bolivianos a trocar eletricidade e gás de cozinha por lenha e velas) e uma
balança de pagamentos que acabou com as reservas cambiais do país.
Neste texto para o R7,
antecipo alguns dos aspectos abordados pelo presidente Luis Arce.
Esta é uma pílula do que está por
vir em breve no ‘Domingo Espetacular’, com revelações sobre Evo Morales e
fortes declarações dos candidatos que lideram as pesquisas a respeito de temas
que vão de economia ao narcoestado.
Origem da crise
Luis Arce foi ministro de
Economia no governo Evo Morales e é considerado o arquiteto do “milagre
econômico boliviano”, baseado na exploração de gás natural.
Hoje o país sofre uma grave
crise, com falta de dólares e combustíveis, déficit energético, esgotamento de
poços de gás e uma explosão convulsões sociais.
Ele atribui a crise a erros
graves de gestão no governo de Morales, que teria utilizado essas reservas sem
investir na pesquisa de novos poços.
“Não haviam cuidado da galinha
dos ovos de ouro, não haviam cuidado da vaca leiteira”, disse Arce na
entrevista.
O esvaziamento do recurso
provocou a falta de gás de exportação e, consequentemente, estrangulou a
entrada de dólares no país — que é quase totalmente dependente de manufaturados
estrangeiros, desde autopeças até eletrodomésticos.
Sem os dólares oriundos da
exportação, não é possível importar produtos como gasolina e óleo diesel, já
que não há como pagar por eles.
Combatendo a crise
Mas, segundo ele, seu governo
corrigiu a distorção, investindo em pesquisas e abrindo 44 novos poços, além de
ter diversificado projetos em outras áreas (como lítio e ureia), para diminuir
a dependência do gás natural.
Também afirma ter iniciado a
industrialização da Bolívia numa política de substituição de importações,
expandindo grandes projetos de agronegócios.
Outros investimentos em
infraestrutura são a construção de duas plantas de biocombustível em La Paz e
Santa Cruz de la Sierra e a de uma outra que deverá produzir 80% do combustível
consumido pelos país.
Mas os resultados só devem ser
vistos a partir de 2027.
Conflitos com o Congresso
Arce também citou que o Congresso
nacional vem bloqueando, desde 2023, os projetos do Executivo que teriam
evitado a crise, com o objetivo de impedir o fortalecimento eleitoral da base
de governo.
“Nosso governo estava na cabeça
de todas as pesquisas como favorito até 2023. Isso incomodou o Evo, a direita e
todos os partidos políticos. Neste período, nos asfixiaram. A direita que deu o
golpe de Estado em Evo se aliou aos seus verdugos de 2019 para asfixiar nosso
governo”, disse.
Como exemplo, cita créditos
estrangeiros de US$ 1,8 bilhões, contratos de venda de lítio para China e
Rússia por US$ 2 bilhões e a exploração de uma fábrica de zinco metálico já
construída, que adormecem nas gavetas dos congressistas.
“Houve um boicote, houve uma
sabotagem.”
Riscos de golpe de Estado
Arce relata que a tentativa de
golpe de Estado que aconteceu no ano passado estará presente ”enquanto não se
tenha clara a intenção de levar as eleições à frente".
Cita a insistência de Evo Morales
e seus seguidores em participar “sim ou sim” do pleito, mesmo estando
legalmente impossibilitado de concorrer, e fala de suas ameaças de desatar uma
grande convulsão social caso fique de fora.
“Nosso governo é um dos que enfrentou
a maior quantidade de conflitos sociais provocados pelo ‘evismo’ em função de
querer ser candidato pelas boas ou pelas más vias.”
Evo acusa Arce
Durante uma entrevista exclusiva
com Evo Morales no mês passado, o ex-mandatário, hoje foragido das Justiças
boliviana e peruana, fez graves acusações contra o presidente Arce, inclusive
de atentar contra sua vida.
O mandatário o desmente e, com
bom humor no semblante, manifesta estar acostumado a ouvir acusações infundadas
do seu antigo chefe.
“Ele maneja um mundo irreal,
maneja sua gente com mentiras.”
Arce atribui mentiras e fantasias
a uma conduta recorrente de “autovitimização” de Evo, mas deixa o bom humor de
lado ao acusá-lo de ser o autor intelectual da morte de quatro policiais poucos
dias atrás, após terem sido sequestrados e torturados.
“Ele é o autor intelectual de
tudo isto.”
Evo foragido em lugar
conhecido
Evo Morales tem uma ordem de
prisão decretada pela Justiça boliviana que o acusa de haver mantido relações
sexuais com uma menor, com a qual teve uma filha. É também acusado de tráfico
de pessoas. Ele nega.
E se encontra fortemente
resguardado por seus seguidores num povoado chamado Lauca Ñ, no interior de
Cochabamba. Nossa reportagem esteve com Morales no mês passado, quando o
entrevistou com exclusividade.
Mas, se nós jornalistas
conseguimos chegar até ele, questionamos o motivo de ainda não ter sido preso.
Para o presidente, qualquer
tentativa de prender Evo Morales gerará enfrentamento armado. Diz que “haverá
mortes de ambos os lados”, situação ele prefere evitar.
“Capturar uma pessoa não tem o
mesmo valor das vidas dos bolivianos que irão se perder nesse evento.”
Desistência da reeleição e
fracionamento da esquerda
Luis Arce não será candidato nas
eleições de agosto. O motivo afirma ser a busca de uma unidade entre os
partidos de esquerda, intenção que visivelmente fracassou.
“Hoje estamos divididos em várias
frações.”
Cita o candidato Andrónico,
presidente do Senado, ex-aliado e hoje inimigo de Evo Morales, a candidata Eva
Copa, o próprio Evo Morales, que está impedido pela Justiça, e a sua
representação, que é o MAS, antiga sigla de Evo.
O resultado é o crescimento dos
partidos de direita, que hoje lideram em primeiro e segundo lugar as intenções
de voto, além de outro candidato na quarta colocação.
Em pesquisa realizada pela Rede
Uno de Televisão boliviana e divulgada este sábado, os três candidatos juntos
contam com o apoio de 44,8% do eleitorado nacional.
Já o principal candidato da
esquerda, que na primeira pesquisa liderava as intenções, desceu para a
terceira posição com 13,7%.
R7


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