Proposta de criar data oficial para bonecas reborn é rejeitada e reacende discussões sobre saúde mental, vínculos afetivos e solidão na era digital
Nesta segunda-feira (02/06), o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo
Paes (PSD), publicou em seu instagram, a imagem do veto do projeto de lei que
criava o “Dia da Cegonha Reborn” no calendário oficial da cidade. A proposta
buscava reconhecer o trabalho de artesãs que produzem as bonecas reborn —
réplicas hiper-realistas de bebês. Ao justificar a decisão, Paes comentou nas
redes sociais: “Com todo
respeito, mas não dá.” O episódio viralizou e reacendeu discussões
que vão muito além do veto institucional: afinal, o que revela o crescimento
desse fenômeno?
Em busca de afeto em tempos de solidão digital, as bonecas reborn vêm
ocupando espaços cada vez mais diversos — lares, clínicas, instituições
geriátricas — e também o centro de debates públicos e acadêmicos. Para alguns,
funcionam como ferramentas de conforto emocional; para outros, levantam
preocupações sobre vínculos artificiais, substituições simbólicas e prioridades
distorcidas diante de crises reais como o abuso infantil online.
A princípio, o uso das reborn é associado a pessoas que enfrentam
perdas gestacionais, infertilidade ou traumas emocionais, além de seu uso
terapêutico com idosos diagnosticados com demência. Mas, segundo especialistas,
o uso sem acompanhamento psicológico pode camuflar dores profundas e lutos não
elaborados. O problema, alertam, não está na boneca em si, mas na função
afetiva que ela assume ao substituir relações humanas reais.
Para o sociólogo e especialista em comportamento digital Marcelo
Senise, o fenômeno das reborn é reflexo de uma sociedade emocionalmente
fragilizada. “Essas bonecas não são o problema — são sintoma. Elas oferecem a
ilusão de um afeto sem conflito, de uma presença que nunca abandona. Mas isso
revela o quanto estamos tentando substituir o imprevisível das relações humanas
por vínculos artificiais”, diz.
Senise ainda alerta para o desvio de foco que o debate pode gerar.
“Enquanto parte da sociedade demoniza as reborn, ignoramos que o Brasil está
entre os maiores consumidores de pornografia infantil do mundo — e Brasília
lidera esse ranking nacional. É um paradoxo cruel: condenamos simbolismos
enquanto fechamos os olhos para crimes reais”, afirma.
A crítica é clara: enquanto discutimos o consolo simbólico das reborn, deixamos de enfrentar as feridas abertas da era digital. Operações como a "Turko", da Polícia Federal, revelam redes subterrâneas de exploração infantil na internet. E, ao mesmo tempo, cresce o culto a experiências controladas — sejam elas digitais ou físicas — como forma de escapar da imprevisibilidade dos vínculos reais.
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“Estamos vivendo uma infantilização afetiva coletiva. Procuramos afeto que não
frustre, presença que não contrarie, e relações que não desafiem. Seja nas
redes sociais ou em objetos como as reborn, o que se busca é controle
emocional. Mas isso é justamente o oposto da experiência humana”, diz Senise.
As bonecas reborn, portanto, não devem ser tratadas como vilãs — nem
como solução milagrosa. Elas apenas evidenciam uma urgência: a de
reconstruirmos espaços de vínculo, escuta e convivência reais. “Em vez de
julgar o que consola, é preciso entender o que dói. E, mais do que nunca,
voltar a construir relações que não possam ser desligadas com um botão”,
conclui o especialista.


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