Especialistas explicam que viagem
é classificada como ‘violação da soberania do território chinês’ e soa como
apoio ao pleito da ilha de se tornar ‘cada vez mais independente de Pequim’
A visita de Nancy Pelosi,
presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, a Taiwan movimentou
o mundo nesta terça-feira, 2, e gerou rumores sobre um possível conflito entre
duas grandes potências: Estados
Unidos e China. A deputada norte-americana está de viagem para a
Ásia e não tinha deixado claro se iria ou não à ilha. Apesar dos inúmeros
avisos de Pequim sobre as consequências que o ato teria e o alerta dado pelo
presidente chinês, Xi Jinping, ao presidente norte-americano Joe Biden,
Pelosi desembarcou em Taiwan. Em resposta a essa ação, a China anunciou ações militares direcionadas. “O
Exército de Libertação Popular está em alerta máximo e lançará uma série de
ações militares direcionadas para combater isso”, disse o porta-voz do
ministério da Defesa, Wu Qian, em um comunicado, acrescentando que vão
“defender a soberania nacional e a integridade territorial e impedir a
interferência externa e as tentativas separatistas de “independência de Taiwan”.
De acordo com a agência de notícia estatal Xinhua, os militares chineses
realizarão exercícios de tiro real e outras atividades em torno de Taiwan de 4
a 7 de agosto.
A razão principal que faz com que
a visita de Pelosi a Taiwan seja condenada pela China, é o fato de os chineses
considerarem a ilha como parte de seu território que deve ser reunificado,
inclusive, com o uso da força, se necessário. Para eles, a presença da deputada
é uma provocação. Nancy é a principal autoridade americana a visitar a ilha
desde Newt Gingrich, então presidente da Câmara de Representantes, em 1997.
Especialistas ouvidos pela Jovem Pan explicam que a viagem “é
vista como uma violação da soberania do território chinês”, pontua o cientista
político Leandro Consentino, acrescentando que a ida da presidente da Câmara
até lá sem que a diplomacia chinesa tenha mediado esse contato “soa como apoio
e legitimidade ao pleito de Taiwan de se tornar cada vez mais independente de
Pequim”. Por essa razão, a visita é vista com maus olhos pela China, porque os
Estados Unidos “apoiam Taiwan se tornar um país independente” o que,
consequentemente, “enfraquece a China e aumenta a tensão entre os dois países”.
Igor Lucena, Doutor em Relações
Internacionais, vai além nas questões por trás dos problemas envolvendo China,
Estados Unidos e Taiwan, sendo uma delas o fato de Pelosi ser uma “grande
crítica da China e ter denunciado os massacres e tiranias chinesas”. Porém,
também está associado ao fato de que os EUA são ambíguos quando se trata de
políticas para Taiwan do ponto de vista do executivo norte-americano, porque,
ao mesmo tempo em que eles defendem que existe “uma só China”, também vendem
armas e fazem o sistema de defesa de Taiwan como uma região autônoma e
democrática. A visita de Pelosi à ilha é vista com “ceticismo pelo legislativo
americano que busca fazer a primeira reunião entre Biden e Xi Jinping”, explica
Lucena, para quem também é necessário entender a visão chinesa sobre o
assunto. “Existe uma pressão cada vez maior do lado cibernético, politico e
militar para anexar Taiwan como província chinesa sob o comando de Pequim”,
diz, acrescentando que a China aceitou a posição de autonomia de Taiwan por ser
um país “extremamente radical” em um momento em que os chineses não tinham
poder. “Ela [China] precisava se reorganizar dentro do continente”. Mas hoje as
coisas mudaram e o país está mais forte e estão querendo cumprir com a promessa
que fizeram no passado quando falaram que iriam retomar o controle sobre a
região quando voltasse a ter força”, explica. “Taiwan é uma grande potência
militar, econômica, com apoio da comunidade internacional e dificilmente deve
se dobrar a Pequim”, pondera.
Lucena ressalta que a situação
envolvendo China, Taiwan e EUA é controversa, porque além da política ambígua
norte-americana, a China como conhecemos hoje é jovem. “Quando tivemos uma
disputa entre nacionalistas e comunistas, a disputa resultou no fim do império
chinês”, o que ocasionou na separação dos dois lados, afirma. “A unificação
desses dois territórios só existiu no período imperial. A China comunista nunca
teve efetivamente o controle sobre Taiwan”, explica. Entretanto, na visão de
“uma só China” de Xi Jinping, faz parte de um grande processo retomar o
controle sobre a região. Porém, isso está associado a “acabar com os direitos
democráticos de quase 24 milhões de habitante, que ficariam suscetíveis ao
regime autoritário de Pequim”, o que não é aceitável pelos EUA e outras nações
como Japão e Coreia do Sul, por exemplo. Essas nações veem Taiwan como “um
contraponto aos chineses”. Apesar dos fortes indícios para uma tensão ainda
maior entre essas duas potências, os especialistas não acreditam na eclosão de
um conflito bélico. “Não acredito em conflito direto, sobretudo pelo poderio
nuclear dos dois países, mas certamente aumentam as hostilidades e
desestabilizam a região”, diz Consentino. “Não acho que no momento vamos
assistir um conflito bélico, mas vimos isso na Europa com a Ucrânia, e a Rússia
já se colocou ao lado de Pequim”, acrescenta Lucena, para quem é preciso
esperar os desdobramentos da crise. “Quando falamos de China, Estados Unidos,
Japão, Coreia do Sul e Taiwan, estamos lidando com um grande sistema de peso e
contrapeso, pois juntos eles foram a grande Ásia que representa o planeta”,
finaliza.
Por Sarah Américo


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