O ex-ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF), Celso de Mello, cancelou sua participação no
encontro da Faculdade de Direito da USP que lançará a “Carta às brasileiras
e aos brasileiros em defesa do Estado democrático de Direito”.
Na ocasião, o ex-presidente da
Corte faria a leitura do documento no Pátio das Arcadas.
Em carta enviada
ao ex-procurador-geral de Justiça de São Paulo, Luiz Antônio Marrey, Celso
de Mello afirma declina o convite por motivos de saúde.
O ex-ministro, no entanto,
insiste que seu nome seja acrescido como signatário do documento e faz ataques
ao presidente Jair Bolsonaro (PL), a quem chama de “presidente menor”.
“Necessário, pois, reagir aos pronunciamentos
de um político menor (e medíocre) que busca permanecer na regência do Estado,
mesmo que esse propósito individual, para concretizar-se, seja transgressor do
postulado da separação de poderes e revelador de uma irresponsável
desconsideração das instituições democráticas de nosso país”, afirma
Celso de Mello a Marrey.
“Bolsonaro, além de sua
distorcida visão de mundo, sustentada e exposta por quem ele realmente é,
desnuda-se ante a nação como um político medíocre e que, além de possuir
desprezível espírito autocrático, também expôs-se, em plenitude, em sua conduta
governamental, como a triste figura de um presidente menor, sem noção dos
limites éticos e constitucionais que devem pautar a conduta de um verdadeiro
chefe de Estado”, diz ainda.
De acordo com o ex-ministro do
STF, a única resposta possível do povo brasileiro diante das graves ameaças
golpistas feitas pelo chefe de Executivo é “insurgir-se contra as
tentações autoritárias e as práticas governamentais abusivas que degradam,
deformam e deslegitimam o sentido democrático das instituições e a sacralidade
da própria Constituição”.
Celso de Mello ainda afirma que o
Brasil atravessa tempos “de extrema gravidade e de sérias
consequências” para a democracia. E diz ser imprescindível que a cidadania se
pronuncie, de forma vigorosa e inequívoca, “pela defesa intransigente da
intangibilidade do regime democrático”.
Confira a íntegra da carta
enviada por Celso de Mello a Luiz Antônio Marrey:
“Caríssimo MARREY,
O convite feito pelos
organizadores do importantíssimo evento que se realizará, na São Francisco, no
próximo dia 11 de agosto — e que me foi gentilmente transmitido por você—
constituiu, para mim, motivo de profunda e imensa honra e, também, de
inexcedível distinção, seja como antigo Aluno da Faculdade de Direito da USP
(Turma de 1969), seja como cidadão, seja como Ministro aposentado e
ex-Presidente do Supremo Tribunal Federal!
Recentemente, escrevi que o
presente momento histórico vivido pelo Brasil revela-nos, em tom de grave
admonição, que as instituições democráticas de nosso País e as liberdades
fundamentais dos cidadãos, porque expostas a ataques dos hunos que as assediam
com o subalterno (e corrosivo) propósito de vulnerá-las, sofrem risco imenso em
sua integridade!!!
Neste momento delicado, em que
o Brasil se situa entre o seu passado e o seu futuro, avizinha-se, perigosamente,
a aproximação de tempos procelosos e nublados, impregnados, por seu efeito
desestabilizador, de extrema gravidade e de sérias consequências para o regime
democrático!
Torna-se importante, por tal
razão, que aqueles que respeitam a institucionalidade e que prestam fiel
reverência à nossa Constituição reajam —e reajam sempre com apoio e sob o
amparo da Lei Fundamental do Brasil— às sórdidas manobras golpistas, às
sombrias conspirações autocráticas e às inaceitáveis tentações pretorianas de
submeter o nosso País a um novo e ominoso período de supressão das liberdades
constitucionais e de degradação e conspurcação do regime democrático!!!
Necessário, pois, reagir aos
pronunciamentos de um político menor (e medíocre) que busca permanecer na
regência do Estado, mesmo que esse propósito individual, para concretizar-se,
seja transgressor do postulado da separação de poderes e revelador de uma
irresponsável desconsideração das instituições democráticas de nosso País!
A resposta do povo brasileiro
às graves (e ameaçadoras) manifestações do atual Presidente da República,
indignas da majestosa importância da Lei Fundamental de nosso País, além de
necessária e imprescindível, só poderá ser uma: insurgir-se contra as tentações
autoritárias e as práticas governamentais abusivas que degradam, deformam e
deslegitimam o sentido democrático das instituições e a sacralidade da própria
Constituição!
Tal objetivo traduz justa
razão para que a sociedade civil —valendo-se dos meios legítimos proporcionados
pela Constituição da República e atuando por intermédio dos Poderes Legislativo
e Judiciário e do Ministério Público— insurja-se contra os excessos
governamentais, contra as conspiratas urdidas por setores retrógrados infensos
à necessidade de respeito pela ordem constitucional, contra os comportamentos
políticos desviantes e contra o arbítrio dos governantes indignos e
desprezíveis!
A Faculdade de Direito do
Largo São Francisco é a minha “alma mater”!
A escolha do solo sagrado das
Arcadas reveste-se de altíssimo significado simbólico, pois nelas,
historicamente, sempre floresceram e têm sido permanentemente cultuados e
preservados o espírito da liberdade e o respeito pela democracia!
O “espírito das Arcadas” não
sofre solução de continuidade! Envolve as gerações de ontem, de hoje e de
sempre!!! Elas exprimem o indelével sentimento de perenidade… Esse “espírito
das Arcadas” —de que você também se acha impregnado— traduz o signo luminoso de
nossa identidade comum, o vínculo poderoso que nos transforma, historicamente,
em uma comunidade concreta sob a égide dos valores comuns da liberdade, da
democracia e do respeito ao Direito e que conferem identidade e homogeneidade
ao nosso sentimento de “pertencimento”, à nossa percepção de que integramos,
orgulhosamente, um ente místico destituído de temporalidade, que reflete, aqui
e agora, todos os momentos que compõem o itinerário histórico de nossa “alma
mater”…
São os vultos do passado (e
também do presente) que nos inspiram nessa jornada mágica pelos caminhos da
vida pessoal, acadêmica e profissional, inclusive aqueles que, mesmo havendo
ingressado e cursado as Arcadas, nelas não se graduaram: Castro Alves, Fagundes
Varela, Álvares de Azevedo, José Antonio Pimenta Bueno (Marquês de São
Vicente), Lafayette Rodrigues Pereira (Conselheiro Lafayette ), Joaquim Manuel
de Macedo, José de Alencar, Ruy Barbosa, José Bonifácio, o Moço, Barão do Rio
Branco, Joaquim Nabuco, Affonso Penna, Campos Salles, Rodrigues Alves, Prudente
de Morais, Washington Luis, Arthur Bernardes, Wenceslau Braz, Bernardo
Guimarães, Oswald de Andrade, Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia,
Monteiro Lobato, Miguel Reale, Goffredo da Silva Telles Junior (meu Professor e
vulto inspirador e inesquecível dos tempos acadêmicos) e os 13 (treze)
Presidentes da República (entre eleitos ou empossados) que passaram pelias
Arcadas do Largo de São Francisco, entre outros vultos notáveis! Os
pronunciamentos do atual Presidente da República, que muitas vezes se vale do
sentimento do medo e da utilização da ameaça como instrumentos inidôneos e
ilegítimos de ação política, parecem resvalar, perigosamente, para o terreno
pantanoso das palavras sediciosas!!!
Vejam-se, entre outras, por
expressivas, suas manifestações em Sete de setembro do ano passado e o
recentíssimo discurso de aceitação, neste domingo de julho, de sua candidatura
presidencial!!!
Bolsonaro, além de sua
distorcida visão de mundo (“Weltanschauung”) , sustentada e exposta por quem
ele realmente é, desnuda-se ante a Nação como um político medíocre e que, além
de possuir desprezível espírito autocrático, também expôs-se, em plenitude, em
sua conduta governamental, como a triste figura de um Presidente menor, sem
noção dos limites éticos e constitucionais que devem pautar a conduta de um
verdadeiro Chefe de Estado, capaz de respeitar a autoridade suprema da
Constituição da República!!!
Falece-lhe o valor fundamental
da “gravitas”, que era uma nobre qualidade exigida pelos Romanos em relação aos
que exerciam funções abrangidas pelo “cursus honorum”!
Na realidade, Bolsonaro —que
constantemente insinua a possibilidade de um “coup d’État”, tal a sua profunda
aversão à ideia eticamente superior de democracia constitucional— traduz, em
sua trajetória política, a imagem de um governante que não está, como jamais
esteve, à altura do cargo que exerce, pois lhe faltam estatura presidencial e
senso de estadista, de “statesmanship”!!!
Todas essas razōes
levar-me-iam a aceitar o honrosíssimo convite que me foi dirigido, pois se
torna imprescindível que a cidadania se pronuncie, de forma vigorosa e
inequívoca, pela defesa intransigente da intangibilidade do regime democrático
e de todos os consectários que lhe são inerentes!!!
Ocorre, no entanto, que, infelizmente
para mim, ainda subsistem as graves razões que lhe expus há poucos dias,
impossibilitando-me a altíssima honra e o enorme privilégio que eu teria de
proceder à leitura, no próximo dia 11 de agosto, da “Carta aos Brasileiros em
defesa do Estado Democrático de Direito”!
Peço-lhe, no entanto, que me
conceda a honrosa possibilidade de registrar o meu nome como signatário de tão
relevante e essencial documento na defesa institucional da democracia em nosso
País! Se necessários outros dados identificadores (CPF e RG), basta avisar-me
que eu lhos enviarei!
Uma última observação:
retardei, até agora, a aceitação de tão honroso convite, na justa expectativa
de que pudesse superar os problemas que me afligem há algum tempo!
Tal, porém, não se fez
possível, a despeito de todo o esforço e tentativa que fiz!
Rogando a sua compreensão,
despeço-me, cordial e afetuosamente, com as nossas tradicionais Saudaçōes
acadêmicas!
CELSO”

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