Por que a população paga R$ 10
bilhões todos os anos para a 'Justiça Eleitoral', se só há eleições a cada dois
anos?
O Brasil é mesmo um país
extraordinário. Só aqui, em todo o sistema solar, a troca de chefe de uma
repartição pública que deveria trabalhar em silêncio, como qualquer outro
serviço prestado à população — dessas que só vão bem quando ninguém nota que
elas existem —, se transforma num evento de Estado. Pior: só aqui um sistema
cuja única função é organizar fisicamente as eleições (arrumar as urnas, as
seções de votação, os mesários etc.) e depois contar os votos dá a si mesmo
importância igual à que é dada às próprias eleições. É surreal. No Brasil, num
ano de eleição presidencial como este, os marechais de campo da “Justiça
Eleitoral” são tão falados quanto os candidatos. O eleitor nem deveria saber
seus nomes, como não sabe quem é o chefe do Instituto Nacional de Pesos e
Medidas, ou coisa que o valha; quer apenas que a balança esteja certa. Aqui,
viraram as estrelas do espetáculo.
A “Justiça Eleitoral”, da maneira
como invadiu a vida política brasileira, é uma aberração — para começar, não
existe em nenhuma democracia séria do mundo. O nome já é absurdo: “Justiça
Eleitoral”. As eleições não são uma questão para a Justiça, como as ações de
divórcio, os contratos de aluguel ou as brigas de herança; são um direito
constitucional dos brasileiros maiores de 16 anos, unicamente isso, e é
obrigação elementar do Estado tornar este direito utilizável pela população. É
óbvio que disputas que surgirem terão de ser resolvidas na Justiça, como
quaisquer outras — mas só aí. O Poder Judiciário, por si, não tem de organizar coisa
nenhuma. Tem de julgar conflitos, apenas isso. Mas não. No Brasil, as eleições,
com ou sem conflito, são consideradas um problema judicial em si próprias. O
resultado, em vez de um simples serviço administrativo, é esse mamute
incompreensível que está aí.
A Justiça Eleitoral não é uma
ideia. É um Tribunal Superior Eleitoral, com uma sede-palácio de 12 mil metros
quadrados em Brasília. (Em Brasília, acredite se quiser, há uma “Praça dos
Tribunais Superiores”.) São 27 Tribunais Regionais Eleitorais, um para cada
Estado. São despesas de R$ 10 bilhões a cada ano. São milhares de funcionários.
São procuradores. São salários, penduricalhos, adicionais, auxílios, verbas
compensatórias, verbas indenizatórias, acréscimo por trabalhar, aposentadorias
com salário integral — não acaba mais. Acima de tudo, há uma pergunta
impossível de responder: por que a população paga R$ 10 bilhões todos os anos
para a “Justiça Eleitoral”, se só há eleições a cada dois anos? Cada uma, sejam
municipais ou gerais, está saindo por R$ 20 bi. Para ter esses governos que
estão aí?
(J.R. Guzzo, publicado
no jornal O Estado de S. Paulo em 27 de fevereiro de 2022)
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