Para ex-ministro da Fazenda, o
petista acena à própria base com ideias radicais, mas deve moldar o discurso ao
longo da eleição – como fez em 2002 – e ganhar adesão de parte do mercado
financeiro
Entre os projetos econômicos apresentados
pelos pré-candidatos à Presidência da República, o do ex-presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) é o que contém as piores propostas e os maiores
erros, segundo Maílson
da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda do governo de José Sarney. O
petista, no entanto, joga para a própria plateia quando acena com mudanças mais
radicais, como a revogação de parte da reforma trabalhista e alterações na
política de preços da Petrobras, e
deve trazer o discurso para ideias mais liberais e atraentes ao mercado no
decorrer da disputa. “Lula diz isso porque certas pessoas querem ouvir. O
que vai acontecer é que, na proximidade das eleições, se ele tiver segurança
que tem nas mãos essa vitória, vai mudar, como fez em 2002″, afirma o
economista em entrevista ao portal da Jovem Pan.
Apesar de os primeiros sinais de
Lula irem na direção oposta à Faria Lima — a avenida em São Paulo que concentra
a sede de bancos e escritórios de investimentos —, o ex-ministro e sócio da
Tendências Consultoria Integrada enxerga uma grande adesão do mercado financeiro na
candidatura do PT, mesmo que seja muito mais por falta de opção do que por
simpatia com a figura do ex-presidente. “O Lula repaginado no final do processo
eleitoral pode ser a escolha de muita gente. Não é que essas pessoas adoram o
Lula, mas é a escolha do mal menor”, afirma. Confira abaixo os
principais trechos da entrevista.
O que esperar da economia em
2022? O Brasil vai entrar em recessão? Recessão é difícil dizer, mas
pode se falar em estagnação. Existem previsões de queda do PIB de 0,5%. Na
Tendências, nós estamos esperando aumento de 0,5%. Mas entre menos 0,5% e mais
0,5%, significa que é uma situação de estagnação com a inflação ainda alta,
portanto a estagflação.
Quais os principais desafios
de 2022? Três fatores vão limitar a capacidade do Brasil de crescer em
2022. A primeira é a taxa de juros. O Banco Central vai continuar aumentando a
Selic, provavelmente termina em março com a taxa de 11,5% ao ano, e vai ficar
assim até o final do ano, a menos que haja uma recessão muito forte. Tudo isso
significa menos capacidade de consumo e decisões de investimento. O segundo
fator: a crise fiscal e as incertezas do processo eleitoral podem
gerar fuga de capital, pressões no prêmio de risco, desvalorização cambial e
pressão inflacionária. Em terceiro lugar, há o ambiente externo muito
desafiador. Nós vamos entrar em um quadro em que os bancos centrais dos países
ricos vão começar a aumentar a taxa de juros. Tudo isso vai gerar pressões nos
mercados emergentes e fugas de capitais para ativos de menor risco nos países
ricos, gerando mais pressões, mais inflação e menos crescimento.
Há alguma coisa que o ministro
Paulo Guedes possa fazer neste ano que mude esse quadro? Não, o que
ele pode fazer é lutar para não piorar. Às vezes, ele está cedendo demais às
pressões políticas, sobretudo aquelas que vem do presidente. O papel do
ministro da Economia no campo fiscal não é atender aos pedidos do presidente,
porque os políticos sempre vão querer o máximo de gastos para aumentar o caminho
em direção às vitórias eleitorais. O papel do ministro da Economia é
alertar o presidente, mostrar que isso pode criar problemas, como criou. Qualquer
principiante em questões administrativas do governo seria capaz de prever o que
ia acontecer. Ele não desenvolveu o papel que se espera dele em situações
como essa. O Bolsonaro vai perder em qualquer hipótese. Se ele conceder o
aumento à área policial, vai sofrer pressão com todos os movimentos que estão
sendo feitos. Ou ele desiste, que é a posição mais sensata, e ao desistir vai
descontentar a área policial e o resto do funcionalismo público. É algo
inacreditável e um erro primário que o presidente da República fez pensando
apenas na sua reeleição.
Como o senhor acha que o
ministro vai se comportar com as pressões que vão surgir por reajustes? Guedes
assumiu que a situação é muito grave e que não se pode abrir mais um flanco de
gastos que prejudica ainda mais a política fiscal. Acredito que ele vá
resistir e tentar convencer o presidente a não ceder às pressões. Essa é a
função que se espera do ministro da Economia, e, com tudo o que aconteceu, é
uma forma de consertar a bobagem que ele fez ao ceder à pressão do presidente.
Qual a sua avaliação sobre os
programas econômicos apresentados pelos pré-candidatos? O João Doria
(PSDB) é o que mais sinalizou o que vai ser o governo, se for eleito. Ele
anunciou que vai privatizar a Petrobras e o Banco do Brasil, o que é uma
proposta absolutamente correta. O candidato Sergio Moro (Podemos) indicou
Affonso Celso Pastore para ser o seu assessor econômico, é um sinal excelente.
O Ciro Gomes (PDT) está dando um sinal muito ruim, de que não vai ter teto, que
não vai privatizar. O candidato que deu os piores sinais até agora
foi o Lula (PT). Ele e os seus assessores estão questionando a legislação
trabalhista, e retroagir nesta reforma é conspirar contra o Brasil. Acho
que tudo isso é um teatro. O Lula está fazendo isso para dar sinais para a sua
base que é a favor desses equívocos. Por exemplo, ele disse que a gasolina não vai
seguir os preços internacionais. É inacreditável, ele sabe que tem de seguir.
Ele diz isso porque certas pessoas querem ouvir. O que vai acontecer é que
na proximidade das eleições, se ele tiver segurança que tem nas mãos essa
vitória, vai mudar, como fez em 2002. Ele vai escolher um ministro
da Economia que seja confiável para o setor privado, sobretudo para os
investidores no mercado financeiro. Eu sou capaz de apostar que tudo
isso que está sendo dito agora por supostos porta-vozes do Lula vai ser esquecido
se ele se eleger, que foi o que aconteceu entre 2002 e 2003. O Lula
jogou no lixo o programa do PT, que tinha um título muito provocativo: “A
ruptura necessária”. O Lula jogou isso fora e continuou a política econômica do
Fernando Henrique Cardoso, convidou um banqueiro de um banco estrangeiro para
ser o presidente do Banco Central e aprovou a equipe do ministro Antonio
Palocci formada por economistas de primeira linha e liberais.
Com o apresentado até agora, o
mercado financeiro deve buscar outro nome para apoiar ou seguirá com
Bolsonaro? Acho que muita gente do mercado financeiro vai votar no
Lula. Quando se fizer uma análise serena entre Bolsonaro, o maior desastre
político da história do país, com o Lula pragmático, o eleitor do mercado
financeiro vai ficar naquela situação descrita pelo empresário Pedro Passos: é
uma escolha entre o inaceitável e o indesejável. O Lula repaginado no
final do processo eleitoral pode ser a escolha de muita gente. Não é
que essas pessoas adoram o Lula, mas é a escolha do mal menor. Não quer
dizer que ele seja uma saída alvissareira para o país.
Por Gabriel Bosa
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