
Eleitor na cabina de votação.
MARCELO CAMARGO/AGÊNCIA BRASIL
Proposta é
uma das bandeiras do presidente Jair Bolsonaro e encontra resistência. Tire
dúvidas sobre o tema
A PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que institui a obrigatoriedade do voto impresso nas eleições no Brasil deverá ser uma das prioridades da Câmara no segundo semestre, segundo o presidente da Casa, o deputado federal Arthur Lira (PP-AL), e tem votação marcada já para esta quinta-feira (5) na Comissão Especial que analisa o texto.
A proposta é
uma bandeira do presidente Jair Bolsonaro e vem sendo defendida por seus
apoiadores como forma de dar mais segurança ao pleito. O presidente afirma que
o sistema de urnas eletrônicas é defasado, passível de fraude e não permite
conferência.
Na última
quinta-feira (29), Bolsonaro fez live sobre o tema e admitiu não haver provas de irregularidades. Ele
mostrou vídeos que circularam por aplicativos e pela internet como indícios de
fraude eleitoral nas eleições de 2014 e de 2018 e que já foram desmentidos pelo
TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Anteriormente, o presidente já ameaçou a realização das eleições e
cogitou não participar caso o voto impresso não seja
aprovado.
Alguns partidos
e parlamentares já se manifestaram contra o método, fazendo com que o Planalto
considere o tema de difícil aprovação. Além disso, o presidente do TSE, Luís
Roberto Barroso, que é ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), defende a
manutenção e a segurança do atual sistema.
O projeto que
determina o voto impresso é de 2019, de autoria da deputada Bia Kicis (PSL-DF).
Ele prevê que, após o voto na urna eletrônica, a escolha do eleitor será
impressa em um papel que será depositado automaticamente em uma urna aparte,
para uma possível conferência. É diferente, portanto, do voto que havia no país
até os anos 90, em que eleitor marcava sua opção em uma cédula com um
"x".
A proposta já
foi considerada admissível pela CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), e
agora tramita em uma "comissão especial" - etapa necessária quando se
trata de uma PEC. Oito dos 34 deputados que integram a comissão já apresentaram
votos em separado em que pedem a rejeição da proposta.
O relator do
projeto, o deputado Filipe Barros (PSL-PR), admite fazer mudanças no parecer
que será votado na esperança de obter maior adesão ao projeto. Parte do colegiado
defende que o voto impresso seja adotado apenas de forma parcial, considerando
amostragem dos eleitores. Alguns partidos de oposição, como o PDT, que
sinalizam apoio a medida, devem defender o voto favorável apenas caso a decisão
seja por uma implantação gradual, e não para 2022.
Veja dúvidas
comuns sobre o tema:
- O que diz
a proposta sobre voto impresso em discussão na Câmara?
A PEC 135/2019 não acaba com a urna eletrônica, mas inclui na Constituição Federal um artigo que torna obrigatória a impressão de comprovantes físicos de votação, que devem ser depositados automaticamente em uma caixa de acrílico acoplada à urna. A ideia é permitir ao eleitor conferir se o recibo em papel coincide com o seu voto. Não é possível levar o comprovante.
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A principal
vantagem apontada é a possibilidade de auditar a votação por meio de uma
recontagem manual. Hoje, o TSE já possui sistema de auditoria das urnas, mas
feito de forma eletrônica. O formato atual é passível de adulteração e fraudes,
segundo os defensores do voto impresso, ainda que nunca tenha sido comprovada
qualquer irregularidade desde a adoção da urna eletrônica, em 1996.
Bolsonaro vem
afirmando que o sistema é ultrapassado, enquanto outros países utilizam
tecnologia de segunda e terceira gerações. Além disso, ele aponta que a
apuração ficaria sob influência do STF, uma vez que o ministros do Supremo
estão entre os compontantes do TSE. O presidente relaciona o fato à soltura do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2019. "Os mesmos que tiraram o
Lula da cadeia, os mesmos que o tornaram elegível são os que vão contar os
votos. Precisa falar mais alguma coisa?”, questiona.
- E o que
dizem os críticos à medida?
A
confiabilidade das urnas eletrônicas e o alto custo para implantar o voto
impresso - orçado em R$ 2,5 bilhões - são os principais argumentos dos que
defendem o atual modelo. Para o ministro Luís Roberto Barroso, retomar o voto
impresso é um "retrocesso" e abre margem para fraudes. “A introdução
do voto impresso seria uma solução desnecessária para um problema que não
existe com o aumento relevante de riscos”, afirmou ele em audiência na Câmara
sobre a PEC, em junho. O TSE diz que o sistema já sofreu atualizações
tecnológicas inúmeras vezes.
Barroso explica
que a urna eletrônica é auditável em todos os processos. O processo começa 30
dias e tem participação de diversos órgãos, como a Polícia Federal, além de
empresas de auditoria contratadas. No dia da eleição, é impressa a Zerésima,
atestando não haver votos computados. Ao final, é impresso o Boletim de Urna,
um relatório com os números de votos por candidato ou partido.
Segundo o
presidente do TSE, o voto impresso remete a um passado de fraudes no sistema
eleitoral e é o método "menos seguro porque precisa ser
transportado". O ministro insinua ainda que a defesa do voto impresso já
seria uma estratégia do atual governo considerando um possível resultado nas
eleições. "O discurso de que 'se eu perder, houve fraude' é discurso de quem não
aceita a democracia", diz.
- O que
acontece se a proposta for aprovada?
A Comissão
Especial que analisa a PEC dará uma espécie de parecer sobre o tema, não tendo
poder de barrar a proposta. Trata-se de uma importante sinalização política, no
entanto. O projeto poderá ir ao plenário e, caso aprovado, suscitar
judicialização. Em 2015, o STF já considerou projeto semelhante
inconstitucional.
Caso isso não
ocorra, o TSE deverá acatar a decisão do parlamento, como já indicou o ministro
Barroso. Ele diz que a implantação para 2022 não seria fácil, porém, pois será
preciso iniciar ainda a licitação para a compra dos novos equipamentos.
- A
impressão do voto representa risco para o processo eleitoral?
Na avaliação de
Barroso, a adoção do voto impresso aumenta os riscos de fraudes. Ele cita a
possibilidade de defeitos na impressão dos comprovantes, a segurança na
armazenagem e no transporte das urnas e a morosidade para o resultado.
Os defensores
do voto impresso afirmam que o sistema é mais seguro e que acaba com a chance
de que fraudes no sistema eletrônico não possam ser percebidas. Além disso, não
traria riscos ao fato de o voto ser secreto, uma vez que o papel impresso não
pode ser levado pelo eleitor.
Do R7

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