
STF deve decidir na próxima quinta-feira qual será a vara que vai
julgar Lula. FELLIPE SAMPAIO /SCO/STF - 02.03.2021
Ministro
ressaltou que STF anulou condenações por questões técnicas e que ex-presidente
ainda vai ser julgado na Justiça
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, avalia que a Operação Lava Jato provocou um “colapso” no Judiciário que atingiu da primeira instância até o STJ (Superior Tribunal de Justiça). Em entrevista ao Estadão, Gilmar disse que essas instâncias sucumbiram a “pressões políticas” da força-tarefa que comandou a operação em Curitiba. “O STJ não cumpriu adequadamente seu papel”, afirmou.
Expoente da ala
garantista, Gilmar reconhece que a correção de rumos imposta pelo STF coincide
com o momento em que a Lava
Jato caiu em desgraça, mas afirma que isso se deve à “estrutura
hierárquica do Judiciário”, em que o Supremo é o último a se manifestar.
O ministro
ressalta que o Supremo
anulou as condenações contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva por
questões meramente processuais, ao concluir que os casos não deveriam ter
ficado em Curitiba. O STF não entrou no mérito se o petista cometeu corrupção
passiva e lavagem de dinheiro. “Não foi uma absolvição”, observou.
Gilmar já fez
duras críticas a posições adotadas pelo novato Kassio Nunes Marques que
coincidem com os interesses do presidente Jair Bolsonaro, responsável por sua
indicação. Mesmo assim, disse não ver riscos de uma Corte “bolsonarista” e
afirmou que os vínculos políticos dos magistrados vão se “esmaecendo com o
tempo”.
Anular as
condenações de Lula legitima o discurso do PT de que ele não praticou
corrupção?
Não. O que o
tribunal está mandando é para o juiz competente processar e julgar as
denúncias. É isso. Não foi uma absolvição. Claro que cancela as condenações,
mas manda que o juiz competente prossiga no seu julgamento.
Lula ainda
tem um novo encontro com a Justiça?
Com certeza.
Você viu que surgiu a dúvida sobre a vara competente, São Paulo ou Distrito
Federal. Definida a competência, essa vara vai prosseguir (o trabalho).
O sr. vê
espaço para o plenário derrubar a suspeição do Moro?
Essa questão
está resolvida. Porque, de fato, nós julgamos o habeas corpus (da suspeição de
Moro na Segunda Turma). Nós temos que ser rigorosos com as regras processuais.
Não podemos fazer casuísmo com o processo, por se tratar de A ou de B.
O julgamento
de Lula pode provocar um efeito cascata e beneficiar outros réus?
Não vejo assim.
O caso do Lula, no que diz respeito à suspeição, é muito delimitado. É uma
situação muito personalista.
Lula ficou
580 dias preso, acabou afastado das eleições de 2018 e só agora o plenário do
STF decidiu que Curitiba não tinha competência para julgá-lo. O Supremo dormiu
no ponto?
Acho que não.
Na verdade, o processo judicial é muito complexo. E ele segue toda essa escala:
o juiz de primeiro grau; o tribunal intermediário, no caso deles, o TRF-4; o STJ;
e o Supremo. Desde 2015, o STF vem afirmando que a competência de Curitiba não
é universal.
Como
explicar à sociedade que o Judiciário cometeu um erro que levou à prisão de uma
pessoa?
Isso é fruto,
primeiro, dessa estrutura hierárquica do Judiciário. O Supremo só fala por
último. Essa questão do Lula (da competência de Curitiba) só aportou no Supremo
em novembro. Agora, o Supremo, no caso do “quadrilhão do MDB”, já tinha
decisão. O caso da Gleisi (Hoffmann, presidente do PT) e do Paulo Bernardo é um
antecedente, de 2015, e ali se assentaram balizas muito interessantes. Dizendo,
por exemplo, que não bastava que um delator informasse vários fatos para
justificar a competência de Curitiba.
Por que
instâncias inferiores não foram na mesma linha?
Havia uma ânsia
de decidir rapidamente, de acordo com aquilo que a Lava Jato tinha
estabelecido. Se nós formos olhar, havia uma certa opressão dos tribunais que
eram suscetíveis de serem oprimidos. O STJ, nesse período, foi submetido a uma
pressão político-judicial. Uma perseguição judicial. Por conta daqueles
episódios ligados à nomeação do Marcelo Navarro (alvo de acusação na delação de
Delcídio Amaral). O tribunal, ele próprio perdeu a ossatura. Ele não cumpriu,
adequadamente, seu papel.
O STF impôs
uma correção de rumos à Lava Jato?
A Lava Jato
sofreu inúmeras derrotas ao longo desse tempo. Mas por seus próprios méritos.
Ou deméritos. Ela causou isso, na medida em que avançavam sobre competências
que não tinham. A pergunta básica é: como que se deu tanto poder a uma
força-tarefa? Em que lugar do mundo haveria isso? É alguma coisa que precisa
ser explicada. Virou um esquadrão.
O sr.
utilizou as mensagens de hackers como reforço para declarar Moro parcial.
Isso sugere uma
subversão institucional. Houve, de alguma forma, um colapso aí, em termos de
gestão administrativa. Esses problemas se multiplicam. De alguma forma, estão
ocorrendo episódios semelhantes na 7.ª Vara do Rio de Janeiro. Em que aparece
um super advogado (Nythalmar Filho, alvo de mandados de busca da PF), que teria
relacionamento com o juiz (Marcelo Bretas), que teria trânsito com os
procuradores, que faziam todas as delações... E tudo mais. Nesse mundo obscuro
que é o Rio de Janeiro. O combate à corrupção não pode ser instrumento de
corrupção.
No julgamento
da suspeição de Moro, o sr. ficou frustrado com o voto de Nunes Marques, que
foi contra declarar o ex-juiz parcial?
Eu saio do
julgamento, o tema se encerra, e a vida segue com a mesma normalidade. Sou
bastante enfático, como vocês sabem. Posso até ter adversários, mas não tenho
inimigos, não.
O sr.
destacou que “não há salvação para o juiz covarde”. O voto dele foi covarde?
Não estava
falando sobre isso. É um artigo de Ruy Barbosa, que diz: “O bom ladrão
salvou-se. Mas não há salvação para o juiz covarde”. É uma expressão clássica.
Estimula-se muito a técnica do não conhecimento (rejeição do processo por
questões técnicas) para evitar enfrentar determinadas questões, especialmente
em matéria criminal. Eu sou crítico disso, porque depois nós acabamos por
chancelar brutais injustiças.
Após a
indicação para o STF, qual deve ser a relação do ministro com o chefe do
Executivo?
Tenho a
impressão de que esses vínculos políticos vão se esmaecendo com o tempo. É
natural e surge até um distanciamento...
Bolsonaro
riu ao ser informado por um apoiador de que uma ação contra Alexandre de Moraes
ficou nas mãos de Nunes Marques. Essa “bancada bolsonarista” que pode se formar
dentro do STF não preocupa?
Acho que não. A
vida é tão dinâmica, e as pessoas vão se conscientizando do seu papel. O que
acontece é que talvez o momento político está tão crispado e acaba acontecendo
que muitos políticos ficam falando para os seus convertidos: ‘Ah, estou atuando
nisso’, mas o ministro Kassio simplesmente encaminhou para o arquivo essa
matéria. Portanto, aqui não sinaliza nenhuma subordinação hierárquica ao
presidente da República. Ao revés, mostra que simplesmente ele está seguindo a
jurisprudência do STF.
O sr. vê
risco de um “Supremo bolsonarista”?
Não vejo, acho
que as pessoas (os indicados) começam a fazer uma autocrítica do seu papel.
O senador
Jorge Kajuru (Podemos-GO) divulgou áudio de uma conversa reservada com
Bolsonaro. O sr. vê crime nesse tipo de conduta?
Tudo isso é
muito estranho. De fato, a gente tem de resguardar a figura do presidente da
República. A impressão que ficou é de que um órgão que detém um tipo de
soberania está muito vulnerável. A interdição do debate público e a
criminalização da política estimularam aventureiros, que hoje compõem bancadas
no Congresso, mas que não têm cultura política parlamentar. Espero que esses
aventureiros não renovem mandato.
A Lei de
Segurança Nacional é uma herança maldita da ditadura?
Nós temos
muitas leis de ditadura. O próprio Código Penal e o Código de Processo Penal
são de uma ditadura hoje considerada mais “soft”, do Estado Novo, período
Vargas. Mas eu torço para que, de fato, haja a substituição da Lei de Segurança
Nacional. Que o Congresso faça um novo projeto, e a previsão expressa de uma
lei de defesa do estado democrático direito.
Agência Estado
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