
Mudanças previstas pelo BC visam a modernização do sistema
de câmbio e o uso de novas tecnologias.
MARCELLO CASAL JR. / AGÊNCIA BRASIL
Banco
Central vai anunciar em breve novas regras, que devem baratear e fortalecer
pequenas transações entre moedas
As próximas etapas do Pix, sistema de pagamento instantâneo do Banco Central (BC), podem incluir a implementação do Pix internacional, que permitirá a transferência em tempo real de recursos do Brasil para o exterior. A ferramenta está em estudo, ainda sem previsão para entrar em funcionamento, mas o BC deve propor em breve uma série de mudanças nas normas cambiais, visando a modernização do sistema de câmbio e a introdução de novas tecnologias como essa.
De novembro de
2020 a janeiro deste ano, a autoridade monetária abriu a Consulta Pública nº 79
(CP 79), para receber sugestões da proposta de aperfeiçoamento da
regulamentação cambial. O assunto foi discutido no webinar “CP 79: A Evolução
dos Facilitadores de Pagamento Internacionais”, realizado na última terça-feira
(13) pela Associação Brasileira de Internet (Abranet).
De acordo com o
chefe do Departamento de Regulação Prudencial e Cambial (Dereg) do Banco
Central, Lúcio Oliveira, a consulta teve mais de 300 contribuições e todas
estão sendo analisadas pelo BC, antes da nova norma ser votada pela diretoria
colegiada do banco. O objetivo é trazer novos arranjos de pagamento de forma
mais clara para dentro da regulamentação cambial, abrir o leque de
possibilidades de operações e potencializar os serviços prestados por meio
digital.
“O Banco
Central tem acompanhado de perto a evolução de novas tecnologias e modelos de
negócios, especificamente no mercado de câmbio e pagamentos eletrônicos, por
meio de plataformas digitais”, explicou. “A partir desse diagnóstico,
identificamos oportunidades de aperfeiçoar a regulamentação no mercado de
câmbio”, disse Oliveira.
A medida,
segundo ele, está alinhada com outras iniciativas internacionais. “Existe um
esforço em nível global de tornar as transações mais baratas, mais rápidas,
mais transparentes e melhorar o acesso dos clientes, dos cidadãos de forma
geral, a pagamentos e transferências internacionais”, disse.
Oliveira
explicou que o Pix internacional envolve três dimensões: as regulamentações do
próprio Pix e de câmbio e a infraestrutura de plataforma internacional. Na
questão do câmbio, para o conjunto de operações necessárias ao Pix, as
situações já estão todas colocadas na norma objeto da CP 79.
Para a chefe do
Departamento Jurídico do Paypal (empresa internacional de pagamentos online),
Mônica Leite, a implementação do Pix internacional é uma evolução natural.
Segundo ela, um sistema de transferência instantâneo envolvendo transações ao
exterior seria benéfico tanto para a utilização de pessoas físicas, quanto para
empresas de pequeno, médio e até mesmo grande porte.
"Vários
entraves podem ser solucionados com o Pix internacional. Hoje ainda é bastante
complicado [fazer transferências para o exterior], mas deve ser possível e [o
Pix] vai trazer benefícios para a população, especialmente quando se fala de
transferências unilaterais ou de pequeno valor. Mas com a possibilidade de que
evolua no futuro e possa ser utilizado para fins comerciais”, disse.
Transferências
cambiais
Um dos
principais pontos previstos na proposta objeto da CP 79 é a possibilidade das
Instituições de Pagamento (IPs) autorizadas pelo BC começarem a atuar no
mercado de transferências cambiais, realizando remessas pessoais ao exterior,
as chamadas remittances.
De acordo com
Oliveira, essas representam um grande número de transações, mas na maioria são
operações de valores baixos, em torno de US$ 3 mil. “Mas de importância muito
grande para inclusão financeira e importância social”, disse ele, já que, em
geral, são recursos enviados por familiares que trabalham no exterior para o
sustento da família no país de origem.
Outro pilar da
norma trata de instituições e contas de pagamento no mercado de câmbio.
Diferente das contas correntes, as de pagamento são mais simples e não podem
realizar operações de crédito. Deverá ser autorizado que pessoas ou empresas
sem domicílio ou sede no Brasil tenham contas de pagamento pré-pagas em reais
no país, com limite de valor em US$ 10 mil. Atualmente, estrangeiros ou
brasileiros que moram no exterior e querem fazer pagamentos no Brasil precisam
manter uma conta de depósito em banco autorizado a operar no mercado de câmbio.
O BC também
está tratando da modernização dos serviços de pagamentos ou transferência
internacional no mercado de câmbio, que permite que instituições de pagamentos
possam oferecer esses serviços. Atualmente, somente bancos e corretoras podem
fazer as operações. O limite das operações proposto é de US$ 100 mil e as
instituições de pagamento não trabalharão com moeda em espécie.
Nesse caso,
serão unificadas algumas regulamentações, para tornar os processos mais simples
para os participantes do mercado. Segundo Oliveira, hoje existem normas específicas
para cartão de crédito internacional e para empresas facilitadoras. O BC também
propõe que as operações de câmbio possam ser feitas de forma agregada pelas
instituições financeiras, em vez de ser por cliente, o que deve reduzir os
custos.
Segundo
Oliveira, esses três pilares centrais estão conectados na nova regulamentação,
em relação a novas possibilidade desses serviços serem ofertados, nesse
contexto de modernização e novas tecnologias. Existe ainda a previsão de
revisão e aperfeiçoamento contínuo da regulamentação do BC, em diversas áreas,
e pontos que não foram acolhidos agora poderão ser incorporados no futuro, de
acordo com o comportamento do mercado.
De acordo com
Mônica, desde 2015 o BC atua na flexibilização das normas de controle cambial,
mas muitas ainda estavam desconexas. Para ela, com o regulamento da CP 79 esse
descompasso não vai mais existir e haverá mais usabilidade tanto das
instituições de pagamento quanto a figura do facilitador poderá ser expandida.
“Essa figura
contribui para o ingresso e saída de recursos, facilitando a vida dos cidadãos
e das pequenas e médias empresas que estavam interessadas em acessar o mercado
internacional, mas não tinham acesso às mesmas facilidades que uma grande
empresa do mercado”, explicou.
Inclusão
digital
Segundo o
diretor Jurídico Regulatório do Ebanx (empresa de tecnologia para soluções de
pagamentos e transações financeiras) e Coordenador do Grupo de Trabalho de
Facilitadores da Abranet, Gilberto Martins, as mudanças propostas pelo BC foram
bem recebidas pelo mercado, que também pôde apontar melhorias.
Estamos
trazendo aspectos relevantes de concorrência, de desconcentração bancária,
possibilidade de redução de custo para o usuário e, naturalmente, mais inclusão
digital e modernização de serviço, sobretudo nesse momento de pandemia em que a
gente tanto precisa da vida digital. A norma é benéfica, é moderna e acompanha
as tendências globais”, disse.
PL Cambial
De acordo com
Lúcio Oliveira, a nova norma de câmbio já nasce alinhada com os princípios do
chamado PL Cambial, que é Projeto de Lei (PL) 5.387/19, que já foi aprovado
pela Câmara e está em tramitação no Senado. A medida deve se somar às mudanças
propostas pela CP 79 e pavimentar o caminho para o Pix internacional nos
próximos anos, abrindo novas possibilidades para as fintechs (empresas de
tecnologia e inovação do setor financeiro), IPs autorizadas e outros
participantes do mercado.
Esses
princípios, segundo ele, são eficiência, concorrência e simplificação, que
aproximam a regulamentação das necessidades de pagamento e transferência e
aumentam a competitividade. “Quando o PL Cambial for aprovado, passaremos a ter
novas condições e, certamente, será possível ampliar as possibilidades (para a
implementação do Pix internacional)”, destacou Oliveira.
Caminho
inevitável
O sócio do
escritório Pinheiro Neto Advogados e especialista em direito do setor
financeiro Raphael Salomão entende que, com o sucesso do Pix doméstico, como
foi adotad VEJAo pela população
e tem se mostrado seguro, e a modernização com o PL Cambial e a norma da CP 79,
“juntar as duas coisas é inevitável”.
Leia
também: Banco Central adia implementação do Pix Cobrança para 14 de maio
Um dos desafios
do Pix internacional, segundo ele, é adotar um sistema de liquidação em que
instituições de outras jurisdições terão que participar. “Um caminho é
facilitar que essas instituições tenham contas em reais aqui no Brasil de uma
forma mais fácil e flexível. Elas podem ter hoje, mas têm uma série de amarras
que tornam esse produto pouco explorado no país”, explicou. O PL Cambial, diz
Salomão, traz essa possibilidade e facilita a discussão sobre a implementação
do Pix internacional.
Da Agência Brasil
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