
Comissão vai periciar ao menos 510 boletins supostamente fraudados.
PEDRO GONTIJO/IMPRENSA MG
Denúncia
aponta que militares estariam amenizando os crimes registrados para reduzir as
estatísticas de violência no Estado
O Governo de Minas Gerais investiga um suposto esquema de fraudes em boletins de ocorrência registrados pela PM (Polícia Militar). Segundo a denúncia feita por um grupo de policiais civis, a suspeita é que os agentes estariam trocando a classificação dos crimes para reduzir os índices de violência divulgados pelo Estado.
Na denúncia, o
grupo enviou ao poder público 510 ocorrências que teriam sido burladas apenas
na região de Januária, a 603 km de Belo Horizonte, onde ele atua. No documento,
os agentes citam "casos como investigações de estupro de crianças
registradas como “outras”, roubos registrados como furtos, tentativas de
homicídios registradas como lesões corporais".
Na última
sexta-feira (23), a Sejusp (Secretaria Estadual de Justiça e Segurança Pública)
criou uma comissão que vai periciar os boletins de ocorrência supostamente
burlados. "Todas as providências serão tomadas em qualquer
possível constatação de divergências", garantiu a pasta.
Um deles relata
episódio em que um suspeito de crime "apontou a arma para a cabeça da
vítima e acionou o gatilho, em conseqüência aconteceu o disparo que atingiu a
cabeça da vítima Alisson, vindo o projetil a transfixar o couro cabeludo".
O caso foi registrado como de lesão corporal e os policiais civis questionaram
o motivo de não terem tipificado como tentativa de homicídio.
Outra registro
questionado é o de uma criança que relatou que o avô "retirava sua roupa e
abusava sexualmente dela" todos os dias, registrado como "outras
infrações contra a dignidade sexual e a família" e não como estupro de
vulnerável.
A denúncia
aponta que os tipos de delitos cadastrados nos boletins são mais brandos e não
fazem parte da lista dos 14 crimes violentos monitorados pela Secretaria de
Segurança e Justiça para os balanços sobre a violência.
"Também
não foram mencionadas ocorrências que tiveram tipificação alterada na delegacia
de polícia em virtude de investigações, como aquelas em que a vítima narra
determinada situação ao policial e ele omite a informação com intuito de não
tipificá-la como crime violento. Há o quarto caso que se refere àquelas
pessoas que procuram a unidade policial, mas não têm sua ocorrência
registrada", indica o dossiê.
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Os denúnciantes
ainda relatam que alguns militares já alegaram falta de conhecimento técnico
para correta classificação dos delitos ao se justificarem sobre os erros. "Ou
agiram em completa ignorância ou com extrema má-fé. Entretanto, a situação
é mais preocupante já que o conhecimento que alegaram ter concedeu-lhes a
possibilidade legal de decidir sobre a lavratura de termos circunstanciados de
ocorrências", questionam.
O grupo ainda
sugere que as fraudes foram praticadas "por frações de policiais militares
sob ordens de grupos superiores". No último mês de março, a Record
TV Minas mostrou relatos de membros da PM confirmando
adulteração de boletins de ocorrência e denunciando suposta pressão para
manipultação dos dados.
Crimes
violentos
Levantamento da
reportagem mostra um crescimento anual no número de ocorrências relacionadas a
crimes violentos em Minas Gerais entre 2012 e 2016, quando o total de casos
alcançou o ápice no período com 156.750 registros. Desde então, o índice vem
reduzindo ano a ano, chegando 46.517 em 2020 (veja tabela completa
abaixo).
Fazem parte da
lista de crimes violentos: estupro consumado, estupro de vulnerável consumado,
estupro de vulnerável tentado, estupro tentado, extorsão consumado, extorsão
tentada, extorsão mediante sequestro consumado, homicídio tentado, roubo
consumado, roubo tentado, sequestro e cárcere privado consumado, sequestro e
cárcere privado tentado e homicídio consumado.
Veja o
número de crimes violentos registrados em Minas entre 2012 e 2020:
2020: 46.517
2019: 69.095
2018: 95.089
2017: 136.589
2016: 156.750
2015: 138.244
2014: 118.105
2013: 101.287
2012: 82.823
Resposta
Procurada pela
reportagem, a Polícia Militar informou que a Sejusp iria se manifestar em nome
da corporação. Em nota, a Secretaria defendeu que "a produção de
estatísticas criminais no Estado de Minas Gerais passa por criterioso processo
de extração de dados no Registro de Eventos de Defesa Social (Reds), com
consequente auditagem por amostragem".
"É um
trabalho sistematizado e transparente, que envolve diversos profissionais e não
depende apenas de registros realizados na ponta da linha por uma ou outra
unidade ou instituição", ressaltou a pasta.
A Sejusp ainda
destacou a comissão que irá investigar o caso é formada por servidores de
diferentes orgãos para garantir "máxima transparência e
assertividade em todos os processos". O grupo é formado por
funcionários da própria secretaria, além da Ouvidoria-Geral do Estado,
Controladoria-Geral do Estado, Polícia Militar, Polícia Civil e Corpo de
Bombeiros.
A comissão tem
30 dias para apresentar um parecer sobre o caso. O prazo pode ser ampliado,
caso necessário.
Veja a
íntegra da nota da Secretaria Estadual de Segurança e Justiça:
"A
produção de estatísticas criminais no Estado de Minas Gerais passa por
criterioso processo de extração de dados no Registro de Eventos de Defesa
Social (Reds), com consequente auditagem por amostragem. É um trabalho
sistematizado e transparente, que envolve diversos profissionais e não depende
apenas de registros realizados na ponta da linha por uma ou outra unidade ou
instituição.
A Secretaria
de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp), a Polícia Militar e a
Polícia Civil estão cientes da denúncia realizada por alguns profissionais de
Januária. Com o objetivo de máxima transparência e assertividade em todos os
processos, foi criado um grupo de trabalho com a participação da Sejusp, PM,
PC, Ouvidoria Geral do Estado e Controladoria Geral para discutir o assunto,
checar e inspecionar qualquer hipótese de inconsistência em naturezas criminais
registradas. Todas as providências serão tomadas em qualquer possível
constatação de divergências.
Na última
sexta-feira (23/4), foi publicada no Diário Oficial do Estado portaria que cria
uma comissão para verificação da natureza de ocorrências inseridas no Sistema
de Registro de Eventos de Defesa Social (Reds).
Além de
servidores da Sejusp, também foram convidados para fazer parte da comissão
servidores da Polícia Militar, Polícia Civil, Corpo de Bombeiros Militar,
Ouvidoria-Geral do Estado e Controladoria-Geral do Estado, bem como
representantes de organizações acadêmicas com conhecimento e experiência na
área de segurança pública e defesa social.
O início dos
trabalhos é imediato, e a portaria prevê que a comissão conclua as verificações
em um prazo máximo de 30 dias, que pode ser estendido mediante
justificativa."
Pablo Nascimento, do R7
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