
Imagem: Reprodução
A Suíça admitiu ter concedido vistos Schengen a
agentes do Estado comunista chinês, depois que um relatório revelou que o país
tem pouca supervisão sobre o que os agentes enviados pelo Partido Comunista
Chinês (PCC) fazem durante suas viagens à Europa, informou a Radio Free Asia (RFA)
Em resposta a
um relatório recente do grupo de direitos ‘Safeguard Defenders’, a porta-voz da
Secretaria de Estado de Migração da Suíça, Emmanuelle Jaquet von Sury, disse que
“as delegações são tratadas sob as mesmas regras que outros estrangeiros que
entram legalmente na Suíça e seus movimentos não são restritos em seu tempo
livre”.
“Isso foi
especificado a pedido do lado chinês, a fim de diferenciar os especialistas dos
diplomatas chineses que representam oficialmente a China em nível político”,
disse Jaquet von Sury.
Em um relatório
de 9 de dezembro, intitulado “Mentiras e espiões”, a Safeguard
Defenders disse que era inconcebível que um país da Europa Ocidental
desse “acesso irrestrito” aos oficiais de segurança e inteligência chineses que
trabalham dentro de suas fronteiras.
Sob o “acordo
de readmissão” com Pequim, a Suíça concordou, em 8 de dezembro de 2015, em
permitir que agentes do Ministério da Segurança Pública da China circulem
livremente e sem supervisão dentro de suas fronteiras. Os detalhes só surgiram
quando a data de expiração do acordo se aproximava este ano, disse a Safeguard
Defenders.
Normalmente, os
acordos bilaterais de readmissão regem a repatriação de cidadãos do outro país
e pedidos de assistência, mas o acordo sino-suíço foi “de um caráter totalmente
diferente”, disse o grupo em seu relatório, que foi desencadeado por um artigo no
jornal ‘NZZ am Sonntag’, em agosto.
Embora a
maioria dos acordos bilaterais de readmissão seja negociada entre departamentos
de imigração, o acordo com a China foi fechado com o Ministério da Segurança
Pública, que tem ramos que lidam com espionagem e contraespionagem.
“É também um
órgão envolvido em abusos generalizados, sistemáticos e abrangentes dos
direitos humanos”, disse a Safeguard Defenders, acrescentando que os benefícios
se estendiam apenas em uma direção e não eram recíprocos.
“Os agentes são
oficialmente autorizados a entrar na Suíça secretamente – isto é, eles não
declaram seu status ou estão lá em qualquer capacidade oficial”, disse o
relatório, citando um acordo com o Reino Unido que permite que os funcionários
de qualquer Estado devem entrar no outro país em sua qualidade oficial.
Os agentes
chineses têm permissão para ficar por duas semanas e entrevistar cidadãos
chineses enquanto estiverem lá, com os custos totais da viagem pagos pelo
governo suíço.
“Os
contribuintes suíços estão pagando para que os agentes da polícia chinesa
entrem secretamente na Suíça e conduzam operações sem supervisão contra os
chineses dentro de seu país”, escreveu a Safeguard Defenders.
Enquanto as
entrevistas estão sendo conduzidas com cidadãos chineses, as autoridades suíças
estão fisicamente presentes, mas não têm intérpretes e, portanto, não conseguem
entender o que está sendo dito.
Eles também são
livres para viajar para qualquer lugar dentro do espaço Schengen e podem entrar
em outros Estados Schengen e da UE sem que as autoridades tomem conhecimento de
sua situação, disse o relatório.
Retornos
involuntários
A prática, que
tem sido defendida por oficiais suíços como um arranjo administrativo
necessário para permitir o retorno de solicitantes de refúgio chineses, também
corre o risco de permitir que agentes do Estado chinês obriguem as pessoas a
retornar à China enquanto estiverem no país, sem o conhecimento do governo
suíço.
Acredita-se que
a polícia de segurança do Estado da China tenha realizado “retornos involuntários”
de requerentes de asilo de outros países à China, incluindo a Tailândia, nos
últimos anos.
O comentarista
alemão, Cheng Shiguang, disse que o acordo era semelhante a “fazer um acordo
com o diabo”.
“Este acordo
secreto entre a Suíça e o Partido Comunista Chinês (PCC) sobre a imigração
afetará definitivamente os ativistas de direitos humanos e defensores da
democracia no Ocidente”, disse Cheng à RFA.
“O PCC pode
usar isso para enviar seus agentes para ameaçar as pessoas e forçá-las a voltar
para a China”, disse ele. “A Suíça basicamente abriu uma enorme porta dos
fundos para a UE para espiões chineses, que podem usar seus vistos Schengen
para roubar informações de qualquer um dos países Schengen.”
Cheng pediu ao
parlamento suíço e ao parlamento da UE que investiguem mais.
Um dilema
moral
O ativista de
direitos humanos Wang Aizhong, baseado em Guangzhou, disse que pessoas que
fogem de uma operação de segurança nacional em Hong Kong podem estar em risco,
mesmo depois de chegarem a um país Schengen.
“Se este
tratado não for revisado ou ajustado, haverá um dilema moral”, disse Wang.
“Eles realmente querem deixar o destino dessas pessoas para o governo chinês?”
“Não se trata
apenas da Suíça; outros países ao redor do mundo também devem ser alertados”,
disse Wang.
O ativista
sueco de direitos humanos e fundador do Safeguard Defenders, Peter Dahlin,
disse que a tendência suíça de ‘manter o sigilo’ pode ser perigosa se usada
para forjar acordos com regimes autoritários como o da China.
“A
classificação da Suíça deste acordo como um ‘acordo de readmissão’ é enganosa”,
disse Dahlin. “É ultrajante que este chamado acordo recíproco coloque o lado
suíço sob a obrigação de manter em segredo a identidade e as atividades dos
agentes visitantes do Ministério da Segurança Pública chinês, uma conhecida
organização de espionagem.”
Desde a
publicação do relatório do Safeguard Defenders, o governo suíço confirmou que o
acordo foi autorizado a expirar em 7 de dezembro e que não há planos de
renová-lo.
“Ainda não
discutimos [a renovação do acordo] concretamente com a China”, disse o
porta-voz da imigração, Daniel Bach, à agência de notícias Keystone-SDA,
acrescentando: “Não é nossa principal prioridade”.
Por Thaís Garcia
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