
Wilson WitzelReprodução Internet
Ex-secretário
de Saúde do RJ Edmar Santos também foi denunciado; fatos estão ligados às
investigações da Operação Kickback
Rio - O
Ministério Público Federal (MPF) denunciou, nesta terça-feira, o governador
afastado do Rio, Wilson Witzel, o pastor Everaldo, o ex-secretário de Saúde do
Rio Edmar Alves dos Santos, empresários e advogados pelos crimes de corrupção
ativa e passiva e lavagem de dinheiro por intermédio de organização criminosa.
A denúncia oferecida ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) está ligada às
investigações da Operação Kickback, que cumpriu 10 mandados de
busca e apreensão, dois de prisão preventiva, além de medidas cautelares e
indisponibilidade de bens dos investigados
Além da
condenação dos denunciados, o MPF requereu ao STJ a perda da função pública, em
especial, para Wilson Witzel, e indenização por danos morais no valor mínimo de
R$ 106,7 milhões, o dobro do montante desviado e lavado pelos denunciados.
De acordo com a
denúncia, de 8 de julho de 2019 a 27 de março de 2020, Wilson Witzel, se
utilizando do cargo de governador do Rio, em ao menos 11 oportunidades,
solicitou, aceitou promessa e recebeu vantagens indevidas no valor de R$
53.366.735,78, agindo em conluio com pastor Everaldo, Edmar Santos e o
empresário Edson da Silva Torres. O grupo teve o auxílio dos advogados Wagner
Bragança e Juliana Nunes Vieira Leite e do operador financeiro Victor Hugo
Amaral Cavalcante Barroso. A propina foi paga pelo empresário José Mariano
Soares de Moraes, com a intenção de obter facilidades no pagamento de valores
inscritos em restos a pagar devidos pela Secretaria de Saúde à organização
social Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus. Todos os envolvidos foram
denunciados.
Na denúncia,
assinada pela subprocuradora-geral da República Lindôra Araújo, o MPF salienta
que o grupo, de modo consciente e voluntário, ocultou e dissimulou a natureza,
a origem, a localização, a disposição, a movimentação e a propriedade dos mais
de R$ 53,3 milhões "por intermédio de organização criminosa, convertendo
em ativos lícitos o produto de crimes de corrupção e distanciando o dinheiro de
sua origem ilícita, mediante a simulação de contrato de advocacia entre o
escritório Nogueira & Bragança Advogados Associados, de Wagner Bragança, e
o Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, de José Mariano Soares de
Moraes".
As ações do
grupo foram concretizadas em diversos períodos e sempre com a anuência de
Wilson Witzel, pastor Everaldo, Edmar e Edson. Os valores eram sempre
transferidos pelo advogado Wagner Bragança. De 16 de agosto de 2019 a 21 de
outubro do mesmo ano, em ao menos seis oportunidades, o advogado Wagner
Bragança transferiu R$ 5.724.133,33 para as contas da Murano Empreendimentos –
que tem como sócia Liliana Cavalcante Barroso – e da South America Properties,
que tem como responsável Soraia Amaral Cavalcante Barroso. Nesta ação, Wagner
teve, ainda, a ajuda de Victor Hugo Amaral e Juliana Nunes Vieira Leite.
Outros R$ 9
milhões de origem ilícita foram ocultados e lavados pelo grupo, em três
oportunidade, no período de 2 de outubro a 18 de dezembro de 2019. Desta vez,
os valores foram transferidos da conta Nogueira & Bragança Advogados Associados
para a conta da empresa USS Holding, que tem Allan Feitosa de Oliveira e Victor
Vianna Costa como sócios. A ação criminosa também contou com a participação de
Victor Hugo Amaral Juliana Leite.
De 5 de julho
de 2019 a 9 de abril deste ano, em 15 oportunidades distintas, outros R$ 4,550
milhões foram transferidos da conta da Nogueira & Bragança para a LAC
Barroso/Sociedade Advogado/Barroso Vianna & Advogados, que tem Victor
Vianna e Liliana Amaral como sócios. Com a mesma estratégia de atuação, o grupo
transferiu outros R$ 3,5 milhões para a conta de Victor Duque Estrada Zeitune,
com posteriores repasses aos envolvidos na ação. Os cinco repasses ocorreram
entre 8 de outubro de 2019 e 10 de fevereiro deste ano.
O esquema
As investigações
que envolvem o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, foram
iniciadas pela Procuradoria da República no RJ e pelo Ministério Público
estadual (MP/RJ) e, devido ao foro privilegiado do político junto ao STJ, foram
enviadas à Procuradoria-Geral da República (PGR). As informações deram origem
às operações Placebo e Favorito. Após as deflagrações, o ex-secretário de Saúde
do Rio Edmar Santos assinou acordo de colaboração premiada com o MPF e revelou
a instalação criminosa no governo de Witzel, continuando os esquemas praticados
pelos ex-governadores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão. Com as novas
investigações, foi deflagrada a Operação Tris in Idem, que culminou com o
afastamento temporário de Witzel do governo e com a prisão preventiva de vários
integrantes do Executivo estadual.
De acordo com
Edmar Santos, do montante de dinheiro público desviado para as organizações
sociais, 5% eram divididos entre cinco pessoas, sendo que ele recebia 30%.
Wilson Witzel e pastor Everaldo recebiam 20%, cada, e Edson Torres e Victor
Barroso também recebiam 15% cada um. Segundo afirmou Edmar, o esquema de
cobranças de vantagens indevidas foi elaborado em cima dos restos a pagar do
governo do Rio. As informações de Edmar foram confirmadas com a quebra do
sigilo bancário dos envolvidos e relatos encaminhados pela Unidade de
Inteligência Financeira (UIF).
Ainda segundo o
MPF, a organização criminosa chefiada por Wilson Witzel tinha três pilares,
sendo que um é comandado por Mário Peixoto, outro, por pastor Everaldo, Edson
Torres e Victor Hugo Barroso; e o terceiro, por José Carlos de Melo. As ações
do grupo eram divididas em quatro núcleos: econômico, administrativo,
financeiro-operacional e político. Este último era formado por Witzel e pastor
Everaldo. A denúncia relata o poder exercido pelo pastor nas contratações e
orçamento da Companhia Estadual de Água e Esgoto (Cedae), Detran e Secretaria
de Estado de Saúde. Nesta pasta, o grupo instituiu uma espécie de pedágio com o
pagamento de vantagens indevidas aos seus integrantes que recebiam propinas
sobre os montantes liberados de restos a pagar aos fornecedores.
Do montante de
R$ 53,366 milhões transferidos do Hospital e Maternidade Therezinha de Jesus, o
MPF já mapeou mais de R$ 22,774 milhões, que foram distribuídos a pessoas
físicas e jurídicas ligadas a Victor Hugo Barroso. "Nota-se que o repasse
dos recursos aos demais denunciados ocorria poucos dias após o crédito efetuado
pela OS HMTJ na conta do escritório Nogueira, Simão e Bragança Advogados
Associados ou até no mesmo dia", destaca um dos trechos da denúncia.
Segundo o MPF, o fato de o grupo criminoso ter feito transferências bancárias
facilitou as investigações e a coleta das provas.
Para facilitar
a ação do grupo criminoso, o governador Wilson Witzel chegou a criar, por meio
de decreto, a Comissão Consultiva de Programação e Controle de Despesas do
Estado do Rio de Janeiro (Coderj). No entanto, o decreto foi modificado e
revogado, posteriormente. Uma das atribuições da Coderj era analisar e emitir
pareceres em processos relativos a pagamentos de despesas em "restos a
pagar".
POR O DIA
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