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| © Foto: Gregório Bórgia/AP |
No
documento Querida Amazônia, divulgado na manhã desta quarta-feira,
12, o papa Francisco recua da proposta de que, em casos
específicos e de acordo com a necessidade, homens casados sejam ordenados
padres em comunidades afastadas da região amazônica. A proposta foi discutida
pelos bispos durante o Sínodo da Amazônia, realizado em outubro, no
Vaticano.
Francisco
rejeitou a medida mesmo após a recomendação positiva de bispos. A "exceção
amazônica" do celibato foi levantada por bispos em razão das “enormes
dificuldades de acesso à eucaristia”, já que parte das comunidades da região
ficam meses e até vários anos sem a presença de um sacerdote. Para diminuir o
problema, foi pedido ao papa que autorizasse a ordenação de sacerdotes sem
exigência do celibato clerical.
A medida,
frisaram os bispos favoráveis, seria aplicada a “homens idôneos e reconhecidos
pela comunidade, que tenham diaconato permanente fecundo e recebam uma formação
adequada para o presbiteriado”. Outra exigência é que esses homens tivessem
“uma família legitimamente constituída e estável”.
A estratégia
foi criticada veementemente por bispos conservadores. Francisco foi atacado por
posições contrárias de representantes dos mais variados níveis dentro da Igreja
Católica, todos opostos à ideia de “tirar do sacerdócio aquilo que o torna mais
especial”. O cardeal canadense Marc Ouellet chegou a publicar um livro inteiro
defendendo o celibato clerical e chegou a enviar dois exemplares da obra
diretamente ao papa.
Até Bento XVI,
seu antecessor que havia prometido manter-se afastado da vida pública quando
renunciou ao cargo, entrou na conversa coassinando a autoria de um livro que
também defende o celibato - e depois pediu para que seu nome fosse retirado da
obra. “A habilidade de renunciar ao casamento para se posicionar completamente
à disposição do Senhor tem se tornado um critério para o ministério
sacerdotal”, escreveu Bento XVI.
Apesar da
tradição, a regra que prevê o celibato entre padres não é um dogma da Igreja
Católica, o que significa que ela pode ser alterada ou revogada, em tese. Um
dos últimos momentos de revisão do celibato foi em 2009, quando Bento XVI
permitiu que padres anglicanos casados fossem convertidos ao catolicismo. Na
ocasião, ele deixou claro que a medida não significava uma mudança abrangente
na postura da Igreja. Em 2019, durante coletiva de imprensa, o próprio
Francisco se posicionou sobre o tema. “Diria que não concordo com o celibato
opcional”, afirmou, classificando a prática como um “presente para a Igreja”.
Na
chamada exortação apostólica do Sínodo dos Bispos, o pontífice
caracteriza como “desigual” a presença de padres na área, reforça a importância
de preservação do meio ambiente e pede aos bispos da América Latina para
“promoverem a oração” por mais vocações e aos missionários para irem à
Amazônia.
“Exorto todos a
avançar por caminhos concretos que permitam transformar a realidade da Amazónia
e libertá-la dos males que a afligem”, afirma Francisco, no texto redigido em
espanhol e finalizado no dia 2 de fevereiro. O documento está disponível
no link do Sínodo da Amazônia.
O texto está
elaborado em quatro capítulos descritos como “sonhos” do pontífice: Social, em
defesa dos mais pobres e povos nativos; Cultural, sobre a preservação da
riqueza dos povos; Ecológico, sobre o resguardo da beleza natural; e Eclesial,
dirigido às comunidades cristãs, para dar à Igreja “rostos novos com traços
amazônicos”.
Internacionalização
da Amazônia
No documento, o
papa Francisco também fala sobre a chamada “internacionalização” da
Amazônia. Diz que a medida não é a solução para cuidar do bioma. O
pontífice cobra, ao falar sobre a preservação do meio ambiente, que os governos
não se vendam a “espúrios interesses” locais ou internacionais.
“Além dos
interesses económicos de empresários e políticos locais, existem também os
enormes interesses económicos internacionais. Por isso, a solução não está numa
internacionalização da Amazônia, mas a responsabilidade dos governos nacionais
torna-se mais grave”, escreveu a papa, para em seguida defender a presença e o
trabalho desenvolvido por Organizações Não-Governamentais (ONGs) – entidades
que são constantemente criticadas pelo presidente Jair Bolsonaro.
“Pela mesma
razão, é louvável a tarefa de organismos internacionais e organizações da
sociedade civil que sensibilizam as populações e colaboram de forma crítica,
inclusive utilizando legítimos sistemas de pressão, para que cada governo cumpra
o dever próprio e não-delegável de preservar o meio ambiente e os recursos
naturais do seu país, sem se vender a espúrios interesses locais ou
internacionais”, diz o texto.
A proposta da
“internacionalização” era de grande preocupação do governo Jair Bolsonaro, em
especial dos militares, que viam no Sínodo uma tentativa de fragilizar a
soberania nacional sobre a porção brasileira do território amazônico. O quadro
levou a um choque entre o governo Bolsonaro e o Vaticano, após o Estado revelar
que o encontro episcopal era alvo de monitoramento pelos serviços de
inteligência.
A exortação
final, espécie de orientação do papa após todas as discussões do Sínodo, era
aguardada com atenção por militares e diplomatas brasileiros que mantiveram
diálogo com o Vaticano para tentar garantir uma palavra em defesa da soberania
no documento final.
O tema ganhou
mais relevância quando, com a Amazônia em chamas, o presidente francês,
Emmanuel Macron, propôs uma discussão sobre um “status internacional” para a
floresta.
Sem fazer
menção específica a nenhum país ou governante, o pontífice se opõe ao avanço da
exploração econômica em terras indígenas e reservas florestais e, de forma
taxativa, afirma que são “injustiça e crime”.
“Às operações
económicas, nacionais ou internacionais, que danificam a Amazônia e não
respeitam o direito dos povos nativos ao território e sua demarcação, à
autodeterminação e ao consentimento prévio, há que rotulá-las com o nome
devido: injustiça e crime”, escreveu Francisco.
Como funciona
um Sínodo?
Durante os
Sínodos, “o papa ouve mais do que fala”, explicou o bispo d. Odilo P.
Scherer, em artigo escrito para o Estado. O evento, na
verdade, serve para que o Vaticano possa ouvir a opinião dos fiéis sobre
assuntos específicos, por meio de questionários conduzidos pelos 250 bispos
participantes, e tomar decisões a partir desses consensos.
Em 2014 e 2015,
o Sínodo teve como tema “Os desafios pastorais no contexto da evangelização”,
e abordou temas como divórcio, contracepção e a união entre
casais homoafetivos na Igreja. Em 2018, os cardeais discutiram “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional” e
no ano passado, em outubro, “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma
ecologia integral”. Participaram do encontro no ano passado bispos e líderes
religiosos, além de indígenas e convidados especiais, dos nove países
amazônicos - Brasil, Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Perú, Suriname,
Venezuela e Guiana Francesa –, além de outros da Cúria Romana. O papa ressalta,
porém, que a exortação apostólica se dirige ao mundo todo.
O objetivo de
um Sínodo é discutir como a Igreja
Católica pode intervir em determinados conflitos, assim como
adequar suas diretrizes em lugares onde haja dificuldade de converter novos
fiéis e disseminar os ideais católicos.
A palavra
"sínodo" vem de duas palavras gregas: "syn", que significa
"juntos", e "hodos', que significa "estrada ou caminho'. O
sínodo tem caráter consultivo. Após o Sínodo, o papa emite um documento chamado
"exortação apostólica", no qual resume e aprova as principais
conclusões dos bispos durante as reuniões. O Sínodo da Amazônia foi o quarto do
pontificado de Francisco. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS
Felipe
Frazão e João Ker

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