
Segundo o
estudo, nenhum dos 111 casos passou por julgamento em plenário; para
professores, STF viola ritos e etapas processuais. O Supremo ainda não se
manifestou sobre a pesquisa.
Pesquisa da
Fundação Getúlio Vargas (FGV) concluiu que, nos últimos 30 anos, todos os
pedidos de suspeição ou impedimento de ministros do Supremo Tribunal Federal
(STF) foram arquivados sem passar pelo plenário.
O levantamento,
divulgado nesta segunda-feira (12) pelo jornal "Folha de S.Paulo",
analisou casos desde 1988, ano de promulgação da Constituição. Além de ter
arquivado todos os pedidos, o Supremo, segundo a pesquisa, violou o regimento
em ações sobre imparcialidade.
A pesquisa
ficou pronta no fim do ano passado e ainda não foi publicada em publicações
científicas. O grupo de pesquisadores da FGV analisou pedidos de impedimento ou
suspeição para avaliar como está o controle da imparcialidade dos ministros da
Corte.
O Supremo
Tribunal Federal ainda não se manifestou sobre a pesquisa.
O regimento
interno do STF prevê que, após receber uma arguição, um questionamento, de
suspeição ou impedimento existem três etapas:
- a análise da admissibilidade pelo presidente da
corte, que pode decidir pelo arquivamento;
- a oitiva do ministro, que também pode se declarar
impedido ou suspeito em qualquer momento do processo;
- e o encaminhamento do caso para julgamento no
plenário.
Segundo o
Código de Processo Civil, o magistrado está proibido de exercer suas funções em
processos de que for parte ou neles tenha atuado como advogado. Além disso,
será considerado suspeito por sua parcialidade quando for amigo íntimo ou
inimigo capital de qualquer das partes, receber presentes antes ou depois de
iniciado o processo, aconselhar alguma das partes sobre a causa, entre outros.
De acordo com a
pesquisa, em mais de 30 anos, foram 111 arguições de impedimento ou de
suspeição. Uma delas ainda não foi analisada. Dos demais 110 pedidos:
- 76 foram arquivados logo no início. Ou seja, o
ministro sequer chegou a receber ofício para se explicar;
- em 14 casos, o ministro se autodeclarou impedido e
a arguição foi arquivada;
- e em 20 processos, o ministro foi questionado pela
presidência da Corte, deu explicações, mas o caso foi arquivado sem ir a
plenário por decisão monocrática do presidente, que considerou os
processos improcedentes ou que já tinham perdido o objeto porque a ação
principal já tinha sido julgada.
Como exemplo, a
pesquisa da FGV cita um pedido de suspeição que questionava a participação do
presidente do Supremo, ministro Dias Toffoli no julgamento do registro de
candidatura de João Alberto Rodrigues Capiberibe, nas eleições de 2010, que
havia sido indeferido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), diante da
aplicação da Lei da Ficha Limpa.
Os responsáveis
pelo pedido de suspeição alegavam que o ministro seria amigo íntimo do
recorrente por ter sido seu advogado durante anos e que teria, portanto,
interesse no julgamento da ação.
Na ocasião,
Toffoli negou qualquer relação de amizade com Capiberibe, afirmando que houve
apenas uma atuação "estritamente profissional", o que não
prejudicaria a sua imparcialidade em participar do julgamento.
Tal
posicionamento foi acolhido pelo então presidente da Corte Cezar Peluso, que
indeferiu o pedido de suspeição.
Outros exemplos
envolvem o ministro Gilmar Mendes e tratam de pedidos de impedimento que
acabaram perdendo o objeto. Os casos foram ajuizados pela Procuradoria Geral da
República (PGR) para questionar a relação do ministro com os empresários Eike
Batista, Lelis Marcos Teixeira e Jacob Barata Filho.
Havia suspeição
por relação de amizade do ministro e também profissional por parte de
familiares dele na defesa dos acusados de corrupção. Gilmar Mendes, em
manifestação, rejeitou os argumentos de suspeição da procuradoria.
Lula
O Supremo
deverá se posicionar ainda este semestre sobre um pedido de suspeição, feito
pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contra o ministro da
Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro. A ação questiona a conduta de Moro
quando ele era juiz da Operação Lava Jato.
O caso, porém,
não tem relação com integrantes do Supremo, e sim com a conduta de um então
magistrado de outra instância. Foi Sérgio Moro quem condenou Lula no caso do
triplex, o que levou o ex-presidente à prisão.
Pedidos
Os
pesquisadores da FGV concluíram que os processos de análise dos pedidos de
suspeição e impedimento são conduzidos pelo Supremo com "tons de
deferência, com violações aos ritos e etapas processuais, sem transparência
sobre os fatos e argumentações jurídicas para afastamento ou manutenção do
ministro no caso, bem como com espaço para ações oportunistas por parte da
presidência do Supremo".
Um dos autores
da pesquisa afirma que a imparcialidade dos ministros precisa ser notada pela
população. Ele avaliou que existe um controle, mas não como deveria ser.
"A grande
conclusão da pesquisa é que o STF não age com a devida transparência e com a
seriedade com os ritos para transmitir para população e para outras
instituições que eles fazem um controle da imparcialidade dos seus ministros.
Eles fazem algum controle, mas de um modo que fica absolutamente às
escondidas", disse o professor Rubens Glezer.
Por Jornal Hoje
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