Prefeituras
e distribuidoras de água foram questionadas sobre a pesquisa, divulgada pelas
organizações Agência Pública, Repórter Brasil e Public Eye, que aponta níveis
de agrotóxicos acima do permitido pela legislação brasileira.
O G1 buscou
informações sobre os níveis de agrotóxicos presentes na água consumida em 50
municípios do interior do Rio, área de cobertura da Inter TV, com base na
pesquisa "Por Trás do Alimento", divulgada em 15 de abril pelas
organizações Agência Pública, Repórter Brasil e Public Eye.
A parceria
entre as agências teve como objetivo interpretar tabelas complexas do
Ministério da Saúde para tornar os dados acessíveis à população.
Desta forma, as
informações sobre agrotóxicos inseridas no sistema Sisagua, do Governo Federal,
pelas próprias distribuidoras de água ou Prefeituras, entre os anos de 2014 e
2017, ganharam uma versão mais simples: um
mapa informativo.
Nele, ao
inserir o nome da cidade, o morador pode saber não só se a quantidade de
agrotóxico na água que ele consome está dentro do limite permitido pela legislação
brasileira, mas também os tipos e o nível de toxidade de cada um deles.
O Ministério da
Saúde disse ao G1 que também está fazendo a compilação desses
dados para emitir uma informação oficial, mas a divulgação só deve ocorrer,
ainda segundo o órgão, no final do primeiro semestre deste ano.
O G1 perguntou
se o Ministério da Saúde faz pela primeira vez esse tipo de análise para
informar a situação da água à população, mas ainda não obteve resposta.
As agências
conseguiram os relatórios após entrar com pedido via Lei de Acesso à
Informação.
"O que
nós fizemos foi divulgar uma informação que é pública, mas que não estava
acessível. Fizemos um esforço para traduzir a informação", disse a
jornalista da Repórter Brasil, Ana Aranha.
A jornalista
ressaltou ainda que os dados "são todos do Sisagua e foram analisados de
acordo com a metodologia do próprio Ministério da Saúde".
"Ao longo
da elaboração do mapa, nós consultamos o Ministério da Saúde para nos
certificar de que estávamos lendo os dados de forma correta", concluiu
Ana.
Por meio desse
esforço investigativo das organizações, que durou cerca de um ano, uma situação
preocupante foi revelada à população brasileira: o excesso da concentração de
alguns dos 27 agrotóxicos que as distribuidoras de água são obrigadas, por lei,
a detectar e lançar no sistema Sisagua.
Foi com base no
mapa criado pelas organizações, que o G1 questionou as
condições da água em 50 cidades do interior do Rio. Dos 50 municípios, foram
encontrados dados de apenas 14, pressupondo que o restante, 36, sequer enviou
informações ao governo federal. Todos foram procurados por esta reportagem.
Segundo o estudo,
três municípios, entre os 14 que enviaram os dados, apresentam quantidade de
agrotóxicos na água de consumo acima do limite permitido pela legislação
brasileira:
- Campos dos Goytacazes: 9 tipos
em excesso
- Petrópolis: 1 tipo em excesso
- Trajano de Moraes: 1 tipo em
excesso
Dados por
município entre 2014 e 2017
Campos
dos Goytacazes
Em Campos dos
Goytacazes, no Norte Fluminense, a pesquisa indicou que foram encontrados na
água para consumo os 27 tipos de agrotóxicos testados, destes, nove estavam
acima do limite permitido por lei: Aldrin, Carbofurano, DDT + DDD + DDE,
Endossulfan, Metamidofós, Metolacloro, Permetrina, Simazina e Terbufós. Destes
nove, dois deles, o DDT + DDD + DDE e a Permetrina, são considerados altamente
tóxicos e relacionados a doenças crônicas como câncer, defeitos congênitos e
distúrbios endócrinos.
O G1 entrou
em contato com a concessionária responsável, Águas do Paraíba, que disse que
"segue rigorosamente os padrões de qualidade e de potabilidade
determinados pelo Ministério da Saúde, cumprindo integralmente toda a
legislação federal e estadual que regula a matéria".
Petrópolis
e Trajano de Moares
Nos municípios
Petrópolis e Trajano de Moraes foram detectados, segundo o mapa elaborado pela
Agência Pública e Repórter Brasil, níveis do agrotóxico Aldrin acima do
permitido pela lei.
O G1 procurou
a concessionária responsável pelo abastecimento de Petrópolis, a Águas do
Imperador, e aguarda retorno.
Já a Cedae,
responsável pelo serviço em Trajano de Moraes, respondeu que "os dados
obtidos no monitoramento do sistema de abastecimento de Trajano de Moraes, de
2014 até o momento, apresentaram resultados dentro do limite para todos os
agrotóxicos analisados, tanto na água bruta quanto na água tratada".
Outros
municípios com dados
Os outros onze
municípios com dados disponíveis na pesquisa apresentaram resultados dentro da
legislação brasileira, segundo o estudo. São eles:
Santo
Antônio de Pádua (Águas de Pádua), Cabo Frio (Prolagos), Nova
Friburgo (Águas de Nova Friburgo), Araruama (Águas de
Juturnaíba), Casimiro de Abreu (Águas de Casimiro), Bom
Jardim, Cordeiro, Cantagalo, Duas
Barras e Sumidouro (Cedae).
Porciúncula (Cedae)
também está entre esses municípios, porém, a pesquisa indicou que apenas dez
dos 27 testes exigidos tinham sido feitos.
Nós procuramos
a Cedae que disse que "os dados verificados na pesquisa para o município
de Porciúncula estão inconsistentes com os relatórios analíticos que contêm o
monitoramento de todos os parâmetros de agrotóxicos".
Onde estão
os dados de 36 municípios?
A reportagem
procurou também os responsáveis pela água dos 36 municípios que não tiveram os
números divulgados para saber se as empresas têm monitorado a qualidade da água
que chega à casa das pessoas.
Cedae
A Cedae,
responsável pelo abastecimento de água em 32 dos 50 municípios procurados
pelo G1, informou que faz a análise dos dados, mas não é obrigação
dela lançar os números no Sisagua. Dos municípios atendidos pela companhia, 26
não tiveram os dados compilados pela pesquisa "Por Trás do Alimento".
Por isso, procuramos as Prefeituras para responder a afirmação da Cedae.
- Macaé
A Prefeitura de
Macaé, que passa por um processo de municipalização
do abastecimento de água, disse, por meio de nota, que, "ao
contrário do informado pela Cedae, o governo municipal não recebeu nenhum
relatório da concessionária acerca dos índices de agrotóxicos presentes na
água".
Segundo o
órgão, os relatórios entregues pela concessionária trazem apenas indicadores
como coliformes, cloro e outros.
De acordo com o
município, "por esta razão, a Coordenadoria de Vigilância Sanitária, da
Secretaria Municipal de Saúde, vem, pelo menos desde 2014, emitindo
notificações contra a empresa, para que as informações fossem
apresentadas".
No entanto,
segundo a Prefeitura, nenhuma dessas solicitações foram atendidas.
Em resposta à
Prefeitura de Macaé, a Cedae disse que:
"Semestralmente,
conforme preconiza a legislação pertinente, realiza coleta e análises dessas e
de outras 96 substâncias e encaminha os relatórios para a Vigilância Sanitária
Municipal de Macaé. No caso de a Prefeitura ter perdido as informações
encaminhadas, a Cedae diz que pode disponibilizar novamente os
relatórios".
Ainda segundo a
Cedae, a única solicitação da Prefeitura a respeito foi feita na última quarta
(24) e a empresa responderá com os dados já enviados anteriormente.
- Teresópolis
A Prefeitura de
Teresópolis, também atendida pela Cedae, disse que os dados do Sisagua não
estão atualizados e que "um convênio entre as Prefeituras de Teresópolis, Sumidouro
e Sapucaia e a UFF que iria permitir a realização dessas análises, firmado há
alguns anos, nunca saiu do papel, por motivos que esta gestão desconhece".
A Prefeitura
também ressaltou que está em contato com a Vigilância Estadual em busca de uma
solução para poder realizar as análises no Laboratório Central de Análises do
Governo do Rio de Janeiro (Lacen) e que a expectativa é que logo que essa
solução seja firmada os dados comecem a ser inseridos na plataforma, não sendo
possível estabelecer um prazo para este início.
O município
informou, porém, que realiza mensalmente a análise das fontes da cidade e
encaminha esses resultados para o MP e outras autoridades e publica no site da
Prefeitura. A última dessas publicações, segundo a Prefeitura, foi divulgada em
11 de abril.
- Quissamã
A Prefeitura de
Quissamã, disse em nota, que efetua regularmente o lançamento dos relatórios
recebidos da Cedae no sistema Sisagua.
A Secretaria de
Saúde do município informou que está implantando o sistema de análise de agrotóxicos
no manancial (Lagoa Feia) pelo Programa de Saúde do Trabalhador.
Segundo a
Prefeitura, esta ação será realizada em conjunto com o Estado, que receberá e
analisará as amostras, através do Laboratório Central Noel Nutels (Lacenn),
aguardando somente a liberação por parte da instituição.
A Prefeitura
informa que os relatórios das análises podem ser visualizados no setor da
Vigilância em Saúde Municipal, que realiza o acompanhamento dos dados desde
2011.
- Varre-Sai
A Prefeitura
informou que não tem informações porque os dados não foram lançados antes de
2017.
"Em 2017
foram lançadas apenas amostras que foram feitas no Lacen, porém, por falta de
insumos do estado, não foi feita toda competência, diante de orientação era pra
dar prioridade a essas análises o que gerou o não lançamento das análises
enviadas pela Cedae".
Ao final de
2017, segundo o município, foi realizada análise pelo Lacen, não acusando a
presença de agrotóxicos. A Prefeitura explicou ainda que está ocorrendo uma
capacitação para envio dos dados. E as informações que constam "se
encontram disponíveis na Secretaria de Saúde de Varre-Sai".
- Itaocara
O município
disse ao G1 que entrou em contato com a Vigilância Ambiental
do Estado para averiguar se os dados referentes ao monitoramento de agrotóxicos
na água teriam sido enviados no período de 2014 a 2017.
A Prefeitura
disse que recebeu a informação de que em 2013 Itaocara foi um dos municípios
convidados a participar do programa de monitoramento de agrotóxicos na água,
mas não manifestou interesse em aderir.
"Não temos
a informação da data do último levantamento de dados relacionados ao
monitoramento de agrotóxicos na água. A atual gestão desconhecia o fato de que
o município teria sido um dos escolhidos a participar do programa. A partir do
próximo mês o mesmo será implantado e os dados serão lançados semestralmente no
Siságua", disse em nota.
- Macuco
A Prefeitura de
Macuco disse que a Cedae entrega periodicamente um relatório contendo os dados
de agrotóxicos e que, até o momento, nenhum relatório veio com os níveis de
agrotóxicos fora do padrão.
Os relatórios
da Cedae, segundo a Prefeitura, não são digitados na sua integralidade por
deficiência de RH e quando esse problema for sanado, os dados serão digitados no
Sisagua, onde ficam concentradas as informações sobre a análise de água.
A Prefeitura
ressaltou que o Sisagua só passou a ser usado na sua integralidade pelo
município no ano de 2017, mas existem relatórios dos anos anteriores e que
todos os dados serão alocados nos seus devidos lugares, de acordo com as
possibilidades da equipe responsável.
O município
explicou que o cidadão que desejar acesso aos dados pode se encaminhar a
secretaria de Saúde e pedir por informações.
A Prefeitura
conclui que as análises apenas não foram digitadas por falta de profissional
capacitado, mas que as providências já foram tomadas e a partir do mês que vem
estará regularizado.
- Outros municípios atendidos pela Cedae sem dados
disponíveis
O G1 tenta
contato e aguarda retorno das Prefeituras de Aperibé, Bom
Jesus do Itabapoana, Cachoeiras de Macacu, Cambuci, Carapebus, Cardoso
Moreira, Italva, Itaperuna, Laje do Muriaé, Maricá, Miracema, Natividade, Rio
Bonito, Rio das Ostras, Santa Maria Madalena, São
Fidélis, São Francisco de Itabapoana, São João da Barra, São
José de Ubá e São Sebastião do Alto.
Prolagos
Quatro
municípios atendidos pela concessionária Prolagos - Armação dos Búzios, Arraial
do Cabo, Iguaba Grande e São Pedro da Aldeia -
não tiveram dados divulgados pela pesquisa "Por Trás do Alimento".
Em nota, a
Prolagos contesta o fato de não ter informação dos municípios citados no mapa,
visto que, segundo a empresa, "as análises são efetuadas por laboratório
credenciado pelo Inea, certificado pelo Inmetro, e os resultados são
preenchidos mensalmente no site do Sisagua".
Em relação à
qualidade da água, a concessionária afirma:
"A
Prolagos garante a qualidade da água distribuída para a população dos cinco
municípios da área de concessão. O abastecimento tem um rigoroso processo de
monitoramento, desde a captação até a chegada nos hidrômetros dos
imóveis", disse em nota, afirmando ainda que todos os parâmetros de
análise da água estão dentro dos padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
"Em
nenhuma análise realizada pela empresa foi detectada a presença de agrotóxicos
acima dos limites permitidos na Portaria de Consolidação nº 5 de 2017[...] A
concessionária cumpre uma rotina de controle da qualidade que inclui a
realização diária de coletas e análises laboratoriais da água em diversas
partes do sistema de abastecimento, que totalizam mais de quatro mil exames
mensais"
Águas de
Juturnaíba
Os municípios
de Silva Jardim e Saquarema, atendidos pela Águas
de Juturnaíba, também estão sem dados no estudo feito pela Agência Pública e
Repórter Brasil a partir dos relatórios oficiais do Sisagua.
A
concessionária disse ao G1 que o que vale para o município de
Araruama (que teve dados de agrotóxicos lançados) é o que vale para Silva
Jardim e Saquarema, pois se trata do mesmo sistema produtor.
Ao ser
questionada sobre os riscos de contaminação da água no trajeto pela tubulação
até chegar às torneiras dos moradores das outras cidades, a empresa informou,
em outra nota:
"Não há
possibilidade de contaminação, pois a água é transportada por tubulação fechada
e pressurizada. A água que chega em Araruama é exatamente a mesma que chega nas
outras cidades".
A empresa
também disse que "são realizadas, semestralmente, análises de
monitoramento em todos os sistemas de abastecimento. As análises contemplam 94
parâmetros, dentre eles os agrotóxicos e herbicidas citados na pesquisa,
respeitando os limites estabelecidos na legislação brasileira".
A
concessionária ressalta que "os relatórios com os resultados da qualidade
da água são enviados mensalmente ao Ministério da Saúde e, também,
disponibilizados à Vigilância Sanitária Municipal, não havendo comprometimento
da qualidade da água distribuída pela empresa".
Municípios
autônomos
Os próprios
municípios de Areal, São José do Vale do Rio Preto, Carmoe Conceição
de Macabu são responsáveis pela distribuição da água para a população.
O G1 entrou em contato com as Prefeituras e aguarda retorno
sobre a falta de disponilidade dos dados no sistema Sisagua, como constatou a
pesquisa "Por Trás do Alimento".
Essa reportagem
será atualizada conforme o envio de novas informações.
*Estagiário
sob a supervisão de Ariane Marques.
Por Ariane Marques e Lui Rodrigues*, G1 —
Cabo Frio

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