Os conflitos,
os eventos climáticos extremos e as crises
econômicas são os principais responsáveis por essa regressão, de
acordo com o estudo elaborado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a
Agricultura (FAO) junto com outras quatro agências da ONU. As graves secas ligadas ao forte fenômeno El Niño de 2015 e
2016 são especialmente culpadas. Sem água, as plantações e o pasto aos
animais não crescem. Isso significa que, nos países altamente dependentes da
agricultura, milhares de pessoas ficam sem alimentos suficientes para comer e
sem fonte de renda para comprar comida no mercado. A falta de chuvas, de fato,
causa mais de 80% dos danos e perdas totais na produção agrícola e de gado.
“Se não
fizermos mais, os três anos de aumento serão quatro. Reduzir a fome não é uma
questão de fé, depende de nossas ações”, diz Kostas Stamoulis, diretor adjunto
da FAO. Se no ano passado o órgão pedia o fim da violência para uma melhora na
situação alimentar mundial, a nova edição foca na necessidade de se melhorar a
resiliência das pessoas diante dos eventos climáticos extremos, ou seja,
fortalecer sua capacidade de se adaptar, resistir e enfrentar uma adversidade.
“Pense em um
terremoto. Dependendo de sua intensidade uma casa resistirá ou desabará. Não
podemos mudar a intensidade do tremor, mas podemos mudar a resistência da
casa”. Stamoulis afirma que o mesmo deve ser feito com as pessoas: prepará-las
para o pior. “Temos os conhecimentos e as ferramentas para isso, devemos
colocá-los em andamento”. E é preciso fazê-lo “em larga escala e de maneira
acelerada”, diz Marco Sánchez-Cantillo, diretor de economia e desenvolvimento
agrícola da FAO. “Por exemplo, os sistemas de alerta precoce que permitem
antecipar soluções no caso de uma eventualidade se mostraram eficientes.
Existem países que implantaram esse sistema, mas não é generalizado”, afirma.
A maioria dos
países que enfrentam crises alimentares relacionadas ao clima (20 de 34)
atravessa contextos de paz. Mas quando os choques climáticos ocorrem em áreas
de conflito, é desencadeada a tempestade humanitária perfeita. Isso aconteceu
nos 14 países restantes, entre eles, os que estão nas margens do lago Chade
(Níger, Nigéria, Camarões e Chade), onde 10,7 milhões de pessoas precisam de
ajuda para sobreviver todos os dias pela espiral de violência do terrorismo
do Boko
Haram e as secas. “O exemplo mais claro é que no ano passado foi
declarada fome no Sudão do Sul. E o Iêmen, Somália e o norte da Nigéria
chegaram bem perto. Nos quatro existe uma situação de conflito grave e
condições climáticas extremas e desfavoráveis”, diz Blanca Carazo, responsável
de programas e emergências do comitê espanhol da Unicef.
![]() |
© Fornecido
por El Pais Brasil 350.000 pessoas estão em risco
de
insegurança alimentar no Chade. O deslocamento maciço
deixou mais
de oito milhões de pessoas à beira da fome.
|
A África foi
a região onde a fome assolou em maior proporção. Quase 21% de sua população
estava subalimentada no ano passado: 256 milhões de pessoas, das quais 236
milhões eram da região subsaariana, 30,4% a mais em relação aos 181 milhões de
famintos contabilizados nessa região do mundo em 2010. Em termos absolutos,
a Ásialidera
com 515 milhões, 11,4% de seus habitantes. O clima e os conflitos sozinhos não
explicam esses dados, diz Stamoulis. “Não foi exclusivamente o El Niño,
ainda que tenha muito a ver. Não podemos nos esquecer que existem países que
não estão em conflito, não atravessam uma crise econômica e não enfrentam eventos
climáticos extremos, e têm taxas elevadas de fome”. Também “a marginalização, a
desigualdade e a pobreza fazem com que as pessoas não tenham acesso a uma
alimentação suficiente e nutritiva”, afirma.
21% da
população da África estava subalimentada no ano passado: 256 milhões de
pessoas, das quais 236 milhões eram da região subsaariana
As estatísticas
e a realidade que refletem vão em direção contrária ao objetivo marcado na
Agenda 2030 da ONU: conseguir erradicar a fome até essa data. “Ainda é arriscado
falar de uma tendência de alta. Os dados desse ano mostram um aumento menor do
que o do ano passado. Quero pensar que se trata de uma anomalia na diminuição
que vinha ocorrendo na última década”, diz Jennifer Nyberg, diretora do
Escritório na Espanha do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU, entidade
coautora do relatório. “Precisamos ser positivos e acreditar que conseguiremos
alcançar os objetivos, porque se nos dermos por vencidos agora, não seremos
bem-sucedidos”, dá um pouco de esperança o diretor adjunto da FAO.
“Isso é uma
chamada de atenção para que coloquemos mais inovações e recursos para combater
a fome. É preciso se perguntar o que não funciona”, diz Nyberg. É missão
impossível, entretanto, calcular o financiamento total destinado a essa luta e,
consequentemente, saber se ocorreram cortes nos últimos exercícios. O que se
sabe é que os pedidos de fundos para emergências alimentares quase nunca
arrecadam o necessário. Um exemplo: o PMA solicitou 9,10 bilhões de dólares (37
bilhões de reais) para realizar seu trabalho de distribuição de alimentos em
áreas em crise em 2017; recebeu 6,8 bilhões (27 bilhões de reais).
“Basicamente, quando não temos dinheiro, precisamos decidir quem não receberá
comida”, afirma Peter Smerdon, porta-voz da agência na África oriental, em uma
entrevista ao PNR em janeiro.
É urgente
encontrar soluções, novas ou conhecidas, para atingir as metas que a comunidade
internacional colocou em matéria alimentar para 2030. Em somente três anos, o
avanço conseguido na luta contra a fome desde 2003 foi revertido, de tal
maneira que em 2017 existia exatamente a mesma quantidade de famintos que em
2010. Outros indicadores do estado alimentar e nutricional no mundo também não
estão melhores. As prevalências de anemia em mulheres em idade reprodutiva e a
obesidade em adultos também aumentam.
Em relação às
primeiras, passaram de 30,3% em 2012 a 32,8% em 20106. “É vergonhoso”, escrevem
os redatores do relatório, “que uma em cada três mulheres em idade reprodutiva
ainda sofra anemia, com importantes consequências tanto para sua saúde como
para a de seus filhos”. Por outro lado, o número de adultos obesos não para de
crescer desde 1975. Em 2016 existiam 672,3 milhões, 13,2% da população do
planeta, o que representa um ponto e meio a mais em relação a 2012 (11,7%).
O número de
adultos obesos não parou de crescer desde 1975. Em 2016 existiam 672,3 milhões,
13,2% da população do planeta
Em resumo: há
mais famintos e mais obesos. Ainda que os primeiros se concentrem
praticamente nas nações pobres, os segundos não vivem exclusivamente nas ricas;
de fato, é um problema de saúde pública crescente em países em desenvolvimento.
“Como essas duas tendências aparentemente contraditórias da segurança alimentar
e da nutrição podem ocorrer?”, colocam os autores do estudo. Vários fatores
explicam esse paradoxo. Um deles é, de acordo com os pesquisadores, que as
mudanças demográficas, sociais e econômicas rápidas em muitos países de rendas
baixas e médias levaram a uma maior urbanização e uma alteração dos estilos de
vida e dos hábitos, que se inclinaram a um maior consumo de comida processada e
hipercalórica, com um alto conteúdo de gorduras saturadas, açúcares e sal, e um
baixo conteúdo de fibras.
O encarecimento
de determinados alimentos também está relacionado com esse fenômeno. “Os mais
nutritivos e frescos são os mais caros e os que têm menos recursos tendem a
comprar outros mais calóricos e de pior qualidade nutricional”, diz
Sánchez-Cantillo, da FAO. “O sobrepeso também tem a ver com a pobreza. Cresce
em países em que para as famílias mais pobres é mais fácil conseguir comida de
baixo valor nutritivo do que alimentos saudáveis”, afirma Carazo, da Unicef.
As crianças, a
única esperança
Somente dois
dados relativos ao estado nutricional das crianças lançam um pouco de luz em um
panorama obscuro. Existem menos crianças que sofrem desnutrição crônica, também
chamada stunting (atraso no crescimento, em inglês) por ser
esse o resultado do déficit de nutrientes essenciais como a proteína, o ferro,
o ácido fólico, a vitamina A e o iodo durante a primeira infância. “Mas não
estamos contentes com as taxas atuais”, diminui o entusiasmo Stamoulis, da FAO.
De acordo com suas estimativas, 22% dos menores de cinco anos sofrem esse tipo
de desnutrição (150,8 milhões). Muitos na opinião do diretor adjunto da FAO,
mas menos do que em 2012, quando a porcentagem de afetados chegava a 25% (165,2
milhões).
© Fornecido por
El Pais Brasil O número de crianças que sofrem atraso no crescimento caiu,
uma das poucas boas notícias do relatório da FAO de 2018.
Esse progresso
não está relacionado somente com o sucesso de programas alimentares focados na
infância. O ponto fundamental está, diz a especialista da Unicef, em realizar “um trabalho integral de prevenção que
inclui garantir o acesso a uma alimentação adequada, mas também à água potável
e serviços de saneamento”. Significa, definitivamente, cobrir a ingestão mínima
de nutrientes e evitar a perda dos mesmos por doenças como as diarreias, que
contribuem para gerar uma situação de desnutrição crônica. É preciso prevenir
porque, quando o atraso no crescimento ocorre, diz Carazo, já não há tratamento
e as sequelas (físicas e cognitivas) durarão a vida toda.
“Outro aspecto
que contribui à redução do atraso do crescimento é o fortalecimento dos
sistemas de saúde”, diz Carazo. “Primeiro, para que as mães grávidas tenham uma
alimentação adequada e acesso aos suplementos que precisam, como o ferro”,
afirma. O acesso a centros de saúde por parte da população também facilita que
os bebês recebam o atendimento adequado para seu desenvolvimento normal durante
os cruciais primeiros mil dias.
Desde 2012, a
proporção mundial de crianças menores de cinco anos com sobrepeso "parece ter
estancado". Naquele ano a taxa era de 5,4%, e em 2017 subiu somente a 5,6%
(38,3 milhões)
Por fim, as
campanhas para promover a lactância
materna exclusiva recomendada pela Organização Mundial da Saúde e a
Unicef surtem efeitos limitados. No mundo, 40,7% dos menores de seis meses se
alimentavam somente dessa forma, contra 37% em 2012. “É importante para salvar
vidas e fortalecer o sistema imunológico das crianças”, frisa Carazo.
No capítulo do
sobrepeso e da obesidade infantil não existem notícias excelentes, mas também
não são péssimas. “Há uma manutenção”, diz Stamoulis entre as notas positivas
dos resultados do relatório desse ano. Desde 2012, a proporção mundial de
crianças menores de cinco anos com sobrepeso “parece ter estancado”, afirma o
documento. Naquele ano a taxa era de 5,4%, e em 2017 subiu somente a 5,6% (38,3
milhões).
As alegrias
chegam até aqui. Não existem perspectivas de que a quantidade e a intensidade
dos conflitos diminuam e que o clima dará uma trégua a curto e médio prazo. A
perda de tudo o que foi conseguido em décadas de luta contra a fome,
entretanto, é rápida. “Por isso, decidimos que é preciso agir com antecipação,
criar resiliência”, diz Carazo. Se não é possível evitá-los, é necessário
encaixar os golpes.
Alejandra
Agudo
El País


Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!