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© Foto:
Ricardo Moraes/Reuters
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Um incêndio de
grandes proporções destruiu o acervo do Museu Nacional, na zona norte do Rio, na noite deste domingo, 2.
Especializado em história natural e mais antigo centro de ciência do País, o
Museu Nacional completou 200 anos
em junho em meio a uma situação de abandono. Não houve feridos.
O Corpo de Bombeiros foi acionado
às 19h30 e rapidamente chegou ao local, mas, na madrugada de segunda, o fogo
permanecia fora de controle. Dois andares foram bastante destruídos, e parte do
teto, de madeira, caiu. Segundo o comandante-geral do Corpo de Bombeiros do
Rio, o coronel Roberto Robadey, o prédio não corre risco de desabar. As paredes
externas do prédio são bastante grossas, diz ele, e, embora antigas, resistiram
ao fogo. “Algumas partes internas desabaram”, afirmou.
Segundo
informações do canal GloboNews, às 3h desta segunda-feira, já havia sido
iniciado pelos Bombeiros o trabalho de rescaldo após apagar os últimos focos do
incêndio. A equipe que trabalha no local trata de resfriar os escombros para,
em seguida, fazer uma avaliação do estado do edifício e, finalmente, adentrar o
museu.
O comandante
dos bombeiros contou também que os dois hidrantes existentes ao redor do imóvel
não funcionaram. Por isso, o combate ao fogo começou com atraso. “Tivemos de
acionar a Cedae (companhia estadual de água e esgoto), que nos forneceu
água. Agora tenho a certeza de que não faltará água, mas no início realmente
tivemos problema”, afirmou.
Segundo
Robadey, o prédio não tinha um sistema adequado de proteção contra incêndios. A
legislação que exige esse tipo de estrutura é de 1976, quando o prédio já tinha
mais de cem anos. Conforme o comandante dos bombeiros, há cerca de um mês
representantes do museu procuraram os bombeiros para tratar da instalação de um
sistema de proteção contra incêndios.
“Não vai sobrar
praticamente nada. Todo o prédio foi atingido. Um absurdo o descaso e abandono
que estava esse museu icônico. É como se queimassem o Louvre ou o Museu de
História Natural de Londres”, lamentou o vice-diretor do Museu Nacional, Luiz
Fernando Dias Duarte. Ele disse acreditar que restarão apenas a biblioteca
central e as coleções de botânica e zoologia vertebrada, que estavam em prédio
anexo. Bombeiros informaram que uma parte do acervo chegou a ser retirada antes
de ser atingida pelo fogo.
“Uma
catástrofe. São 200 anos de patrimônio desse País, são 200 anos de memória,
tudo se perdendo em fogo por falta de suporte dos governos brasileiros e de
consciência da classe política”, afirmou Duarte.
Quando o fogo
começou, a visitação ao museu já havia sido encerrada e estavam no prédio
quatro vigilantes, que não se feriram. Ainda não se sabe a causa do
incêndio.
“Começou por
volta das 19h30. Eu moro pertinho e, assim que soube, vim pra cá. É uma pena,
acho que não vai sobrar nada”, afirmou o advogado Marcos Antônio Pereira, de 39
anos, enquanto acompanhava o combate ao fogo na mnoite de domingo. Entre os
funcionários do Museu Nacional,
o clima era de desespero. “Queimou tudo, perdemos tudo”, repetia uma mulher,
aos prantos. Ela não quis se identificar.
Entre os
funcionários que, sob lágrimas, acompanhavam o incêndio estava o bibliotecário
Edson Vargas da Silva, de 61 anos, que trabalha há 43 anos no museu. “Tem muito
papel, o assoalho de madeira, muita coisa que queima muito rápido. Uma
tragédia. Minha vida toda estava aí dentro”, afirmou. O Zoológico do Rio de
Janeiro fica bem próximo do Museu Nacional, mas não foi atingido.
O Museu Nacional, fundado por d. João
VI, chegou ao bicentenário com goteiras, infiltrações, salas vazias e problemas
nas instalações elétricas. Várias salas estavam fechadas por total incapacidade
de funcionar. O espaço que abrigava uma das maiores atrações, a montagem da
primeira réplica de um dinossauro de grande porte no País, fechou por causa de
uma infestação de cupim.
Para chamar
atenção para o problema, o paleontólogo Alexander Kellner, que assumiu a
direção do museu este ano, transformou o antigo quarto de d. Pedro II – fechado
havia 20 anos – em seu escritório. No cômodo antes majestoso, como mostrou o 'Estado' em abril,
havia um lustre quebrado, móveis sem restauro, tábuas de madeira soltas no chão
e infiltrações.
Em janeiro,
professores de pós-graduação se uniram para pagar a passagem de ônibus da
equipe de limpeza. Eles temiam que a sujeira afetasse o acervo, composto de
material orgânico, sensível a micro-organismos.
Entre 2013 e
2018, o orçamento do Museu despencou de R$ 500 mil para R$ 54 mil. Segundo
Duarte, o museu lutava há anos para obter recursos. Ele lembra que desde 2000,
era pleiteado dinheiro para construir anexos que abrigassem as pesquisas que
necessitam de preservação em álcool e formol, materiais inflamáveis. Só um
anexo foi erguido com verba da Petrobrás.
Por ocasião dos
200 anos, o museu assinou com o BNDES contrato
de patrocínio de R$ 21,7 milhões. A verba seria usada para restaurar o prédio.
Museu abriga
esqueleto mais antigo das Américas
O Museu Nacional, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro,
reunia algumas das mais
importantes peças da história natural do País, como Luzia, o esqueleto
mais antigo já encontrado nas Américas. Com cerca de 12 mil anos de idade, foi
achado em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em 1974. Trata-se de uma mulher que
morreu entre os 20 e os 25 anos e foi uma das primeiras habitantes do Brasil. A
descoberta de Luzia mudou as teorias sobre o povoamento das Américas.
Outra peça
marcante do Museu Nacional é
o meteorito Bendegó, o maior já encontrado no Brasil e que tinha destaque no
saguão do prédio. Com 5,36 toneladas, a rocha é oriunda de uma região do
Sistema Solar entre os planetas Marte e Júpiter e tem cerca de 4,56 bilhões de
anos. O meteorito foi achado em 1784, em Monte Santo, no sertão da Bahia. Está
na coleção desde 1888.
Em janeiro
deste ano, professores dos cursos de pós-graduação que trabalham no Museu Nacional se uniram para
pagar a passagem de ônibus da equipe de limpeza. Eles temiam que a sujeira
afetasse o acervo, composto de muito material orgânico, sensível a
micro-organismos.
Falta de
manutenção
Frequentadora
do prédio histórico do Museu
Nacional há 21 anos, como estudante, pesquisadora e professora, a
antropóloga Adriana Facina disse que desde que lá chegou os funcionários
relatam a falta da manutenção que a construção merece. “É um descaso total com
a pesquisa, o conhecimento e a cultura. É muito triste ver o prédio em chamas”,
disse ao Estado aos
prantos, ao ver as imagens do incêndio.
No prédio há
atividades de pós-graduação, pesquisa e extensão da universidade. A biblioteca
da área de antropologia social é uma das mais importantes da América Latina, e provavelmente todo o
seu conteúdo se perdeu, lamentou Adriana. “Muitas pessoas do Rio têm o museu como única referência,
é muito popular, sempre com fila na porta aos fins de semana”, lembrou.
“Para além de
toda a pesquisa de ponta realizada, é um grande centro de cultura. Os
professores vêm denunciando as péssimas condições, são anos e anos de
desinvestimento. Uma falta de responsabilidade do governo com a cultura e a
educação. As administrações se esforçam para lidar com aportes sempre menores
do que um museu como esse merece. São verbas ocasionais que eles conseguem.”
Temer:
'Incalculável perda para o Brasil'
O
presidente Michel Temer, em
nota divulgada na noite deste domingo, 2, lamentou o incêndio no Museu
Nacional, destacando o episódio como "incalculável" perda para o
Brasil. "Hoje é um dia trágico para a museologia de nosso país. Foram
perdidos duzentos anos de trabalho, pesquisa e conhecimento. O valor para nossa
história não se pode mensurar, pelos danos ao prédio que abrigou a família real
durante o Império. É um dia triste para todos os brasileiros."
Ministro da
Cultura, Sérgio Sá Leitão disse que “certamente
a tragédia poderia ter sido evitada”. Afirmou ainda que vai começar hoje
a fazer o projeto de reconstrução e um levantamento das condições de proteção
contra incêndio de todos os museus federais. /FÁBIO GRELLET, ROBERTA JANSEN, ROBERTA PENNAFORT E MÔNICA CIARELLI

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