Levantamento
da BBC News Brasil junto ao Disque-Denúncia e no site do Ministério Público do
Rio traçou o perfil dessas denúncias.
Numa rua do Rio
de Janeiro, perto de uma igreja, há uma casa branca onde mora uma antiga
vereadora. Todos os sábados, a partir das 9h, ela distribui legumes para
moradores da região em troca de votos para seu irmão, prefeito de outra cidade
e candidato a deputado federal.
Num bairro da
zona oeste da capital, região onde milicianos exercem poder, um grupo deles
ameaça quem não declarar voto em um policial militar que é candidato a deputado
federal e impede propaganda de outros candidatos.
Em outra
região, traficantes que circulam exibindo armas ameaçam moradores que colocam
adesivos ou placas de candidatos em suas casas ou carros, principalmente de um
candidato específico. Eles dizem que esses moradores sofrerão represálias,
terão seus veículos danificados e serão expulsos de suas casas.
Pastores de uma
igreja recebem ameaças para deixar uma candidata a deputada federal fazer
campanha durante cultos. "Dias antes dos cultos, indivíduos (não
identificados), em dois carros, um auto de cor preta placa xxxx e um auto de
cor prata placa xxxxx, vão na igreja para realizar as ameaças".
Os casos
citados acima são exemplos da realidade pré-eleitoral no Rio de Janeiro,
segundo denúncias anônimas. O Estado está sob intervenção militar até 31 de
dezembro e nos último anos viu assassinatos de políticos se tornarem mais
frequentes, entre eles, o da vereadora Marielle Franco, que segue sem solução.
Um levantamento
da BBC News Brasil junto ao Disque-Denúncia e no site do Ministério Público do
Rio traçou o perfil dessas denúncias. Não foi possível verificar o resultado
delas porque a Procuradoria Regional Eleitoral no Rio de Janeiro, responsável
por analisar as investigações, não respondeu às perguntas enviadas por e-mail e
negou pedido de entrevista. O TRE também não havia respondido até a publicação
deste texto.
Por serem
anônimas, não é possível confirmar a veracidade das denúncias. No entanto,
especialistas em direito eleitoral ouvidos pela BBC News Brasil dizem que o
tipo de crime que elas descrevem é típico do que se vê nas ruas do Estado no
período de campanha.
O Ministério
Público estadual pediu a abertura de 77 investigações - 35 delas na capital, 34
na Baixada, duas em São Gonçalo, município vizinho a Niterói, cinco em Niterói
e uma em Maricá.
De acordo com o
Ministério Público do Rio, denúncias recebidas são enviadas à promotoria
eleitoral, que instaura um procedimento para verificar a veracidade e
determinar a coleta de provas.
Depois que essa
investigação acaba, os autos do procedimento são encaminhados à Procuradoria
Regional Eleitoral, do Ministério Público Federal. Cabe a essa instância propor
ações, enviadas ao Tribunal Regional Eleitoral, ou arquivamentos.
Obras e
cirurgias em troca de votos
A Central
Disque-Denúncia recebeu, desde o início de 2018, 102 denúncias de crimes
eleitorais no estado do Rio. 30% delas vieram da capital, seguido de São
Gonçalo, com 13,4%, e Nova Iguaçu com 8,25%. Os candidatos da zona oeste do
Rio, onde ficam bairros como Campo Grande e Santa Cruz, foram os mais
denunciados, com cerca de 15% do total.
Há casos em que
o candidato oferece um serviço em troca de voto. Uma denúncia fala que candidatos
a deputado estadual e federal abordam médicos de um hospital na Baixada
Fluminense para indicar pacientes para furarem filas de cirurgia. "O
objetivo dos candidatos é garantir o voto desses pacientes. Enquanto isso,
pacientes que também precisam ser atendidos seguem sem atendimento."
Num
pronto-socorro de São Gonçalo, funcionários favorecem pacientes no agendamento
de consultas e na distribuição de remédios em troca de votos para um candidato
ao Legislativo estadual.
Na região dos
bairros de Colégio, Irajá e Vila da Penha, o MP pediu investigação por possível
crime de abuso de poder político relativo à instalação de aparelhos de
exercício dentro de um condomínio particular, e não de um Minha Casa, Minha
Vida.
Em Irajá,
óculos estariam sendo distribuídos, com a promessa de visita de assistente
social em troca de votos para um candidato ao governo do Estado, o que
configura abuso de poder político. O mesmo crime está sendo investigado em
Santa Cruz em benefício de um candidato a deputado federal.
Chegaram ao
Disque-Denúncia, também, casos de distribuição de material de construção,
cestas básicas, promessas de empregos nas escolas e postos municipais, e até a
realização de um baile funk promovido pela milícia em busca de votos para um
candidato.
Ainda sobre
grupos criminosos que controlam territórios, há denúncias de traficantes
autorizando um determinado candidato a realizar campanha dentro da comunidade,
recebendo em troca dinheiro em espécie.
Outra categoria
de denúncia diz respeito ao uso de recursos e serviços públicos para beneficiar
a campanha de um candidato: verba pública sendo utilizada para transportar
eleitores em vans e ônibus; ex-secretários usando funcionários, veículos e o
espaço da secretaria para fazer a própria campanha.
Também há,
segundo as denúncias, funcionários de firmas terceirizadas, que prestam serviço
para a prefeitura de um município, sendo obrigados a votar em secretários da
própria prefeitura e servidores público fazendo campanha para candidato.
Em Nova Iguaçu,
candidatos a deputado federal distribuem atestados médicos falsos para cabos
eleitorais justificarem aos empregadores a ausência nos dias em que atuarão nas
campanhas.
Há também
muitos exemplos de propaganda eleitoral irregular, por exemplo, nas zonas eleitorais
que abarcam os bairros de Cavalcanti, Engenheiro Leal, Madureira, Tomás Coelho,
Vaz Lobo e Vicente de Carvalho e Santa Cruz.
Crimes
comuns no resto do Brasil
Segundo a
advogada especialista em direito eleitoral Carla Karpstein e presidente da
comissão de direito eleitoral da OAB do Paraná, o perfil nacional de crimes
eleitorais é similar ao constatado no levantamento da BBC News Brasil: a vasta
maioria é de casos de compra de votos e abuso de poder econômico - oferecer
algo ao eleitor em troca de voto - e propaganda eleitoral irregular.
Ela diz que os
crimes diminuíram nos últimos anos graças a mudanças na legislação eleitoral e
culturais. "É mais difícil você ver um candidato efetivamente oferecendo
coisas em troca do voto. Os candidatos hoje têm mais medo das consequências de
serem pegos, de serem denunciados em redes sociais. Mudou também o
comportamento da população, que tem mais acesso à informação. Tudo isso tornou
a eleição mais transparente e reduziu a importância do dinheiro, público ou privado."
Ela diz que
essa mudança aconteceu principalmente a partir de 2006. "Em 2008, houve a
proibição de showmício, depois outdoor, [propaganda em] muros. Tudo isso para
evitar derramamento de dinheiro."
"No
entanto", pondera, "na região Norte e Nordeste, esses crimes são mais
comuns, por exemplo. Onde o IDH é maior você terá menos candidatos fazendo isso
e mais denúncias; onde é menor, verá mais candidatos e menos denúncias. Fatores
educacionais e culturais variam, mesmo", diz ela.
No entanto, ela
diz que a qualidade da investigação não é a ideal. "O MP não tem estrutura
própria para investigar tudo de forma profunda. Há uma evolução, mas se a
denúncia não chega com fotos, com o endereço certo, ou a estrutura daquela zona
eleitoral não permite ao funcionário ir lá identificar [o suposto crime], é
muito difícil", diz ela.
Tráfico e
milícia: particularidades do Rio
No Rio, soma-se
a esse perfil a atuação de grupos criminosos. Segundo Vânia Aieta, professora
de direito eleitoral da Uerj, há lugares onde a justiça eleitoral não consegue
entrar. "Ameaça de traficante e milícia é a realidade das periferias do
Rio de Janeiro", diz ela, principalmente na zona oeste e na Baixada
Fluminense.
Segundo ela, há
cabos eleitorais ligados ao tráfico. "O cara chega a dar uma promessa
exata de quantos votos ele entrega. Ele, em geral, tem cópias dos títulos dos
eleitores", diz ela.
"Os
problemas de grande violência no Rio não são enfrentados. Fala-se muito da
violência, mas o combate a isso é para inglês ver. O MP atua muito na capital,
mas na Baixada e no interior, não tem condição, por falta de estrutura, de
combater os crimes onde as coisas mais graves ocorrem. Há muita repressão de
plaquinha, adesivinho na capital, coisas que não têm cardeal importância,
enquanto o eleitor segue vitimado, escravizado nas áreas comandadas por
criminosos."
Por Luiza Franco , BBC

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