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© BBC Prevaleceu
no STF entendimento de que a Constituição
condiciona o direito ao voto ao alistamento
obrigatório
do eleitor |
Foto: Rafael Neddermeyer/ Fotos Públicas
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Após um debate
acalorado, a maioria do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu nesta
quarta-feira manter o cancelamento de 3,368 milhões títulos de eleitor, o que
na prática impede esses eleitores de participar do pleito de outubro.
Os títulos
foram anulados devido ao não comparecimento para realizar o cadastramento
biométrico, que se tornou obrigatório para cerca de metade do eleitorado
brasileiro neste ano. Nesse sistema, que visa aumentar a segurança contra
fraudes, o eleitor será identificado pela digital ao comparecer no dia 7 de
outubro a sua zona eleitoral, e não apenas pelo documento com foto.
O placar no
Supremo foi de 7 a 2. Votaram pela manutenção do cancelamento os ministros Luís
Roberto Barroso, relator do caso, Alexandre de Moraes, Edson Fachin, Luiz Fux,
Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e o presidente Dias Toffoli. Ficaram vencidos Marco
Aurélio e Ricardo Lewandowski. Rosa Weber, por ser presidente do TSE (Tribunal
Superior Eleitoral), não votou. Celso de Mello se declarou impedido por razões
de foro íntimo.
Prevaleceu
entre os ministros o entendimento de que, assim como a Constituiçãoestabelece que o voto é um direito fundamental,
ela condiciona esse direito ao alistamento obrigatório do eleitor no cadastro
do TSE.
A maioria
também considerou que a ação proposta pelo PSB para reverter o cancelamento foi
apresentada muito em cima da eleição, cujo primeiro turno ocorre no dia 7 de
outubro, não havendo tempo hábil para alterar a decisão, o que traria
insegurança jurídica.
Os ministros
também refutaram o argumento de que o cancelamento afetará mais intensamente as
pessoas de menor renda, que teriam menos acesso a informação e mais dificuldade
de comparecer aos postos da Justiça Eleitoral para o cadastramento. Barroso
também argumentou que parte dos 3,3 milhões de documentos cancelados pode ser
de pessoas que já faleceram, mudaram de cidade ou mesmo títulos
duplicados.
Direitos e
deveres do eleitor
Atendendo
pedido de esclarecimento do relator, o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia,
estado em que houve maior número de cancelamentos (586 mil), informou que
eleitores foram convocados por avisos nas contas de luz e água, por SMS
(mensagens de celular), anúncios em rádio e TV e em partidas de futebol.
"Todos os
eleitores têm direitos e deveres. O direito ao voto e o dever de se
recadastrar", afirmou Alexandre de Moraes.
"A maioria
dos que não se recadastraram são os mais pobres. O inverso é verdadeiro: a
maioria dos que se recadastraram também são os mais pobres porque infelizmente
a maioria dos brasileiros é de pessoas com menos condições econômicas. Então,
não houve um direcionamento da Justiça Eleitoral (para prejudicar os mais
pobres)", acrescentou o ministro.
Já os ministros
Marco Aurélio e Lewandowski se exaltaram ao defender entendimento contrário. Na
avaliação dos dois, os eleitores que não realizaram o cadastramento biométrico
já estão alistados no sistema eleitoral e por isso não podem ser impedidos de
exercer o direito fundamental ao voto.
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NÚMERO DE TÍTULOS CANCELADOS
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Acre
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13.564
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Bahia
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586.333
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Ceará
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234.487
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Espírito Santo
|
48.807
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Goiás
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219.426
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Maranhão
|
216.576
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|
Minas Gerais
|
213.172
|
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Mato Grosso do Sul
|
61.502
|
|
Mato Grosso
|
18.074
|
|
Pará
|
204.914
|
|
Paraíba
|
123.885
|
|
Pernambuco
|
150.260
|
|
Piauí
|
100.260
|
|
Paraná
|
257.941
|
|
Rio de Janeiro
|
71.598
|
|
Rio Grande do Norte
|
92.663
|
|
Rondônia
|
33.611
|
|
Roraima
|
12.614
|
|
Rio Grande do Sul
|
167.116
|
|
Santa Catarina
|
125.585
|
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São Paulo
|
375.169
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Tocantins
|
40.890
|
|
Brasil
|
3.368.447
|
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Fonte: TSE
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Eles
consideraram "uma absurda falta de isonomia" impedir os 3,3 milhões
de votar pelo método tradicional (de identificação apenas por documento com
foto) enquanto cerca de metade do eleitorado brasileiro ainda não está obrigada
a votar pela biometria. Ressaltaram, ainda, que pessoas no interior do Amazonas
e do Pará, por exemplo, têm dificuldade de acesso a TV e internet para se
informar.
Ante o
argumento do TSE de que não haveria tempo suficiente para habilitar no sistema
eletrônico os 3,3 milhões de títulos cancelados, Lewandowski sugeriu que esses
eleitores votassem em cédulas de papel, assim como ocorre com os brasileiros
que estão no exterior.
Ele lembrou que
em 2014, quando Dilma Rousseff (PT) foi reeleita presidente, derrotando Aécio
Neves (PSDB) no segundo turno, a diferença entre os dois candidatos foi de
apenas 3,5 milhões votos. Na sua avaliação, se um resultado apertado se
repetir, a ausência de 3,3 milhões de eleitores pode gerar suspeição sobre o
resultado.
"Imagina
se tivermos uma diferença desta natureza numa eleição que já vem sendo
questionada por determinados setores, e não tenho pejo de dizer,
antidemocráticos, como é que nós vamos ficar, inclusive ante a opinião publica
internacional? É muito sério", argumentou.
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© BBC Eleitores
esperam para fazer cadastro biométrico no
Distrito
Federal; Nordeste é região com mais cancelamentos
Foto:
Marcello Casal jr/Agência Brasil
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O cancelamento
pode desequilibrar a disputa presidencial?
O número
elevado de títulos cancelados levanta questionamentos sobre se isso poderá
prejudicar mais um ou outro candidato, afetando o resultado das eleições.
Especialistas em questões eleitorais ouvidos pela BBC News Brasil, divergem
sobre o real impacto da decisão.
Há quem venha
apontando uma risco maior de o candidato presidencial do PT, Fernando Haddad,
ser prejudicado, já que o Nordeste, onde ele lidera as pesquisas de intenção de
voto com 26% segundo o último Datafolha, é a região onde houve mais
cancelamentos. O PT, inclusive, solicitou ao STF e foi aceito a participar da
ação movida pelo PSB como amicus curiae (amigo da corte, instrumento que
permite interessados na ação a se manifestar).
Os dados do TSE
mostram que 45% dos votos cancelados (1,5 milhão) são de eleitores em sete
estados nordestinos, sendo 586 mil apenas na Bahia, estado em que Haddad
aparece com 33% de preferência na pesquisa Datafolha. Jair Bolsonaro (PSL), que
em todo o Brasil lidera as pesquisas, tem 14% de intenção de voto entre os
baianos.
No entanto,
outras localidades do país, em que Bolsonaro tem apoio expressivo, também
apresentam contingente significativo de títulos cancelados. São Paulo, por
exemplo, é o segundo estado com mais títulos cancelados (385 mil). Lá,
Bolsonaro aparece com 30% das intenções de voto contra 13% de Haddad.
Quando se
analisam as regiões, o Datafolha aponta Bolsonaro liderando no Sul (37%),
Sudeste (30%), Centro-Oeste (36%) e Norte (32%). As quatro, somadas, têm 1,8
milhão de títulos anulados.
Para o
cientista político Antonio Lavareda, professor da Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE), é possível que os eleitores mais pobres e de menor
escolaridade sejam a maioria dos que não realizaram o recadastramento, por ter
mais dificuldade de acesso à informação. Não é possível checar a hipótese já
que o TSE informou não possuir dados de renda dos eleitores.
"É
possível imaginar que os candidatos que seriam mais prejudicados por essa
exclusão são os dos partidos que têm mais voto na base da sociedade. No caso da
eleição presidencial, nós estamos falando do PT: Haddad perde mais votos, e
Bolsonaro perde menos", acredita.
Lavareda
ressalta que a ausência de 3,3 milhões de eleitores tem potencial de impacto
maior no resultado eleitoral caso a disputa esteja muito acirrada.
"A média
das últimas pesquisas eleitorais aponta para um disputa super apertada num
eventual segundo turno entre Haddad e Bolsonaro. Numa eleição assim, fica claro
que milhões de votos podem fazer diferença", afirma.
Já a jurista
Roberta Gresta, professora de direito eleitoral da PUC Minas e consultora do
Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais, minimiza esse risco. Na sua
avaliação, não é possível especular quais serão os votos dos 3,3 milhões de
eleitores com títulos cancelados e, estatisticamente, a tendência é que eles se
distribuam de forma uniforme no eleitorado.
Ela ressalta
que, parte desses títulos cancelados, pertencem a pessoas que já faleceram ou
que mudaram de cidade e costumam não comparecer para votar. Na eleição de 2016,
as cidades que já estavam com cadastramento biométrico tiveram 12% de
abstenção, contra 19% da média nacional.
"Se a
gente considerar esses 3,3 milhões uma amostra de pessoas em todo o Brasil, a
gente pode dizer que a presunção é que haja uma diluição das preferências nessa
mostra tal e qual haveria em todo o eleitorado", afirma.
"Vamos
supor que a diferença entre dois candidatos dê 3 milhões, então os 3 milhões
(que tiveram título cancelado) teriam votado no que perdeu? Não temos como
inferir essa matemática", reforça.
Do total de
5.570 municípios do país, a identificação do votante será biométrica em 2.793
municípios. Por outro lado, em 1.415 cidades, os eleitores serão identificados
por meio do método tradicional. Também há 1.533 cidades em que o sistema será
híbrido, já que o cadastro biométrico não é obrigatório, mas parte dos
eleitores já estão no novo sistema.


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