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© Reprodução
Facebook Lula em vídeo inédito gravado antes
de sua
prisão e divulgado há poucos dias. Há dúvidas se petista
gravou
imagens indicando sucessor.
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Cientes de que
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - preso há três meses - tem
pouquíssimas chances de se viabilizar judicialmente como candidato à
Presidência, o PT se prepara para um desafio inédito. A tarefa da sigla até
meados de setembro será amealhar cada vez mais votos para Lula para tentar
transferi-los em bloco ao substituto do petista, a apenas três semanas da
eleição, e levá-lo ao segundo turno.
Embora
oficialmente Lula continue a ser o plano A da legenda - dentro do PT, nos
últimos meses os dirigentes do partido tem repetido o bordão de que "Lula
é igual bolo: quanto mais bate, mais ele cresce" -, a manobra de
transferência de votos é considerada tão inevitável que o PT já encomendou ao
menos três pesquisas ao Instituto Vox Populi para tratar do potencial de transferência
de voto do ex-presidente - que aparece nas sondagens eleitorais em um patamar
de 30% das preferências dos eleitores.
"Verificamos
uma capacidade de transferência do ex-presidente de no mínimo 20% dos votos e
um teto por volta de 32%, no primeiro turno. Com isso, o candidato do PT iria
para o segundo turno, talvez até mesmo na liderança", avalia Marcos
Coimbra, presidente do Vox Populi.
Os resultados
obtidos pelo instituto coincidem com os registrados por órgãos como Ibope e
Datafolha: dois terços dos que se declaram eleitores de Lula dizem que votariam
com certeza em um candidato indicado por ele.
Em um cenário
sem Lula, os atuais líderes das pesquisas, Jair Bolsonaro, Marina Silva e Ciro
Gomes, não superam os 20% das intenções de votos. O ex-governador da Bahia
Jaques Wagner e o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, os possíveis
sucessores de Lula na disputa, atingem de 1% a 2% das intenções de voto, no
máximo, quando pontuam.
Dentro do
próprio PT a estratégia é vista como arriscada. As condições de Lula hoje, na
cadeia, o perfil do eleitorado do petista e o pouco tempo para informá-lo da
troca de titularidade são obstáculos para o sucesso da empreitada.
O precedente de
2010
Os petistas que
apostam em uma transferência de votos integral de Lula para seu substituto
citam a eleição de 2010 como um precedente que confirmaria a tese.
Naquele
momento, Lula quase elegeu sua sucessora, Dilma Rousseff, ainda no primeiro
turno. As intenções de voto de Dilma foram subindo mês a mês em 2010, conforme
ficava claro para o grande público que ela era o nome escolhido pelo
ex-presidente. Seu opositor, José Serra (PSDB), registrava movimento oposto nas
pesquisas.
No entanto, os
percentuais de intenções de voto em Dilma e de eleitores que diziam desejar
votar no candidato de Lula só se encontraram em agosto de 2010, quando teve
início a propaganda eleitoral gratuita na televisão.
Àquela altura,
já fazia ao menos dois anos que Lula viajava com Dilma a tiracolo, chamando-a
de "mãe do PAC", o megaprograma de infraestrutura da gestão petista.
Havia mais de um ano que não pairava dúvida sobre o fato de que ela seria a
candidata do PT no pleito e fazia mais de um mês que a então ministra estava
oficialmente registrada como a presidenciável petista. Isso sugere que o
eleitor pode levar algum tempo para depositar o voto no candidato que realmente
deseja.
"O Brasil
crescia 7,5% ao ano, o Lula era chamado de 'o cara' pelo Barack Obama e ainda
assim, demorou pra ficar claro para uma parte do eleitorado que Dilma era a
'mulher do Lula', como os eleitores chamavam na época", afirma Carlos
Melo, cientista político do Ínsper.
Lula deixou
vídeo para o sucessor?
Naquele
momento, Lula era ainda o presidente mais popular da história, com mais de 80%
de aprovação, detinha o controle da máquina da União e podia fazer campanha
abertamente na TV e em viagens pelo país. O marqueteiro da equipe, João
Santana, obtinha imagens com qualidade cinematográfica de Lula e Dilma para
levar à TV.
Agora, preso,
Lula está proibido de gravar vídeos ou subir em palanques. Há intensa
controvérsia entre dirigentes do PT sobre se o ex-presidente deixou material
filmado indicando sucessores antes de ir para a cadeia.
Nos últimos
dias, as páginas sociais de Lula têm divulgado conteúdo audiovisual inédito do
petista, em que o político se diz vítima de perseguição e explica sua conexão
com o povo mais pobre. Em nenhum deles, no entanto, há pistas sobre sucessão. O
PT não confirma oficialmente se tais vídeos existem. À BBC News Brasil, Haddad
negou que existam cenas gravadas em que ambos aparecem lado a lado dizendo
"Eu sou Lula", ao que o ex-presidente responderia "Eu sou
Haddad".
Sem um material
desses, ficaria difícil viabilizar a estratégia. "Por cartinha ninguém
transfere voto, tem que ter a cara do Lula falando 'eu escolho fulano', para o
leitor entender e confiar. E tem que ser todo dia na TV, dizendo isso e
repetindo o discurso da perseguição", afirma o cientista político Bruno
Wanderley Reis, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Dá tempo de transferir?
Ao contrário da
estratégia adotada em 2010, dessa vez, o PT jogará contra o tempo. Se há oito
anos Lula se esforçou para indicar sua sucessora meses antes do início da
campanha, para torná-la conhecida e facilitar a transferência de votos, agora o
PT levará Lula na cabeça de chapa até o limite do prazo da impugnação da
candidatura no Tribunal Superior Eleitoral, em meados de setembro.
A insistência
está no cerne da estratégia política atual do PT. A legenda afirma que Lula foi
injustamente condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro na operação
Lava Jato, e que o ex-presidente é alvo de uma perseguição política para
impedi-lo de voltar ao Planalto. Aceitar chamar alguém do banco de reservas a
essa altura seria o equivalente a chancelar o processo contra Lula.
"Como nós
do PT podemos abrir mão do Lula? Não temos condição política, eleitoral, moral,
programática. O PT não pode e não vai abrir mão de Luiz Inácio Lula da
Silva", questionou Haddad durante um debate com coordenadores dos
programas de governo do PCdoB, PDT, PT e PSOL, organizado pelo movimento Quero
Prévias.
Com isso, o
eleitor poderá ter pouco mais do que 20 dias para ser informado de que Lula não
será mais candidato, que o PT oferece um substituto. Pior, seja o escolhido
Haddad ou Wagner, será um nome amplamente desconhecido do eleitorado médio.
"A estratégia que está posta é arriscada porque ela diminui o tempo de
informação para que esses eleitores, que são eleitores distantes da política,
possam digerir e absorver uma nova situação com uma indicação", disse à
BBC News Brasil o cientista André Singer, estudioso do eleitorado lulista.
Marcos Coimbra
discorda da avaliação. Segundo ele, o tempo de informação do eleitorado
diminuiu com a difusão do WhatsApp e de redes sociais. "Apenas 3 dias
depois daquela confusão de prende e solta do Lula no domingo (8 de julho,
quando o desembargador Rogério Favretto ordenou a libertação de Lula, até ter a
decisão cassada pelo presidente do TRF-4, Thompson Flores), 95% do eleitorado
dele já sabia o que havia acontecido", exemplifica.
Para ele, o
imbróglio jurídico em torno do ex-presidente pode estimular a busca ativa do
eleitorado por informação. "Certamente as pessoas vão querer mais saber
quem é o candidato do Lula agora do que em 2010. As pessoas hoje trabalham com
um cenário em que há primeira opção, que é o Lula, e terceira opção, que é
algum outro. Não tem ainda uma segunda opção. Quando tiver, elas devem migrar
para essa".
O eleitorado de
Lula versus o eleitorado do PT
O eleitorado de
Lula é basicamente composto por dois blocos, cada um deles com modos
específicos de se orientar na hora de votar. Uma parte é o eleitor petista, que
tem identificação com as pautas e propostas da legenda. A depender da pesquisa
analisada, entre 16% e 19% dos eleitores brasileiros indicam ter simpatia pelo
PT. Nesse grupo, o realinhamento de apoio para qualquer outro candidato petista
seria mais facilmente assimilado.
A segunda parte
do eleitorado de Lula são os lulistas: brasileiros de baixa renda e baixa
escolaridade, de pequenas e médias cidades e que, no geral, experimentaram
alguma ascensão social durante a gestão Lula. "Para além do partido, o
Lula tem um eleitorado mais pessoal, que não necessariamente se alinha a
questões partidárias", explica Marcus Melo, professor da Universidade
Federal de Pernambuco.
"Com Lula,
o PT foi bem sucedido para chegar ao Planalto porque superou o seu patamar de
militantes e simpatizantes e capturou um grupo que chamamos de 'swing voters',
aquele eleitor que não tem lealdade com ninguém e se move por um sentimento de
bem-estar que o faz recompensar um governante, por isso essa identificação é
muito mais pessoal", completa.
É nessa metade
do eleitorado de Lula em que há, por exemplo, a possibilidade de migração de
votos do petista para Bolsonaro, que estaria no outro lado do espectro
político. Para Marcos Coimbra, esse eleitor enxerga semelhanças nas personas do
ex-sindicalista e do ex-capitão. "Bolsonaro não encarna o papel de alguém
que passou fome ou viveu na pobreza, mas se identifica com um baixa classe
média, o morador da zona leste paulistana ou da zona norte do Rio, um homem com
limitações comuns a alguém que não veio da elite", diz o presidente do
Vox.
Para tentar
reduzir a imprevisibilidade desse segundo grupo de votantes, o PT tenta se
colocar como mediador entre Lula e o eleitor. Como o ex-presidente está preso e
incomunicável, cabe ao partido denunciar as supostas perseguições contra Lula e
mantê-lo em evidência. Gleisi Hoffmann, presidente da legenda, e os demais
dirigentes, falam continuamente em nome de Lula. Com isso, o partido busca
colar a imagem de Lula à sua imagem institucional.
"Percebemos
nas pesquisas que, ao longo dos últimos meses, a questão da perseguição do Lula
aumentou a vinculação dele ao PT e reduziu muito a distância entre o que é o
petismo e o que é o lulismo", argumenta Coimbra.
Ainda assim, a
percepção de que Lula segue sendo muito maior do que o PT é majoritária entre
estudiosos. "Em pesquisas não registradas que colocam o Haddad como o
candidato do Lula, notamos que ele atinge um patamar de 12%. Coloca o cara no
jogo, mas não em um patamar vencedor. Eu não acredito que seja possível pegar
todo o capital político do Lula e transferi-lo para o Haddad", diz Carlos
Melo.
A transferência
da transferência
Vencedor das
últimas quatro eleições presidenciais, o PT precisa ao menos chegar ao segundo
turno em 2018, para evitar o que dirigentes da sigla chamam de
"tragédia" e manter sua hegemonia do campo da esquerda.
"O PT é o
que chamamos de um partido majoritário. Abrir mão desse protagonismo que tem
seria abrir mão de sua própria história", explica Melo.
Isso explica
porque o partido é tão refratário a conversas com lideranças de centro-esquerda
como Ciro Gomes, que poderiam tirar do PT a primazia sobre a agenda no
campo.
Lideranças
petistas divergem, no entanto, sobre o que fariam caso ficasse claro, uma
semana antes da eleição, que o escolhido por Lula não irá ao segundo turno e
que nenhum candidato da esquerda estará na disputa final.
Em um cenário
com Bolsonaro e Marina no segundo turno, por exemplo, Haddad tem afirmado
reservadamente que abriria mão da candidatura em favor do candidato esquerdista
mais bem colocado nas pesquisas. Jaques Wagner já afirmou publicamente que o PT
deveria abraçar "um dos candidatos que estão aí", sem necessariamente
indicar um nome próprio caso Lula seja mesmo impugnado.
Nesse caso,
haveria uma tentativa de transferência da transferência. Para Marcos Coimbra,
essa seria uma manobra "estranha" e bastante difícil de justificar
para o eleitorado alinhado a Lula. "Mas tem gestos em política que são
meramente políticos, e não orientados por pesquisa", diz.
BBC News

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