08/06/2018

Mulher de traficante repassou ordem para que facção invadisse o Morro da Coroa, Rio


Policiais do Bope apreenderam um fuzil M-16 e uma pistola,
após confronto no Babilônia (Foto: Reprodução/ PMERJ)
Moradores foram expulsos da comunidade e denunciam roubos; Alessandra dos Santos foi atingida por bala perdida. Favelas da Zona Sul e de Niterói também sofrem com guerra de facções.
A ordem passada a traficantes pela mulher de um bandido preso levou terror ao Morro da Coroa, no Catumbi, Zona Norte do Rio, de acordo com informações obtidas pelo G1. O confronto entre criminosos de facções rivais começou na última sexta-feira (1º) e só terminou quatro dias depois, quando traficantes "pularam" para outra facção. Desde aquele dia, moradores estão em pânico.
Alguns foram expulsos de casa e outros tiveram os telefones celulares tomados pelos invasores, segundo relatos. O conflito aberto na região se deu entre criminosos das facções Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigo dos Amigos (ADA), de acordo com investigadores.
A troca de tiros na Coroa ignorou a presença de uma Unidade da Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade e o fato de o Rio de Janeiro estar sob intervenção federal na Segurança Pública.
Conforme apurado pela equipe de reportagem, há informações de que a mulher do traficante Anderson Rosa Mendonça, o "Coelho", que está preso, esteve no Complexo do São Carlos e repassou a determinação para que a Coroa fosse invadida. Na região, a comunidade era a única que ainda permanecia sob domínio da ADA e representava um importante ponto de venda de drogas para o TCP.
Fontes na polícia confirmaram, na segunda-feira (4), que bandidos da favela tinham "abraçado" a nova facção. A partir de então, todo o Complexo do São Carlos - Zinco, Coroa, Querosene, Mineira e São Carlos - estava sob controle do Terceiro Comando. A Polícia Civil informou que investiga as mudanças.
Com o fim do confronto, os dias seguintes não foram de paz para moradores. Um deles denunciou ao G1 que traficantes da facção que assumiu o morro estão roubando celulares e eletrodomésticos de moradores e se fala até em casos de tortura. Além disso, há também informações repassadas ao Disque-Denúncia de pessoas que foram expulsas da comunidade por serem parentes de criminosos que foram mortos ou que deixaram a favela.
Na quarta-feira (6), uma tragédia: a auxiliar de limpeza Alessandra dos Santos Soares, de 27 anos, morreu após ser atingida por uma bala perdida. Ela tinha duas filhas, uma delas recém-nascida que ainda estava sendo amamentada.
Alessandra foi baleada dentro de casa, próximo à Praça Amor de Mãe, na parte alta da Coroa. Apesar do esforço da família para "blindar" a criança, a filha mais velha da vítima está traumatizada e, segundo uma tia, não conseguiu dormir na noite que sucedeu a morte da mãe.
Também segundo moradores, os tiros que mataram Alessandra partiram de um confronto envolvendo policiais militares e bandidos, num local entre os morros da Mineira e da Coroa. De acordo com o relato, criminosos dispararam contra os PMs do Batalhão de Choque, que estavam próximo à Praça Amor de Mãe. A Polícia Militar nega que tenha feito qualquer operação na Coroa.
Ameaça de invasão na Zona Sul
Enquanto assumia o controle da Coroa, traficantes do TCP sofreram uma "derrota" no Morro da Babilônia. A comunidade, que fica no Leme, na Zona Sul carioca, com vista para o mar, estava sob domínio do TCP, que também controla a favela vizinha, o Morro Chapéu-Mangueira. Na madrugada de segunda-feira (4), a favela foi invadida por bandidos do Comando Vermelho. Moradores das redondezas estão apavorados com o confronto, que já dura quatro dias.
Segundo o subcomandante do 19º BPM, tenente-coronel Gilbert dos Santos, homens da unidade fazem um cerco que se estende até Botafogo para evitar que criminosos de ambas as facções fujam das favelas no Leme. Mesmo assim, um dos bandidos conseguiu escapar se passando por funcionário de um dos prédios próximos à favela.
A disputa pelo território já era monitorada pela Polícia Civil. Há cerca de um mês, informações do setor inteligência da instituição indicavam que traficantes do TCP poderiam tentar invadir o chamado Complexo PPG, que inclui os morros do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, em Copacabana e Ipanema.
"Até hoje não tive nenhum registro de invasão. Há informes de que o grupo do Chapéu-Mangueira planejava um ataque, mas até agora não há nada concreto. Os confrontos no Pavão-Pavãozinho e Galo geralmente ocorrem entre traficantes e forças policiais, UPP [Unidade de Polícia Pacificadora] ou do COE [Comando de Operações Especiais]", explicou o delegado Neilson Nogueira, titular da 13ª DP (Ipanema).
Mesmo com a ameaça, o delegado avaliou ser pouco provável uma invasão porque os traficantes do TCP, após a invasão do CV, ainda tentam se consolidar para retomar a Babilônia. Já no PPG, há, segundo ele, outras questões que tornam mais difícil uma invasão, como a geografia do morro, que tem várias entradas e área de mata.
Apesar do aparente domínio do território no PPG pelo CV, o delegado garantiu que as coisas mudaram de um ano para cá. Antes, segundo Nogueira, a UPP na comunidade mantinha o controle do terreno e conseguia fazer patrulhamentos mais ostensivos. Hoje, ele afirma que isso mudou e traficantes voltaram a empunhar fuzis.
A polícia aponta o traficante "Léo Marrinha" como chefe do tráfico no Pavão-Pavãozinho, e, no Cantagalo, quem seria o "dono do morro" é o bandido conhecido como "Léo do Dique".
Um confronto por dia nas comunidades do RJ
Os confrontos no Morro da Coroa e no Babilônia são apenas um resumo do cenário atual na cidade do Rio e em Niterói, na Região Metropolitana. A partir de chamadas em batalhões da Polícia Militar e de informações da Polícia Civil, o G1 verificou que, diariamente, há, pelo menos, uma troca de tiros entre facções.
De acordo com investigadores, uma das causas dessa situação é o esfacelamento da facção ADA, presente em apenas oito comunidades do RJ. O grupo foi, segundo policiais, abandonado por inúmeros traficantes, entre eles, Antônio Bonfim Lopes, o Nem da Rocinha.
Mesmo preso em uma unidade federal, o criminoso deixou a facção e "pulou" para o TCP numa articulação que teria envolvido, inicialmente, Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém.
Celsinho era um dos articuladores da união entre TCP e ADA, mas decidiu se manter na facção e não seguir com os outros criminosos, o que desagradou chefes do tráfico de inúmeras comunidades do RJ, que abandonaram o grupo criminoso.
Niterói
A nova configuração do TCP deu início a conflitos em diferentes pontos da cidade. E até em Niterói, onde apenas no dia 29 de maio, por exemplo, de acordo com dados da PM, quadrilhas de sete comunidades entraram em confronto na região do Fonseca.
Naquela data ocorreram confrontos nas comunidades de Otto/Marítimos (TCP), Coronel Leôncio (CV), Boa Vista (TCP), Serrão e Juca Branco (CV), todas em Niterói. Houve ainda invasão do TCP da Santo Cristo, Fonseca, contra rivais do CV de Nova Brasília.
"São facções reforçadas por criminosos que ganharam as ruas com benefícios da Justiça. Estou muito preocupado com essa situação, que parece sem controle. Não é problema de polícia", afirmou Zeca Borges, coordenador do Disque-Denúncia.
Por Marco Antônio Martins e Nicolás Satriano, G1 Rio

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