![]() |
© RODRIGO
CAVALHEIRO/ESTADAO Gabriel Morales,
venezuelano
que pretende entrar no Brasil, na rodoviária
em Caracas
|
Os EUA
anunciaram nesta segunda-feira, 21, sanções que bloqueiam ativos da Venezuela no país,
incluindo as propriedades da principal fonte de receita chavista, a petrolífera
estatal PDVSA. A medida foi uma resposta à reeleição de Nicolás
Maduro no domingo, em uma eleição considerada fraudulenta pelo
candidato opositor Henri Falcón e pela maior parte da comunidade internacional.
As sanções
americanas proíbem a compra de ativos estatais do país ou de créditos que
Caracas tenha para receber no futuro. Elas foram acompanhadas de compromissos
de outros países da região de aumentar a fiscalização e a troca de informações
sobre o uso de seu sistema bancário por pessoas ligadas ao governo Maduro.
O Grupo de
Lima, que inclui Brasil e outros 13 países, não reconheceu a votação e chamou
seus embaixadores para consultas, em sinal de protesto. Os integrantes
anunciaram cinco medidas na área financeira que deverão bloquear o comércio e
investigar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e financiamento ao
terrorismo. O objetivo é que essas ações levem ao eventual congelamento de
ativos ou a restrições financeiras.
Eles disseram
que reforçarão sua ação na Organização dos Estados Americanos (OEA) para suspender
a Venezuela por descumprimento da cláusula democrática.
Assessores da
Casa Branca afirmaram que as sanções têm o objetivo de evitar que o regime
liquide créditos futuros ou bens estatais em troca de dinheiro vivo imediato.
Mas atividades na Venezuela nesse setor já estão restritas em razão de vitória
judicial da Conocophillips, que em maio conseguiu arrestar tanques de petróleo
venezuelano para garantir o pagamento de uma dívida de US$ 2 bilhões.
A hipótese de
que o próximo passo americano sejam sanções diretas à atividade petrolífera
venezuelana para pressionar o chavismo não é bem-vista por líderes opositores
do país. O presidente da Assembleia Nacional, Omar Barbosa, disse ao Estado não
concordar com a ideia.
“É preciso evitar medidas que atinjam o
petróleo, que não pertence ao governo, mas sim a todos os venezuelanos”, disse
Barbosa. O Congresso teve os poderes tomados no ano passado por uma
Constituinte chavista.
Barbosa
defendeu a estratégia opositora de boicotar a eleição, principal razão para a
abstenção de mais de 53%. Maduro venceu com 68% dos votos. “Se todos fossem
votar, Maduro teria conseguido 10 milhões em vez de 6 milhões”, afirmou,
referindo-se ao controle chavista do Conselho Nacional Eleitoral.
Para o
economista venezuelano Asdrúbal Oliveros, as novas sanções, embora não afetem
diretamente o comércio de petróleo, terão algum impacto na população. “Com
essas sanções, a venda de petróleo ainda pode ser feita. Mas se vierem sanções
ao comércio do produto, as importações em geral serão reduzidas. Isso ampliará
a escassez e afetará em cheio a população”, avaliou Oliveros, que prevê
problemas para o fluxo de caixa do governo com as medidas de segunda-feira, 21.
“São propriedades do Estado venezuelano, como refinarias da Citgo (filial
americana da PDVSA)”, afirmou.
O governo russo
atacou a “interferência externa” nas eleições venezuelanas e pediu a Maduro que
realize um “diálogo nacional” para superar a crise. Aliado de Caracas e com
joint ventures fechadas com os venezuelanos no setor do petróleo, Moscou
elogiou Maduro.
Segundo o
Kremlin, Putin desejou a Maduro “uma boa saúde e sucesso na solução de desafios
sociais e econômicos que o país enfrenta”. Moscou afirmou que as ações de
vizinhos ou dos EUA em relação a Caracas são “precedentes perigosos”.
A China, onde
vigora um regime de partido único, alertou que não aceitará a ingerência em
assuntos domésticos venezuelanos. O Irã também defendeu a validade da reeleição
de Nicolás Maduro.
Rodoviária é
rota de fuga mais barata para o exterior . Por US$ 2, o decepcionado
com a reeleição de Nicolás Maduro pode percorrer os 1.200 quilômetros que
separam Caracas de Santa Elena de Uairén, na fronteira com o Brasil. A viagem
dura de 15 a 24 horas. Gabriel Morales, de 39 anos, estava na segunda-feira,
21, na rodoviária “del Oriente”, de onde partem os veículos para o leste do
país. Mesmo sendo de Maracaibo, ele quer morar no Brasil. Viveu em 2016 em Boa
Vista e voltou à Venezuela para ajudar a família. Agora, pretende levar a
mulher, a filha de 1 ano e a mãe, que após da reeleição de Maduro se convenceu
a partir.
“Na Venezuela,
para se conseguir um litro de leite (o salário mínimo é de US$ 3) é preciso ser
criminoso. E o Brasil é melhor que a Colômbia, valoriza o trabalho e a produção
nacional”, disse o homem, preparador de lanches, faxineiro, mecânico,
eletricista, encanador e adestrador de cães.
Perto dali,
sentada no chão, Stefani (não quis dizer o sobrenome), de 26 anos, esperava a
amiga Jennifer Montes, de 28 anos, comprar as passagens. O resultado da eleição
foi decisivo para Stefani deixar o filho de 8 anos com a mãe em Caracas. A
jovem abandonou a escola ao engravidar, aos 18 anos. “O Brasil ainda é
Venezuela, né?”, questionou Stefani. Jennifer explicou se tratar de outro país.
“Mas é Venezuela?”, insistiu Stefani. “Não, é outro país!”, rebateu Jennifer.
“Ahhh...”, respondeu Stefani. / COLABOROU JAMIL CHADE

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!