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Raúl Castro
e seu provável sucessor Miguel Díaz-Canel em 18
de abril de 2018 (Foto: rene Perez/Courtesy of
Cubadebate/
Handout via
Reuters)
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Pela
primeira vez em quase 60 anos, líder máximo cubano não será um dos irmãos
revolucionários. Apesar da 'transição geracional', expectativa é mais de continuidade
do que de ruptura com governos anteriores.
Cuba anuncia
seu novo presidente nesta quinta-feira (19). O único candidato indicado para aprovação da Assembleia Nacional,
como já se esperava, é Miguel Díaz-Canel. Dessa forma, depois de quase 60 anos,
a ilha não terá um dos irmãos Castro no comando: Raúl Castro deixará a
presidência 12 anos depois de substituir pela primeira vez seu irmão mais
velho, Fidel.
Díaz-Canel, de
57 anos, será também o primeiro presidente de uma geração posterior à que
vivenciou a Revolução de 1959.
“É a primeira
vez que Cuba será presidida por um político que nasceu depois e não pertence à
geração guerrilheira. Alguns analistas acreditam que, por essa nova 'geração
burocrática' possuir menos legitimidade, terá também que criar mais mecanismos
de gestão colegiada e negociação entre os diferentes grupos que compõem o
Estado", analisa a historiadora Joana Salém, doutoranda em História na
Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora visitante da Universidade da
Califórnia.
"Essa
transição geracional pode criar um efeito descentralizador do sistema político,
mas isso não necessariamente será visível ao observador externo, pois pode
acontecer sem mudanças formais”, afirma Salém.
Daniel Aarão
Reis, professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense
(UFF), acredita que não se pode dizer que a "era Castro acabou". Para
ele, a oposição ao governo de Raúl ainda encontrará dificuldades, mesmo que a
abertura econômica ganhe fôlego.
"As
oposições continuam a ter vida dura em Cuba, sofrendo assédio permanente do
governo e de sua polícia política, que se concretiza em pressões e mesmo
prisões. A curto prazo, não há perspectivas alentadoras para elas",
afirma.
O novo
mandatário prestes a assumir será o primeiro civil na presidência desde 1976,
mas isso não significa necessariamente uma mudança política no país. A
trajetória de Díaz-Canel se deu dentro do Partido Comunista de Cuba (PCC), sob
a tutela de Raúl Castro.
Ele nasceu em
1960, um ano depois da Revolução, na província central de Villa Clara.
Foi líder da
união de Jovens Comunistas em sua província e chegou à liderança da juventude
nacional do Partido Comunista de Cuba em 1993.
Menino hastea
bandeira de Cuba durante cerimônia em escola de Santo Domingo, na Serra
Maestra, em imagem de 2 de abril (Foto: Alexandre Meneghini/ Reuters)
Foi nomeado
ministro do Ensino Superior por Raúl Castro em 2009 e ficou no cargo durante
três anos. Em março de 2012, foi nomeado vice-presidente do Conselho de
Ministros para a Ciência, Educação, Esportes e Cultura, circulando nacional e
internacionalmente, muitas vezes na companhia ou em nome de Raúl Castro.
Metódico,
Díaz-Canel cresceu na carreira política como um "funcionário
exemplar".
"Ele é um engenheiro que pensa em termos
de eficiência, questionando-se qual é o sistema que lhe trará mais
resultados", afirma o cientista político López Levy, contemporâneo de
Díaz-Canel, à reportagem da BBC.
Aarão Reis
lembra que, embora Díaz-Canel seja um homem de confiança de Raúl Castro e tenha
uma trajetória dentro do Partido Comunista de Cuba, ele não pertence à geração
revolucionária e é civil.
"Insista-se:
ele é um homem do sistema, mas há exemplos históricos de 'homens do sistema'
que se decidiram a mudar o 'sistema'. Basta citar dois exemplos: Mikhail
Gorbatchev e Deng Xiao-Ping. Embora provenientes do 'sistema', souberam
encarnar propostas reformistas", diz Aarão Reis.
Questões
importantes com as quais o novo presidente terá de lidar:
- Desestatização
Para a
historiadora Joana Salém, os cubanos têm duas expectativas principais em
relação ao novo governo: primeiro, a desestatização da economia; segundo, a
descentralização da política.
“Quando digo
'desestatização' não me refiro ao neoliberalismo ou às privatizações, como
acontece no resto da América Latina, mas sim a uma economia que deixará de ser
95% estatal para ser 70% estatal. O Estado cubano seguirá sendo
protagonista", explica Salém.
"Acontece
que a abertura de 30% de setor privado faz uma grande diferença na vida da
sociedade cubana, que passa a criar pequenas e médias empresas", completa.
- Descentralização
A
descentralização da política é um ponto mais polêmico. A Assembleia Nacional do
Poder Popular é formada por deputados com salários próximos da média salarial
do povo, 40% são negros e 53% são mulheres, mas, em termos ideológicos, a coisa
muda de figura.
“Há um
predomínio absoluto de militantes do Partido Comunista (96%). Setores não
partidários poderiam ter mais participação. Existem grupos apoiadores da
Revolução, identificados com o socialismo, mas que defendem o fortalecimento
dos organismos de base, como os Conselhos Populares, e a criação de mais canais
de representatividade e de debate público”, continua Salém.
A visão de
Díaz-Canel sobre essa importante encruzilhada do regime cubano, no entanto,
continua uma incógnita.
Para Antonio
Rodiles, ativista anticastrista, Díaz-Canel "é uma pessoa apagada, que repete como um robô o que tem sido dito
em Cuba nos últimos 60 anos".
A aproximação
entre os dois países, movimento que vinha sendo implementado no governo Obama,
foi freado quando Donald Trump
assumiu a presidência dos EUA. As embaixadas voltaram a se instalar em
Havana e Washington, e Obama chegou a visitar Cuba em 2016, reduzindo a tensão
de décadas entre a superpotência capitalista e o pequeno enclave socialista
situado a poucos quilômetros de sua costa.
O futuro,
porém, depende muito mais do governo americano do que de Cuba.
"A
abertura empreendida por Obama foi paralisada. Entretanto, Trump não a
reverteu. E é do interesse de empresas americanas ganhar e consolidar acesso ao
mercado cubano. Tudo isto está sujeito a ventos e a trovoadas", comenta o
professor Aarão Reis.
"Mas uma
coisa é certa: um eventual endurecimento dos EUA só fará o jogo dos
conservadores cubanos que desejam manter como está uma ditadura política que já
foi revolucionária e que, há muito, se tornou basicamente conservadora",
completa.
Quando o novo
presidente assumir, o caçula dos irmãos Castro não renunciará a todas as suas
funções. Ele continuará atuando como secretário-geral do Partido Comunista de
Cuba até 2021, além de seguir como deputado nacional e líder das Forças
Armadas.
Raúl sucedeu
Fidel interinamente em 2006 e definitivamente em 2008, após ser o número 2
durante os anos de governo do irmão mais velho.
Na Revolução de
1959, Raúl, sob a liderança de Fidel, ajudou a derrubar o governo cubano
comandado pelo ditador Fulgencio Batista. Após a tentativa bem sucedida de
tomar o poder na ilha, Fidel já anunciava que seu irmão caçula deveria ser seu
sucessor. Meses depois, ele assumiu o posto de Ministro da Defesa.
Invasão da
Baía dos Porcos e Crise dos Mísseis
Em 1961, tropas
cubanas lideradas por Raúl conseguiram impedir a invasão da Baía dos Porcos por
um grupo de paramilitares treinados pela CIA. A derrota dos EUA no episódio,
que durou 4 dias, foi significativa para o estabelecimento do regime de Fidel.
Um ano depois,
durante visita à União Soviética, Raúl recebeu a promessa de que teria mísseis
instalados em Cuba, o que acabou levando à Crise dos Mísseis. O conflito entre
Estados Unidos e União Soviética durou 13 dias e terminou depois que Kennedy,
então presidente dos EUA, concordou em retirar mísseis americanos da fronteira
entre a Turquia e a União Soviética.
Mais
flexível
Em outubro de
1997, o Partido Comunista definiu oficialmente que Raúl seria o sucessor de
Fidel Castro quando este tivesse que deixar o poder. Em 2006, Fidel precisou se
afastar por causa de uma cirurgia no intestino, e Raúl assumiu interinamente o
comando da ilha.
Dois anos
depois, Raúl se tornou oficialmente o novo presidente de Cuba, após Fidel
renunciar devido à saúde já debilitada.
Desde então,
Raúl se mostrou mais flexível que o irmão e comandou pequenas mudanças na vida
em Cuba, abrindo o país para investimentos estrangeiros, empresas privadas e
para a compra e venda de imóveis. Também permitiu viagens de cubanos ao
exterior.
Já na reta
final de seu mandato, recebeu Barack Obama e retomou as relações diplomáticas
de Cuba com os EUA, após 52 anos de embargo.
Foi casado por
48 anos com Vilma Espín, sua companheira de Revolução que morreu em 2007. Ele
tem três filhas, incluindo a deputada Mariela Castro, e um filho, o influente
coronel Alejandro Castro, nove netos e uma bisneta.
Brasil e
Cuba
Durante o
período de Raúl Castro na presidência, a relação do país caribenho com o Brasil
teve capítulos importantes.
Em 2014, a
então presidente Dilma Roussef participou da inauguração do Porto de Mariel em
Cuba. A obra foi feita com um empréstimo de US$ 802 milhões (cerca de R$ 3,1
bilhões) do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social) com um
prazo de 25 anos. A obra ficou a cargo da empreiteira Odebrecht na época.
Também durante
o governo Dilma, Brasil e Cuba iniciaram a parceria do Programa Mais Médicos,
que tem o objetivo de levar profissionais brasileiros e estrangeiros a áreas
carentes das periferias de grandes cidades e também para o interior do país.
Por intermédio
da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), Cuba enviou diversos
profissionais para atuar como médicos no Brasil, inicialmente com contratos de
três anos. O governo de Michel Temer deu continuidade ao programa em 2016,
sancionando uma lei que prorrogou o projeto por mais três anos.
Por Tatiana Regadas, G1

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