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© BBC Kausalya
e o marido, que pertencia a uma casta
considerada
inferior na Índia, se apaixonaram na faculdade.
Ele acabou
assassinado por ordem do pai dela | Foto: Nathan G
|
Em março de
2016, um homem de 22 anos foi golpeado até a morte em plena luz do dia, em uma
estrada movimentada no sul da Índia. O motivo: havia se casado com uma mulher
de uma casta - ou grupo social - superior.
A mulher estava
com ele no momento do ataque e sobreviveu.
Ela acusou os
pais pelo crime e passou a lutar contra o sistema de castas e as divisões que
ele causa - famílias de casta mais altas muitas vezes não admitem que seus
filhos se casem com pessoas de castas inferiores.
No caso de
Shankar e Kausalya, a união ocorreu oito meses antes de ele ser morto.
Em seu último
dia de vida, um domingo, Shankar e a mulher acordaram por volta das 9h da manhã
e tomaram um ônibus até um mercado na cidade de Udumalpet, para comprar roupas
novas para um compromisso que ele teria na faculdade no dia seguinte.
Assassinato
Após o passeio,
Shankar quis oferecer um lanche a Kausalya, mas, como estavam com pouco
dinheiro - o equivalente a R$ 3 -, decidiram deixar para outro dia. Ele
cozinharia um prato especial para ela quando chegassem em casa.
Só que isso
nunca aconteceu.
Imagens de uma
câmera de vigilância mostram os dois caminhando em direção à estrada onde
pegariam o ônibus de volta. Antes que pudessem cruzá-la, no entanto, foram
abordados por cinco homens que chegaram de moto.
Quatro deles
atacaram o casal com facões. Golpearam marido e mulher.
Sangrando
muito, Shankar lutou para escapar. Kausalya cambaleava em direção a um veículo
estacionado nas proximidades, quando foi abatida mais uma vez pelos agressores.
Tudo acabou em 36 segundos.
Os homens
voltaram para as motocicletas e partiram quando uma multidão começou a se
aglomerar. A polícia confirmou depois que o bando era formado por seis homens,
em três motocicletas, duas delas com placas falsificadas.
Cinco deles
atacaram o casal, enquanto o sexto observava.
Uma ambulância
chegou rápido ao local e tirou marido e mulher da pista ensanguentada. A
caminho do hospital, na maca, Kausalya segurava a medicação que recebia na
veia. Shankar estava quieto.
"Deite a
cabeça no meu peito", disse ele. A mulher passou para o lado dele.
Minutos depois,
quando a ambulância entrou no hospital, ele parou de respirar.
A autópsia
identificou 34 cortes e ferimentos em seu corpo "moderadamente
nutrido". Shankar morreu de "choque e hemorragia devido a cortes
múltiplos e lesões provocadas pelas punhaladas".
Kausalya passou
20 dias no hospital, com o rosto envolto em ataduras, esperando 36 pontos
cicatrizarem e uma fratura óssea ser corrigida. Da cama do hospital, ela disse
à polícia que seus pais eram responsáveis pelo ataque.
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© BBC Uma
selfie tirada com o marido é o papel de
parede do
celular de Kausalya | Foto: Nathan G
|
"Por que
você o ama?", gritava um dos agressores enquanto a esfaqueava. "Por
quê?"
Shankar e
Kausalya haviam quebrado o que a escritora Arundhati Roy descreveu como
"Leis do Amor", que "estabelecem quem deve ser amado, como e
quanto", em seu premiado romance O Deus das Pequenas Coisas.
Shankar era um
Dalit (antigamente conhecidos como intocáveis), filho de um trabalhador
sem-terra que recebia por diárias em uma fazenda e morava em uma cabana de
apenas um cômodo com quatro membros da família, na aldeia de Kumaralingam.
Kausalya, por
sua vez, era de uma casta relativamente influente de Thevar. Ela é filha de um
taxista de 38 anos, que morava em uma casa de dois andares na pequena cidade de
Palani.
Quando ela
disse aos pais que queria se tornar comissária de bordo, eles rejeitaram a
ideia porque "ela teria que usar saias curtas".
Depois que ela
concluiu os estudos, em 2014, eles a levaram a um templo familiar para conhecer
homens com quem queriam que se casasse. Diante da recusa, eles a enviaram a uma
faculdade privada para estudar ciências da computação e engenharia. Ela odiava
a faculdade.
"Havia
muitas restrições. Não podíamos sequer tentar sair do campus. Não podíamos
conversar com os rapazes. Homens e mulheres se sentavam separadamente na sala
de aula. No ônibus da faculdade, sentávamos em áreas diferentes. Se o segurança
nos visse falando com os rapazes, informava nossos pais. Era muito
sufocante", relembra.
'Amigos
respeitosos'
Mas o amor pode
acontecer até nos lugares mais impróvaveis.
Na faculdade,
um calouro alto e magro, do curso de engenharia, caminhou até ela, se
apresentou como Shankar e perguntou: "Você está apaixonada por
alguém?"
Kausalya diz
que não respondeu e se afastou, envergonhada.
No dia
seguinte, Shankar insistiu com a pergunta: "Você está apaixonada por
alguém? Porque acho que amo você". Ela se afastou de novo.
No terceiro
dia, quando a abordou novamente, ela disse que "procurasse outra
garota". Mas começou a se afeiçoar a ele.
Eles passaram a
se comportar como "amigos respeitosos". "Com o tempo, aquele
sentimento foi crescendo em mim."
Era um amor
difícil. Como ela não podia sair de casa sozinha para falar ao telefone, eles
trocavam mensagens de WhatsApp nos passeios de ônibus da faculdade.
Eles trocaram
mensagens diariamente durante 18 meses. Falavam sobre suas esperanças e sonhos.
"Eu tenho
dois sonhos", escreveu ele um dia. "Construir uma casa adequada para
minha família e amar você para sempre."
Em seu segundo
ano, ela se inscreveu em aulas de língua japonesa, para poder ficar além dos
horários da faculdade. Shankar a esperaria, e eles poderiam conversar no
caminho de volta para casa.
Mas certo dia,
em julho de 2015, o condutor do ônibus os viu conversando, descobriu onde
Kausalya vivia e contou o episódio à mãe dela. Na mesma noite, seus pais
tomaram seu telefone, ligaram para Shankar e disseram a ele que mantivesse
distância de sua filha.
Eles disseram a
Kausalya que Shankar a engravidaria e fugiria. No dia seguinte, a tiraram da
faculdade.
Ela chorou a
noite inteira e acordou na manhã seguinte com a casa vazia - seus pais haviam
saído. Ela procurou o telefone, o encontrou e ligou para contar a Shankar sobre
a briga com seus pais. Perguntou então se ele planejava engravidá-la e fugir.
"Se você
está preocupada com isso, podemos fugir agora e casar", disse ele.
Kausalya pegou
suas coisas e saiu de casa. No dia seguinte, 12 de julho de 2015, ela foi ao
templo com Shankar e eles casaram. Em seguida, foram à delegacia de polícia
local, informaram às autoridades sobre seu casamento entre castas e pediram
proteção.
Dalits e
membros de tribos sofrem com o peso da brutalidade de castas no Estado de Tamil
Nadu, na Índia, onde mais de 1.700 crimes do tipo foram denunciados apenas
naquele ano.
Os oito meses
seguintes, diz Kausalya, foram "o período mais livre e feliz" de sua
vida. Ela se mudou para a casa de Shankar - com o pai, os dois irmãos e a avó
dele -, saiu da faculdade e começou a trabalhar como vendedora.
Seus pais e
parentes se esforçaram para separá-los: prestaram queixa na polícia dizendo que
Shankar havia sequestrado sua filha e, uma semana depois do casamento, a
raptaram e a levaram a xamãs e sacerdotes que espalhavam cinzas em seu rosto e
a alimentavam à força com poções, pressionando-a a deixar o marido.
Eles finalmente
desistiram e Shankar a levou para casa. Os pais dela chegaram a oferecer uma
recompensa financeira para que ele a abandonasse.
Kausalya conta
que, uma semana antes do assassinato, seus pais visitaram sua casa e ordenaram
que ela fosse embora com eles, o que ela se recusou a fazer.
'Nós não somos
responsáveis'
"Se alguma
coisa lhe acontecer a partir de hoje, não seremos responsáveis", disse seu
pai, antes de sair.
A polícia
descobriu que o pai de Kausalya havia contratado cinco homens com antecedentes
criminais para matar a filha e o genro e assim "enviar uma mensagem
pública" sobre o que acontece quando uma mulher se apaixona por um homem
de casta inferior.
O assassinato
teve 120 testemunhas, e os pais de Kausalya foram presos. Ela mesma contestou a
fiança do casal 58 vezes no tribunal.
"Minha mãe
ameaçou repetidamente me matar. Ela me disse que era melhor eu estar morta do
que casada com ele", disse ao juiz.
Em dezembro, o
juiz Alamelu Natarajan condenou seis homens à morte, incluindo o pai da jovem.
Sua mãe e mais duas pessoas foram absolvidas. Kausalya pretende, no entanto,
apelar contra a absolvição, pois acredita que a mãe é igualmente culpada.
Em luto pela
morte do marido, ela diz que chegou a pensar em suicídio, mas decidiu encampar
uma luta contra o sistema de castas. Passou a ler livros sobre o tema, cortou
os cabelos e começou a aprender karatê.
Em seguida,
Kausalya começou a se reunir com grupos anticasta e a denunciar crimes
relacionados. Também aprendeu a tocar o parai, um tambor tradicionalmente
tocado por Dalits.
Recentemente,
ela realizou o sonho de Shankar: construiu uma casa de quatro cômodos para sua
família - a partir da indenização que recebeu do governo - e inaugurou um
centro de ensino para estudantes pobres da aldeia.
Para sustentar
a família, assumiu um cargo de funcionária pública.
Nos fins de
semana, viaja por Tamil Nadu para discursar em encontros contra castas e os
chamados assassinatos de honra, enfatizando a "importância do amor".
"O amor é
como a água, é uma coisa natural. O amor acontece. As mulheres têm que se
revoltar contra o sistema de castas", diz.
Muitos são
contra sua campanha e publicam ameaças de morte em seu perfil no Facebook.
Hoje, ela é protegida pela polícia.
Depois que
Shankar morreu, os médicos a devolveram seu telefone - que guarda as boas
lembranças do período de namoro.
"Eu não
sei o que dizer, mas sinto sua falta", disse Shankar em uma mensagem a ela
em uma noite de verão, em 2015.
"Eu
também", ela respondeu.


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