22/11/2017

Desertora do Exército norte-coreano relata rotina de estupros, higiene precária e menstruação interrompida

© Reuters Fome que devastou a Coreia do Norte nos anos 90
levou muitas mulheres às forças armadas, em busca de melhores
condições de vida
Uma ex-soldado da Coreia do Norte diz que ser mulher no quarto maior exército do mundo era tão desgastante para o organismo que ela logo parou de menstruar. E estupro, afirma, era uma realidade para muitas das companheiras com quem serviu.
Por quase 10 anos, Lee So Yeon dormiu na parte de baixo do beliche, em uma sala que dividia com mais de duas dúzias de mulheres. Cada uma delas possuía um gaveteiro para guardar seus uniformes. Em cima do móvel, cada uma mantinha duas fotografias emolduradas. Uma era do fundador da Coréia do Norte, Kim Il-sung. A segunda, do seu agora falecido sucessor, Kim Jong-il.
Lee partiu há uma década, mas mantém o cheiro daquele lugar vivo na memória.
"Nós suávamos bastante. O colchão em que dormíamos era feito de cascas de arroz e não de algodão. Então, todo o odor do corpo penetrava no colchão. Todo o odor de suor e outros cheiros estão ali. Não é agradável".
Uma das razões para isso eram as condições das instalações de lavagem.
"Como mulher, uma das coisas mais difíceis é não poder tomar banho adequadamente", diz Lee So Yeon.
"Porque não há água quente. Eles conectam uma mangueira a um riacho nas montanhas e é de lá que a água sai diretamente, às vezes com sapos e cobras".
Motivação
Filha de um professor universitário, So Yeon, agora com 41 anos, cresceu no norte do país. Muitos homens de sua família haviam sido soldados, e, quando a fome devastou a Coreia do Norte nos anos 90, ela voluntariou-se - movida pelo pensamento de ter uma refeição garantida por dia. Milhares de outras jovens mulheres fizeram o mesmo.
"A fome resultou em um período particularmente vunerável para as mulheres na Coreia do Norte", diz Jieun Baek, autor de North Korea's Hidden Revolution (A Revolução escondida da Coreia do Norte, em tradução livre). "Mais mulheres tiveram que ingressar na força de trabalho e mais mulheres ficaram sujeitas a maus-tratos, especialmente a assédio e violência sexual".
© BBC Mulheres tinham rotina de treinamentos mais leve que a
dos homens, mas ainda assim com carga suficiente para afetar o
 funcionamento do corpo | Shutterstock
Juliette Morillot e Jieun Baek dizem que o depoimento de Lee So Yeon's está de acordo com outros relatos que ouviram, mas alertam que desertores - aqueles que abandonam o serviço militar sem autorização - têm de ser tratados com cautela.
"Há uma alta demanda por informações da Coreia do Norte", diz Baek. "Isso é quase incentivar as pessoas a contarem histórias exageradas à mídia, especialmente se são pagas para isso. Muitos desertores que não querem estar na mídia são muito críticos dos 'desertores de carreira'. Vale a pena ter isso em mente".
Informação de fontes oficiais da Coreia do Norte, por outro lado, é passível de ser pura propaganda.
Lee So Yeon não foi paga pela entrevista que concedeu à BBC.
No início, movida por um sentimento de patriotismo e esforço coletivo, ela, então com 17 anos, aproveitou a vida no Exército. Ela ficou impressionada com um secador de cabelo que recebeu, embora a eletricidade irregular significasse que usaria pouco o acessório.
Treinamento duro e alimentação reduzida causavam impacto
A rotina diária de homens e mulheres era aproximadamente parecida. Mulheres tendiam a ter, no entanto, um regime de treinos físicos ligeiramente menor - e eram obrigadas a realizar tarefas diárias como limpar e cozinhar, o que soldados homens eram dispensados de fazer.
"A Coreia do Norte é uma tradicional sociedade dominada por homens e tradicionais papeis de gênero permanecem", diz Juliette Morillot, autora de North Korea in 100 questions (Coreia do Norte em 100 perguntas), publicado em francês.
O treinamento duro e rações alimentares muito reduzidas cobraram seu preço nos corpos de Lee So Yeon e de suas colegas recrutas.
"Depois de seis meses a um ano de serviço, não menstruávamos mais devido à desnutrição e ao ambiente estressante", diz ela.
"As mulheres soldado diziam estar felizes por não estarem menstruando. Elas afirmavam que estavam felizes porque a situação era tão ruim que se também menstruassem seria teria sido pior".

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