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© Foto:
Albert Gea/Reuters
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Chegou o dia de
ver se a grande ameaça do governo catalão à Espanha se cumprirá. A tão
anunciada Declaração Unilateral de Independência poderá ser anunciada hoje (às
13h, no horário de Brasília) no Parlamento pelo presidente regional Carles
Puigdemont. Embora tenha relevância política, a decisão pela separação carece
de qualquer validade jurídica, segundo especialistas.
Trocando em
miúdos, a proclamação de secessão não faria da Catalunha uma república
independente. Na segunda-feira, enquanto o governo catalão prometia não recuar,
o espanhol deixou claro que usará todas as medidas necessárias para impedir a
secessão. Um porta-voz do governista Partido Popular (PP), Pablo Casado, ainda
suscitou uma polêmica ao advertir que o líder catalão, Carles Puigdemont,
poderia “acabar” como presidente Lluís Companys, que foi preso ao proclamar um
Estado catalão em 1934. Em 1940, durante o franquismo, foi fuzilado em
Barcelona por militares.
A última
chamada a Puigdemont para que renuncie à proclamação foi feita pela prefeita de
Barcelona, Ada Colau, que disse que os resultados do referendo não podem ser um
aval para a secessão.
— Não
precisamos de uma escalada que não beneficia ninguém. É a hora de fazer pontes,
não de dinamitá-las — contemporizou Colau, forte defensora de uma consulta
legal.
O Executivo de
Mariano Rajoy foi além: se Puigdemont seguir em frente, “terão que tomar
medidas”, advertiu a vice-presidente do governo espanhol, Soraya Sáenz de
Santamaría.
— Não se joguem
no precipício — exortou.
Já Puigdemont
deu a entender que, sem uma mediação com Madri, seu governo não irá recuar.
— Se o Estado
espanhol não responder positivamente, nós faremos o que viemos fazer — disse,
em entrevista à televisão pública da Catalunha.
Especialistas,
no entanto, advertem que a declaração não tem validade jurídica:
— Como a
Espanha não reconhece nem reconhecerá a Catalunha como um país independente,
não se retirará do território. Portanto, se a polícia, os juízes e o Exército
espanhóis continuam na Catalunha, cuja Fazenda e Previdência Social também
permanecerão nas mãos do Estado espanhol, não há independência — afirma José
Antonio Perea Unceta, professor de Direito Internacional Público da
Universidade Complutense de Madrid.
Para haver a
secessão, um dos elementos-chave é o reconhecimento, tanto interno, ou seja, do
próprio Estado — que não há — quanto externo, que tampouco parece haver. Na
segunda-feira, França e Alemanha indicaram que não reconhecerão uma declaração
unilateral de independência na Catalunha.
— Esta crise
precisa ser resolvida por meio do diálogo em todos os níveis da política
espanhola — advertiu Nathalie Loiseau, ministra de Assuntos Europeus da França.
Por sua vez, a
chanceler federal alemã, Angela Merkel, também expressou no sábado seu apoio à
unidade da Espanha em telefonema a Rajoy.
— No caso de
que houvesse o reconhecimento de algum país estrangeiro, seria o grande
fracasso do governo espanhol. Caberia ao Ministério de Assuntos Exteriores
espanhol ter feito todas as gestões necessárias para que nenhum governo, nem
mesmo o da Venezuela, reconheça o Estado catalão — opina Júlio González García,
diretor do Instituto de Direito Europeu e Integração Regional.
Seria, ainda
assim, muito improvável que, mesmo no caso de hipotéticos apoios
internacionais, a proposta de reconhecer a Catalunha como um Estado
independente fosse levada ao Conselho de Segurança da ONU, onde o veto da
França seria certo.
— Se a
Catalunha declara independência, será o primeiro caso que, de um modo
unilateral, se pretende separar a parte de um território de um Estado-membro da
União Europeia — disse ao GLOBO o jurista catalão Xavier Arbós, professor de
Direito Constitucional da Universidade de Barcelona. — A independência é
inviável, é impossível.
Mas, mesmo
sendo inviável e não tendo nenhum valor jurídico, o governo central promete
reagir a uma possível secessão com “mão firme” e sem mediação internacional,
usando a Constituição e o Código Penal.
— Na Espanha é
crime de rebelião declarar a independência de uma parte do território nacional.
Está previsto no Código Penal. Portanto, a declaração de independência
implicaria a detenção imediata do presidente da Catalunha, Carles Puigdemont.
Há questões que podem ser interpretáveis, mas neste caso, o Código Penal é
muito claro — explicou Perea Unceta.
O governo
central, no entanto, não deixa nada claro sobre suas intenções de lançar mão da
Constituição. O Artigo 155 suspenderia a autonomia ou, pelo menos, permitiria a
Madri assumir algumas competências regionais, como, por exemplo, a de
convocação de eleições antecipadas, para evitar um vazio de poder. Outra
alternativa sobre a mesa é o uso da Lei de Segurança Nacional, que prescinde de
trâmites parlamentares. O Estado de exceção também é cogitado.
— De todos os
erros que o governo catalão cometeu, sem dúvida a declaração de independência
seria o maior deles. Sem dinheiro, sem o apoio da maioria da população
(estima-se que os independentistas sejam entre 41% e 46%) e sem o apoio das
empresas, que futuro terá? — indaga Javier García Roca, diretor do Instituto de
Direito Parlamentar.
De fato, a
Catalunha recebeu mais golpes na área econômica segunda-feira, com outras
empresas importantes anunciando que já estão deixando a região ou irão sair em
caso de declaração de independência:
— A declaração
de independência é um realismo mágico. Como se fosse Gabriel García Marques
falando de outra realidade — diz o analista político catalão Joan Subirats, da
Universidade Autônoma de Barcelona. (Com agências internacionais).
Agência O
Globo

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