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© Paula
Sperb | BBC Procura por açougue em Porto Alegre
aumentou 15%
entre sexta-feira, quando foi anunciada a
operação da
PF, e sábado
|
O tradicional churrasco gaúcho
preparado em família nos finais de semana ganhou um ingrediente amargo nos
últimos dias: a preocupação com a origem da carne.
O cuidado com a procedência do
produto foi acentuado no Rio Grande do Sul, onde o churrasco é o prato típico,
desde que a Operação Carne Fraca, da Polícia Federal (PF), revelou o comércio
de carne vencida e adulterada.
Cerca de trinta empresas são alvo
da operação, o que inclui marcas populares como Friboi, Sadia, Seara e Perdigão
- dos grupos JBS e BRF.
Segundo a PF, fiscais do governo
receberiam propina, que teria beneficiado especialmente os partidos PP e PMDB,
para facilitar a venda de carne vencida ou adulterada - usada, principalmente,
como matéria-prima para embutidos.
As autoridades dizem ter
identificado uma série de práticas ilegais na produção das empresas, como
mascarar o aspecto de carne deteriorada, injetar água no frango para aumentar
seu peso e adicionar ingredientes em quantidades que desrespeitavam as leis.
As empresas negam irregularidades
e afirmam que estão colaborando com as investigações.
Nos últimos dias, após a
deflagração da operação, gaúchos trocaram cortes bovinos embalados vendidos em
supermercados por carne fresca comprada diretamente do açougue. Por isso, a
movimentação nos açougues especializados aumentou.
Açougues movimentados
Na Casa de Carnes Mania do Gaúcho,
em Porto Alegre, o fluxo aumentou cerca de 15% no último sábado, quando muitos
compram a carne para o típico churrasco de domingo.
De acordo com Maicon Souza da
Silva, de 31 anos, um dos proprietários do açougue, o movimento normal de um
sábado é de 400 pessoas. Por causa do escândalo, o número de clientes subiu
para 600.
"Muitos perguntaram de onde é
a nossa carne, mas nenhuma é dessas empresas. Compramos a carne abatida
diretamente das fazendas", explica Silva, à frente do negócio da família.
O açougue está em atividade desde
1978 e vende 90% de carne fresca - os 10% de cortes embalados são procurados
principalmente durante a semana para preparo de bifes, por exemplo.
Os principais fornecedores de
Silva são fazendeiros das cidades de Bagé e Pantano Grande. Por dia, o açougue
recebe cerca de 500 quilos de carne. A carne fresca tem validade de apenas três
dias. Caso não seja comprada, é descartada.
O empresário Ricardo Ortolan, de
43 anos, é um dos clientes que estava comprando carne no final da manhã deste
domingo, no Mania do Gaúcho.
Ele diz que já desconfiava da
qualidade da carne vendida no supermercado comum, porque chegou a comprar uma
peça que descobriu estar estragada - apesar de estar, segundo o rótulo, dentro
da validade.
A administradora Berenice
Ferreira, de 52 anos, acredita que "não adianta ter cuidado com a data de
validade" ao comprar no supermercado justamente porque ela pode ser
adulterada. Por isso, ela se sente mais segura comprando no açougue.
Mesmo com o escândalo, no entanto,
abdicar da carne está fora de cogitação: "Não dá para ficar sem o
churrasquinho".
O açougue Chef Carnes também
registrou mais movimento desde a notícia sobre a carne adulterada. De acordo
com o funcionário Hugo Eduardo, de 40 anos, a busca pelo churrasco
"pronto", um dos serviços do estabelecimento, também cresceu.
Tradição gaúcha
Os primeiros rebanhos de gado
chegaram ao Brasil trazidos pelos portugueses alguns anos depois da chegada de
Pedro Álvares Cabral, no século 16.
Mas o preparo típico do Rio Grande
do Sul surgiu mais tarde, com rebanhos trazidos pelos espanhóis ao Peru e depois
levados a Paraguai, Argentina, Uruguai e, finalmente, ao sul do Brasil.
É no século 17 que a forma de
assar carne no chão, popular entre os indígenas que viviam na costa gaúcha,
ganha o espaço do pampa com a expansão da atividade pecuária, segundo o livro Guia
de Sobrevivência do Gaúcho (2014, Editora Belas Letras).
"A lida com o gado obrigava
os homens a dormirem longe do rancho por longos períodos, geralmente em grupos.
Fazer comida para todo mundo, no meio do campo, muitas vezes ao léu, exigia
métodos compatíveis com a necessidade. Logo, pegava-se o que se tinha à mão:
uma faca bem afiada, um galho forte e reto (que dava um bom espeto de vara), a
carne de uma rês que morrera ou fora abatida no caminho, o sal grosso (usado
não só para conservar a carne, mas também como complemento da alimentação de
bovinos)", diz o livro.
Desde 2003, a maneira gaúcha de
assar churrasco é definida por lei: "carne temperada com sal grosso,
levada a assar ao calor produzido por brasas de madeira carbonizada ou in
natura, em espetos ou disposta em grelha e sob controle exclusivamente
manual".
E a prática tem até mesmo um dia
oficial no Estado, o dia 24 de abril.

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