As novas diretrizes para a
política imigratória norte-americana, adotadas desde ontem (21) pelo
Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (United States Department
of Homeland Security – DHS, na sigla em inglês) trouxeram mais rigor para o
setor. As medidas ampliaram o número de pessoas "deportáveis", deram
aos agentes imigratórios maior autonomia de decisão e ampliaram as
possibilidades para as deportações aceleradas (quando o imigrante não tem
direito a uma audiência judicial).
Para repercutir o alcance das
novas diretrizes, a Agência Brasil conversou com a advogada
especializada em imigração Fernanda Hottle e com alguns imigrantes brasileiros
que vivem nos Estados Unidos (EUA) em situação irregular. Confira abaixo os
principais pontos sobre as novas regras e o seu possível impacto para a
comunidade de imigrantes sem documentação, bem como para os brasileiros que
planejam viver no país.
Agentes com mais poder
Com as novas regras, os agentes do
Immigration and Customs Enforcement (ICE), órgão responsável pelo controle de
imigração e aduana nos EUA, passam a ter mais poder de ação e de decisão sobre
os “deportáveis”. Antes, a orientação era de que um agente podia não efetivar a
deportação, caso o imigrante não tivesse antecedentes criminais graves, como
tráfico de drogas e crimes de violência.
A advogada Fernanda Hottle, que
também é presidente do Conselho de Cidadãos em Atlanta, no estado da Geórgia,
disse que na gestão de Barack Obama a orientação era deportar de maneira
estrita apenas os imigrantes acusados de crimes graves. O restante dos
irregulares não estava “no radar” de deportáveis. “Embora não estivesse
escrito, os agentes podiam fazer vista grossa para quem não tinha cometido
crime grave e não abrir um processo para deportá-lo”, comentou.
O novo texto diz que o agente
poderá enviar o caso à Justiça, emitindo um documento de acusação para o
processo de deportação, caso não seja convencido pelo imigrante de delitos não
considerados graves, como dirigir sem carteira de motorista. “A deportação,
agora, passa a depender mais do julgamento do agente e há margem para fatores
mais subjetivos”, disse Fernanda Hottle.
Deportação Acelerada (Express)
Outra mudança importante é a
relacionada às deportações aceleradas (ou express). Antes, a regra previa que
somente pessoas detidas a pelo menos 100 milhas da fronteira dos EUA e nos 14
primeiros dias após sua chegada – podiam ser encaminhadas diretamente à
deportação, sem o direito de serem ouvidas por um juiz. Agora, a deportação
acelerada poderá ser executada para todos os imigrantes irregulares que estejam
no país há menos de dois anos.
A simples detenção de um imigrante
que esteja dirigindo sem carteira de motorista, por exemplo, poderá levá-lo a
uma deportação expressa, sem direito a uma audiência, se ele não conseguir
provar que está no país há mais de dois anos. Do mesmo modo, no caso de uma
pessoa que vive irregularmente nos EUA há menos de dois anos com um visto de
turista, por exemplo, os agentes precisam apenas checar a data do seu carimbo
de entrada no país para decidir pela deportação.
Vários imigrantes brasileiros que
vivem sem documentação nos EUA entraram legalmente no país, mas não mudaram o
status de seu visto de turismo para um que autorize a permanência por mais
tempo. Portanto, estão irregulares. O prazo para permanência com visto de
turismo nos EUA é de até seis meses. Para quem vive nos Estados Unidos sem
documentação, a advogada recomenda que sempre carreguem um documento qualquer
que comprove a sua estadia no país. “Pode ser imposto de renda, certidão de
nascimento de filho, etc”, explica.
Além disso, ela recomenda muito
cuidado para evitar descumprir as regras em situações cotidianas. “Se a pessoa
não tem carteira de motorista, ela não deve dirigir”, exemplifica.
Brasileiros devem planejar
Fernanda Hottle ponderou que o
momento deve ser de cautela para os brasileiros que tenham interesse de vir
morar nos Estados Unidos. “É preciso planejar bem a vinda, para evitar perder o
status legal”, diz. Ela comenta que muitos brasileiros chegam aos EUA sem
planejamento para tentar conseguir um visto que permita a estadia prolongada,
como estudante ou outra opção disponível, e sem levar em conta os custos
financeiros para se manter no país pelo tempo necessário para o processo.
“A ideia de vou lá ver no que dá e
tentar a sorte não é uma boa escolha agora. O clima está muito hostil para os
imigrantes”, disse. Ela informa que apenas este ano cerca de 170 imigrantes
irregulares foram deportados na Geórgia e nas Carolinas do Sul e do Norte.
Todos tinham tido deportações anteriores ou antecedentes criminais. Mas,
segundo o jornal USA Today, nos três estados também houve
deportações de 20 pessoas sem documentação que não tinham registros criminais.
Anistia e revisão da lei
migratória
De acordo com as autoridades
americanas, os EUA têm cerca de 11 milhões de imigrantes irregulares. O projeto
de Donald Trump é deportar cerca de 3 milhões de pessoas sem documentação.
Números do próprio governo revelam que, do total de irregulares, cerca de 8
milhões já foram absorvidos pelo mercado, especialmente nos setores agrícola,
de construção civil e serviços.
Fernanda Hottle acredita que,
embora Trump não tenha prometido anistiar parte das pessoas sem documentação,
isso pode ser feito no futuro. “Em sua plataforma, ele falou em consertar
a lei imigratória, que necessita de reforma. Isso incluiria uma revisão e,
possivelmente, uma anistia, como também ordenar o fluxo imigratório e
controlá-lo. Porque, de fato, perdeu-se o controle”, comentou.
Parte da população dos EUA é
favorável a um plano de imigração. Uma pesquisa da rede CBS News, divulgada
esta semana, diz que 60% dos norte-americanos acreditam que os imigrantes em
situação irregular poderiam, eventualmente, ter direito a solicitar cidadania. Somente
13% disseram não a essa opção.
Tempo e ansiedade
Outro ponto sobre as diretrizes de
deportação é que a aceleração de processos e o aumento da demanda por
deportações vai custar caro aos cofres públicos, pois terão de ser contratados
mais agentes de imigração e ampliada a estrutura judicial. Cerca de 10 mil
novos agentes precisarão ser contratados e centros de detenção deverão ser
construídos. Por isso, o processo não será realizado de maneira rápida.
Para os imigrantes irregulares que
vivem nos Estados Unidos, a indefinição gera ansiedade. A manicure brasileira
Karla Ribeiro, 25 anos, da cidade de Venda Nova do Imigrante, no Espírito
Santo, chegou ao país pouco depois do marido, em junho de 2015. Ambos viajaram
com vistos de turista. “Viemos como turistas e acredito que deveríamos ter sido
melhor orientados para alterar o visto para um de estudante. Mas, infelizmente,
não fizemos isso”, disse.
Karla disse à Agência
Brasil que não se sente apreensiva quando vê deportações, porque até
então são casos de pessoas que tinham alguma pendência judicial ou algum crime
cometido. “Mas não me sinto confortável para dirigir, porque sei que se eu for
pega, corro grande risco agora, não de ser presa, mas de ser deportada”,
afirmou.
Ela contou que já viveu algumas
situações de apreensão por causa de boatos que geram pânico e medo. “Semana
passada, um grupo de brasileiros no WhatsApp deu um alerta de que havia muitas
viaturas em uma avenida na cidade em que vivo. O comentário era de que seria
uma blitz da polícia e ficamos em alerta. Mas era somente
porque naquele local havia uma obra”.
Agência Brasil

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