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© Zeca
Ribeiro | Divulgação. Câmara dos Deputados
Presidente
da Câmara, Rodrigo Maia
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Em meio à grande polêmica sobre a
possibilidade de perdão a políticos e partidos que tenham praticado o caixa 2
(movimentação irregular de recursos de campanha), a Câmara dos Deputados adiou
para a próxima terça-feira a votação do pacote de medidas anticorrupção
proposto pelo Ministério Público Federal (MPF).
Um das propostas prevê a
tipificação do crime de caixa 2, e parlamentares de diversos partidos querem
aproveitar a oportunidade para aprovar uma anistia para todas as transações
desse tipo praticadas até a criação da nova lei.
A iniciativa é vista como uma
tentativa de livrar centenas de políticos de eventuais denúncias dentro da
Operação Lava Jato. Está em fase de conclusão a assinatura de um acordo de
delação com dezenas de executivos da Odebrecht, que deve apontar doações
irregulares para diversos candidatos e partidos.
Deputados do PSOL e da Rede dizem
que todos os demais partidos estão envolvidos na articulação para aprovar a
anistia, o que os principais líderes da Casa negam.
"Isso aí é vontade de vocês
de venderem notícia. Não existe essa discussão. Isso é uma confusão de palavras
para gerar uma polêmica e um enfraquecimento da Câmara", disse o
presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ).
Maia, no entanto, passou parte da
madrugada e da manhã desta quinta-feira reunido a portas fechadas com líderes
de PMDB, PSDB e PT, além de outros partido. Na noite de quarta-feira, a
comissão especial que debateu as propostas aprovou um relatório que não prevê a
anistia, mas o texto pode ainda ser alterado no plenário da Câmara.
"Se não houvesse outra
intenção do que modificar o texto que já foi aprovado (na comissão especial)
não haveria motivo para ficar reunido a noite inteira, a manhã inteira,
produzindo algo explícito sobre anistia ao caixa 2", acusou o deputado
Ivan Valente (PSOL-SP).
Quais podem ser as consequências
de uma anistia?
A criminalização do caixa 2 faz
parte de um pacote de medidas proposto pelo MPF que ficou conhecido como
"dez medidas contra a corrupção".
A instituição defende a criação de
legislação detalhada prevendo as práticas que seriam ilegais e estabelecendo
punições mais duras. Uma nova regra necessariamente só vale para crimes
futuros, a não ser que ela seja mais leve que regras anteriores.
Atualmente, a movimentação de
recursos de campanha sem a correta declaração já pode ser punida pelo artigo
350 do Código Eleitoral, que estabelece de um a cinco aos de prisão para quem
omitir documentos da prestação de contas.
Além disso, se a origem do
dinheiro movimentado no caixa 2 for ilícita, também há a possibilidade de
enquadrar a transação em outros crimes, como lavagem de dinheiro, peculato
(desvio de dinheiro público) e corrupção.
O que se discute nos bastidores é
aprovar um texto que preveja que a nova lei automaticamente perdoaria crimes
anteriores a ela, anulando a aplicação da legislação existente previamente.
A extensão dessa anistia, se ela
vai apenas impedir a aplicação do artigo 350 do código eleitoral, ou também
perdoar crimes correlatos, como corrupção e lavagem de dinheiro, dependerá do
texto final aprovado.
Um das versões que circulou e foi
postada no Facebook pelo deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), opositor da
proposta, estabelece que "não será punível nas esferas penal, civil e
eleitoral a doação contabilizada, não contabilizada, ou não declarada, omitida
ou ocultada de bens, valores ou serviços, para financiamento de atividade
político-partidária ou eleitoral realizada até a data da publicação dessa lei".
Investigações da Lava Jato apontam
que houve diferentes práticas irregulares de campanha em eleições passadas,
quando doações de empresas ainda eram permitidas (até 2014). Relatos de
delatores indicam que haveria repasses registrados oficialmente originados de
propina, repasses de dinheiro lícito não-registrados (caixa 2), e outros
recursos de caixa 2 que tinham origem ilícita.
"O que está sendo proposto é
uma anistia ampla, para infrações penais e eleitorais, relacionadas com doações
contabilizadas, não contabilizadas, ou não declaradas, omitidas ou ocultadas.
Isso é um retrocesso, pois alcança todas as condutas anteriores", disse à
BBC Brasil, por escrito, o subprocurador-geral da República Nicolao Dino, logo
após o adiamento da votação.
Dino é um dos integrantes do grupo
de 40 procuradores criado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot,
para pressionar os parlamentares sobre esse e outros pontos do pacote
anticorrupção.
Controvérsia jurídica
Quando falam abertamente sobre o
tema, parlamentares, inclusive Rodrigo Maia, têm argumentado que não há anistia
para um crime que não existe, no caso o caixa 2.
Segundo Marun, como "não há
esse esclarecimento, fica a vontade de muitos de deixar claro o que devia já
estar claro" - ou seja, explicitar no texto a anistia.
"Essa crise acaba fácil. O
Ministério Público sentar e dizer: 'esse crime, da forma que nós propusemos,
torna inimputável o caixa dois praticado antes da data proposta'",
defendeu.
Nicolau Dino discorda da
interpretação. Para ele, a mera criminalização do caixa dois não invalida a
aplicação do código eleitoral para crimes anteriores à nova lei.
O subprocurador-geral observa que
uma nova lei só retroage se for mais benéfica para o acusado do que a
legislação em vigor anteriormente. Dessa forma, a punição prevista no código
eleitoral só deixaria de ser aplicada se a criminalização do caixa 2 prever pena
mais leve. Do contrário, a legislação eleitoral segue valendo para crimes
passados e a tipificação penal será aplicada para punir os futuros.
A procuradora e professora de
Direito Eleitoral da FGV-Rio Silvana Batini tem a mesma opinião. Para ela, os
parlamentares parecem querer "apostar na controvérsia, na ambiguidade de
uma nova lei, para ganhar tempo" na Justiça.
A anistia poderia ser derrubada no
STF?
Caso a anistia seja aprovada, é
possível que a nova lei seja questionada no Supremo Tribunal Federal (STF),
observa a professora da FGV.
"Se o Congresso vota uma
anistia nessa situação, ele está legislando em causa própria. Então, você
poderia questionar a constitucionalidade de lei, se ela fere o princípio da
razoabilidade. Mas essa situação é inédita no Brasil, não dá nem para imaginar
o que viria disso", disse.
O próprio presidente da Câmara
indicou concordar com a possibilidade de questionamentos ao falar com a
imprensa após o adiamento da votação.
"Eu nunca ouvi ninguém
tratando comigo de nenhuma redação que não fosse objetivamente da tipificação
do caixa 2. Essa matéria, primeiro, não teria votos. Segundo, eu tenho dúvidas
de sua constitucionalidade".
Maia, porém, manteve sua
ambiguidade na sequência, ao frisar que caixa 2 não é crime.
"Então, eu não acho que a
Câmara deva, e não irá (aprovar anistia), porque não ouvi de líder nenhum
tratar de nenhum desses temas que não seja a tipificação do caixa 2, que não
pode ser criminalizado, porque se está se tipificando é porque o crime não
existe".
BBC Brasil

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