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Avião que
caiu com a Chapecoense em voo anterior, personalizado
para a
Federação Venezuelana de Futebol
|
Companhia proprietária da aeronave
foi constituída com dinheiro do governo venezuelano e de empresário chinês
preso por corrupção
A história da companhia LaMia,
a quem pertencia o avião que caiu na Colômbia enquanto transportava a equipe da Chapecoense na
madrugada de ontem, é marcada por negócios mal sucedidos que se originaram de
uma parceria entre um empresário espanhol radicado na Venezuela, um magnata
chinês que prospectava negócios na África e o governo venezuelano ainda na
época de Hugo Chávez.
A companhia LaMia (Línea
Aérea Mérida Internacional de Aviación) foi fundada em 2009 numa iniciativa do
então governador de Mérida, Marcos Díaz Orellana, para impulsionar o turismo
local. O principal aeroporto do Estado, Alberto Carnevalli, localizado em meio
aos andes venezuelanos, só recebia voos particulares desde fevereiro de 2008,
quando um avião da companhia Santa Bárbara se chocou contra uma montanha logo
após a decolagem, matando as 46 pessoas a bordo. A primeira aeronave comercial
que voltaria a pousar no aeroporto, em 16 de agosto de 2010, pertencia
justamente à frota da recém-inaugurada LaMia. A estreia
da companhia foi aclamada com pompa pelo Correo Del Orinoco,
jornal criado por Chávez e editado pelo governo venezuelano, como um “sonho
materializado para os habitantes de Mérida”. As expectativas que cercavam a
companhia de capital misto (estatal e da iniciativa privada) era grande. Os
planos é que ela iniciaria a operação com 12 aeronaves, cada uma ao
custo de 20 milhões de dólares, e se expandiria para rotas no
exterior, em Panamá, Aruba, Trinidad y Tobago, Manaus e Boa Vista.
“Sentimos-nos animados por este projeto e
contamos com o apoio total do presidente Hugo Chávez, a quem eu levei a questão
e que ordenou recursos via Banco do Tesouro”, disse o governador Orellana, que
é filiado ao mesmo partido de Chávez e Nicolás Maduro, o PSUV, em uma
declaração publicada na imprensa estatal venezuelana, em 13 de maio de 2010.
O empresário responsável por tocar
o negócio era o espanhol Ricardo Albacete, que tem
cidadania venezuelana e é atualmente o presidente da LaMia.
Em uma entrevista para um canal de TV venezuelana de junho de 2011 (confira o
vídeo abaixo), Albacete diz que recebeu ajuda financeira do empresário chinês
conhecido apenas pelas sílabas Sam Pa. “Há um chinês, amigo nosso, de boa
situação econômica – que conheço há anos porque eu tenho empresa na China
também -. O assunto é que ele está apoiando um pouco com esta operação. O nome
dele é Sam Pa. Tem negócios em Angola”, disse ao jornalista Luiz C. Benedetto
nos 3 minutos e 26 segundos.
Acontece que Sam Pan é bastante
conhecido na imprensa internacional. Numa extensa reportagem Financial
Times publicada em agosto de 2014, ele é apontado como o homem
que abriu as portas dos países africanos para as estatais chinesas explorarem
recursos naturais do continente. Uma das principais parcerias firmadas envolvia
a petrolífera angolana Sonangol. “Durante a última década, Pa ergueu-se da
obscuridade para conseguir negócios em cinco continentes no valor de dezenas de
milhares de milhões de dólares”, diz o artigo assinado pelo jornalista Tom
Burgis, autor do livro ‘A Pilhagem da África”. Em agosto do ano passado, Sam Pa
foi preso em Benjing por uma investigação movida pelo próprio partido comunista
chinês contra integrantes suspeitos de corrupção.
Se os negócios de Albacete
vingaram, conforme ele e o governo venezuelano esperavam, não é possível ter
certeza. Com exceção dos eventos citados acima, a imprensa venezuelana
pouco falou da empresa considerada orgulho nacional. O fato é que, a
partir de 2015, a LaMia venezuelana passou a alugar os seus aviões para uma
empresa boliviana criada com o mesmo nome, cujo principal negócio era fretar
viagens para times e seleções sul-americanas. Entre as aeronaves locadas,
estava o modelo Avro RJ85 (ver vídeo abaixo) que caiu numa região próxima a
Medellín, na Colômbia, vitimando 75 pessoas.
A LaMia boliviana
tem como sócios o piloto Miguel Quiroga, que conduzia a aeronave e morreu no
acidente, e o diretor-geral Gustavo Vargas. A VEJA, Vargas
confirmou que as aeronaves pertenciam a Albacete e que pagava por elas um valor
mensal. A reportagem não conseguiu contato com Albacete, que se encontra
atualmente na Espanha.
Em uma entrevista concedida ao
jornal espanhol El Confidencial nesta terça-feira, Albacete afirmou que a
responsabilidade das aeronaves era da companhia boliviana. “Não somos sócios ou
empregados de LaMia Bolívia, e sim de LaMia Venezuela. Deixamos o mesmo
nome por causa da pintura dos aviões. Nós somos os únicos que alugam aeronaves
para eles, mas o avião é operado pela empresa da Bolívia”, disse ao jornal.
Albacete também comentou sobre a sua relação com o ‘amigo’ chinês – “Ele iria
comprar a aeronave, mas no final não se concretizou nada” – e aventou a
possibilidade de que o avião de 17 anos teve uma pane elétrica após ser
atingido por um raio.
Especialistas ouvidos por VEJA dizem que um dos pontos chaves da investigação é descobrir qual era o plano de manutenção da companhia. “Não existe avião velho, mas avião sem manutenção”, disse George César de Araripe Sucupira, presidente da Associação de Pilotos e Proprietários de Aeronaves (APPA). Ele também frisou que qualquer hipótese que for levantada neste momento, antes da análise do conteúdo gravado pela caixa preta, é “mera especulação”.
Veja.com

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