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Venezuelanos
fogem para a Colômbia e para o Brasil
(Carlos Eduardo Ramirez/Reuters)
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Sob o calor impiedoso do meio-dia
ou no meio do caos do trânsito ao cair da tarde, pelo jovens venezuelanos se
lançam sobre os para-brisas dos automóveis
Seja para vender bugigangas,
limpar para-brisas dos automóveis ou mesmo pedir esmolas, venezuelanos tomaram
conta dos semáforos de Boa Vista, em Roraima, e fazem diversos trabalhos para
ganhar algum dinheiro. Curiosamente, um dos locais onde mais venezuelanos se
concentram é a esquina da rua Mario Homem de Melo com a avenida Venezuela,
ponto nevrálgico da capital estadual, que nos últimos meses recebeu cerca de
2.500 pessoas.
Nessa esquina, sob o calor
impiedoso do meio-dia ou no meio do caos do trânsito ao cair da tarde, pelo
menos dez jovens venezuelanos se lançam sobre os para-brisas dos automóveis e
dos enormes caminhões que param nos sinais, munidos de garrafas de água e
instrumentos de limpeza. São rapazes e moças de 18 a 28 anos, todos de uma
mesma família que chegou a Boa Vista vindos da cidade de Maturín e que, como a
maioria dos venezuelanos que imigrou para o norte do Brasil, o fizeram fugindo
da escassez e da fome.
“Lá não conseguíamos trabalho, nem comida, nem
nada. Aqui temos um pouco de tudo isso”, disse um dos mais velhos do grupo, que
pediu anonimato, mas explicou que os oito ou dez membros da família que
trabalham nesse semáforo conseguem por dia cerca de 30 reais. Essa soma é equivalente
hoje a cerca de 9 dólares, mas ele afirma que é mais do que ganhariam na
Venezuela e, sobretudo, explicou que com esse dinheiro podem comprar no Brasil
os alimentos necessários para sustentar toda a família.
Vida precária — No
total, são 18 adultos e seis crianças, alguns deles bebês, que vivem em uma
casa que estava abandonada. Por isso, não pagam aluguel e podem juntar algum
dinheiro, embora sua situação, segundo comprovou a reportagem em uma visita à
casa, é mais do que precária. Em seu trabalho diário no semáforo, a família
soma centavo a centavo a cada para-brisas que lava, e muitas vezes não recebe
nem uma moeda e até ouve insultos de teor xenofóbico.
“Isso é muito feio. Porque estamos
trabalhando, não roubando. Mas por sorte a maioria dos brasileiros nos entende
e ajuda”, declarou o mais velho do grupo. Assim como esta família de Maturín se
dedica a limpar vidros dos automóveis, nos semáforos de Boa Vista também há
muitos venezuelanos que oferecem todo tipo de bugigangas ou há quem, como o
malabarista José Antonio Garrido, consegue algumas moedas graças à habilidade
de suas mãos.
Índios venezuelanos —
Compartilhando ou muitas vezes disputando espaços nos semáforos é possível ver
em muitas esquinas de Boa Vista mulheres com vistosas saias floreadas, que
também chegaram da Venezuela, mas quase não falam espanhol e não pronunciam uma
palavra sequer em português. São índias da etnia warao, que têm sua própria
língua e vivem na região do rio Orinoco, no coração da Amazônia venezuelana,
mas que agora começaram a se deslocar para o Brasil.
São mulheres, muitas vezes
acompanhadas pelos filhos, que passam horas nos semáforos, e em suas mãos
carregam copos enfeitados com motivos indígenas que elas vão enchendo com
moedas durante o dia. Ao contrário do resto dos venezuelanos que emigraram para
o norte do Brasil, as warao não trabalham e se dedicam exclusivamente à
mendicância, disse a freira Telma Lage, coordenadora da Comissão de Migração e
Direitos Humanos do estado de Roraima. “Não trabalham porque é muito difícil a
comunicação, não falam português nem espanhol”, disse a freira, calculando que
as mulheres warao representam em torno de 25% da emigração venezuelana no norte
do Brasil.
(Com agência EFE)

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