Advogado de ex-executivo foi à
Câmara debater projeto contra corrupção. Projeto do Ministério Público Federal
é analisado por comissão da Câmara.
O advogado Augusto Botelho afirmou
nesta segunda-feira (22) à comissão especial da Câmara dos Deputados que
discorda da proposta de tornar a corrupção de altos valores um crime hediondo.
Botelho participou de sessão do colegiado que analisa as 10 medidas de combate
à corrupção propostas pelo Ministério Público Federal (MPF).
(Correção: ao ser publicada, esta
reportagem informou que Augusto Botelho é advogado da empresa Odebrecht. A
assessoria da empreiteira informou que ele não trabalha para a Odebrecht, mas
para um ex-executivo da empresa. A correção foi publicada às 23h32)
O advogado representa um
ex-executivo da Odebrecht, construtora investigada na Operação Lava Jato, que
apura desvios de recursos públicos da Petrobras com o objetivo de favorecer
políticos e empresas por meio de licitações e contratos.
O MPF apresentou relatório no
início do ano indicando um "sistema profissional" de recebimento de
propinas dentro da empresa. A Polícia Federal (PF) encontrou planilhas que
mostram doações feitas pela Odebrecht a mais de 200 políticos de 24 partidos.
Botelho foi convidado para
participar da comissão das 10 medidas de combate à corrupção como conselheiro
do Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), entidade que ajudou a
fundar.
De acordo com o advogado, o
projeto de lei está "suprimindo" direitos e "rasgando" a
Constituição em determinados artigos, como, por exemplo, o que pretende
transformar a corrupção de altos valores em crime hediondo.
"Tornar crime hediondo, isso
é um rótulo. As estatísticas de todos os crimes que se tornaram hediondos nos
últimos anos mostram que não houve redução na prática do crime, isso não
funciona. Mas é bonito, a opinião pública gosta", disse Botelho.
O pacote prevê que a corrupção
passiva, que consiste em solicitar, receber ou aceitar promessa de vantagem
indevida e a corrupção ativa (oferecer ou prometer vantagem indevida a
funcionário público) se transformem em crime hediondo, delito de alta
gravidade. A lei de crimes hediondos condena práticas como homicídio, estupro,
latrocínio, entre outros.
O projeto, entretanto, faz a
ressalva de que será considerado crime hediondo apenas a corrupção de altos
valores, aquela que gerar um prejuízo aos cofres públicos igual ou superior a
100 salários-mínimos, o equivalente a R$ 88 mil nos valores atuais.
"Assim como o aumento de
penas, a consequência prática de tornar hediondo é nula pela histórica análise.
[...] Há uma distorção da dosimetria da pena. Se uma pessoa é condenada por
corrupção e o prejuízo for de um salário a menos [99 salários mínimos], o crime
não será hediondo? Não consigo entender a lógica de monetarizar o crime
hediondo aliada a total ineficácia histórica de outros casos como esse",
criticou o advogado da construtora.
O projeto de lei que tramita na
comissão especial é derivado de iniciativa do MPF. As 10 medidas de combate à
corrupção receberam 2.188.404 de assinaturas de apoio dos cidadãos.
O pacote anticorrupção, adotado pelo
deputado Mendes Thame (PV-SP), foi convertido em proposta legislativa e está em
fase de audiência pública. Especialistas da área são ouvidos pelos
parlamentares, que tiram dúvidas com os convidados sobre a proposição.
Delação Premiada
Durante a audiência, Augusto
Botelho também se posicionou contra a delação premiada de presos. Segundo o
advogado, a prisão pode “forçar” o investigado a fechar um acordo.
“A delação à brasileira é ilegal,
defendo a premissa de que réus presos não podem delatar, assim como empresas
que tem seus diretores presos não podem fechar acordo de leniência. Há um
excesso de prisões preventivas que tem o intuito de firmar delações premiadas.
O caráter de voluntariedade na delação é essencial. Minha principal queixa é de
que a delação só se faz uma vez”, explicou o convidado da comissão.
Comissão
Botelho criticou ainda a proposta
que quer a utilização de prova ilícita em processos, desde que essa seja
coletada de “boa-fé”. Ele alegou que a medida precisa ser “rechaçada”, já que
nem regimes autoritários permitem o uso de provas ilícitas.
Apesar das críticas, o advogado
ressaltou pontos positivos das dez medidas. Botelho aprovou o item relativo à
prevenção da corrupção por meio de campanhas educativas, o fato de o MPF e o
Judiciário serem obrigados a prestar contas de seus atos e a implementação de
um tempo limite de vista dos julgamentos.
“A morosidade é o fator que gera
sensação de impunidade. Acho que a solução para morosidade, para uma Justiça
mais rápida é mais juízes, mais promotores, mais comarcas, mais varas
especializadas, mais ministros do Superior Tribunal de Justiça. Temos milhares
de projetos e não temos pessoas para julgar. Não precisamos suprimir direitos
para agilizar a Justiça”, concluiu.
O professor de Ética e Filosofia da
Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Roberto Romano, também convidado
pelos deputados para a audiência pública, afirmou que o debate é essencial na
avaliação da matéria. “Nós temos que discutir esse projeto e não aceitá-lo como
decreto”, disse o acadêmico.
Do G1, em Brasília

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