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O lobista
Fernando de Moura
(Foto: Rodrigo
Félix/Folhapress)
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Ao juiz Sergio Moro, o lobista
Fernando Moura disse que mentiu em depoimento do dia 22 de janeiro ao negar a
participação do ex-ministro no esquema; ele alegou que havia falado sob ameaça
O lobista Fernando Antônio Moura
reiterou ao juiz Sergio Moro que mentiu no depoimento que deu a ele no dia 22
de janeiro, voltando a implicar o ex-ministro José Dirceu, de quem diz ser
amigo, na indicação de Renato Duque à diretoria de Serviços da Petrobras. O
novo depoimento foi prestado nesta quarta-feira. No interrogatório, Moura deu
detalhes de como Dirceu indicou Duque. Segundo ele, o diretor era responsável
por recolher propina para o caixa dos diretórios nacional e paulista do PT - e
Dirceu sabia disso.
Diante das idas e vindas do
delator, o juiz Sergio Moro iniciou o interrogatório em tom duro. "Eu não
entendi porque o senhor falou uma coisa uma hora, depois falou outra coisa
outra hora, agora fala outra coisa. Me escapa a compreensão." Lembrado de
que não pode mentir na delação, sob o risco de responder criminalmente por isso
e perder os benefícios da colaboração, Moura explicou que mudou o depoimento na
última hora por ter sido ameaçado. Segundo ele, um desconhecido o abordou em
Vinhedo (SP), perguntando sobre os seus netos.
"Num dia anterior ao meu
depoimento, ao sair do despachante, eu estava indo para a farmácia, uma pessoa
com uma blusa clara e calça jeans me perguntou: 'Como é que estão os seus netos
no sul?'".
Aparentemente intrigado, Moro não
comprou de primeira a história da intimidação: "O senhor não parecia uma
pessoa ameaçada naquela ocasião". O delator, então, explicou que ele havia
se preparado para mentir e que o fez pensando em sua família. Depois, desfiou
pedidos de desculpas ao magistrado. "O senhor compreenda bem que a sua
credibilidade ficou bastante complicada em decorrência desses
acontecimentos", disse Moro, que ainda vai avaliar se mantém ou não a
validade da delação. O lobista é réu no processo junto com Dirceu por suspeitas
de lavagem e ocultação de bens e dinheiro oriundo de corrupção.
Feitas as considerações, o delator
confirmou o que relatou inicialmente à força-tarefa da Operação Lava Jato.
Segundo ele, Dirceu 1) indicou Renato Duque para a diretoria da Petrobras, 2)
recebia dinheiro de propina paga pelas empreiteiras para campanhas do seu
núcleo político, e 3) o havia aconselhado a sair do país quando estourou o
escândalo do mensalão. Moura disse que morou em Paris, Miami e Nova York, entre
2005 e 2013. Segundo ele, na época, tinha medo de ser envolvido no mensalão por
causa da sua participação efetiva no esquema de corrupção na Petrobras.
Moura descreveu a cena em que
Dirceu, então ministro da Casa Civil do governo Lula, informou-lhe sobre a
nomeação de Duque. Segundo ele, o episódio aconteceu em uma festa na casa da
ex-governadora do Maranhão, Roseana Sarney, no dia 1º de fevereiro de 2003,
para a qual havia sido convidado por Dirceu. Ele chegou atrasado e, quando se
aproximou do ex-ministro, para cumprimentá-lo, recebeu a notícia: "Quando
eu fui abraçá-lo, ele me disse: 'Nomeei hoje o Duque'. Eu aproveitei, abracei e
dei um beijo no rosto dele", contou. Foi Moura quem havia pedido a
indicação de Duque ao cargo - por isso, a euforia.
Ele continuou o depoimento,
dizendo que a indicação foi fechada em uma reunião numa sala próxima ao
gabinete de Dirceu na Casa Civil com nomes de peso do governo Lula - entre
eles, a então ministra de Minas e Energia Dilma Rousseff, o ex-presidente da
Petrobras José Eduardo Dutra, o ex-secretário de comunicação social Luiz
Gushiken, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares e o ex-secretário geral do PT
Silvio Pereira. O motivo do encontro: discutir nomes para a diretoria da
Petrobras. Segundo Moura, ele tomou conhecimento dessa reunião por Silvio
Pereira, de quem era próximo e que dividia com ele os ganhos do petrolão.
Em seguida, o delator explica como
se dava o repasse da propina. Segundo ele, eram negociadas comissões de 3% em
cima de contratos com as empreiteiras UTC, Engevix, GDK e Hope relativos a
obras da Petrobras, como plataformas e oleodutos. Ele relata que os 3% eram
divididos em: 1% para o núcleo nacional do PT, que ficaria sob responsabilidade
de Delúbio Soares e dos tesoureiros que o sucederiam; 1% para o núcleo do PT de
São Paulo, que seria o "grupo político de Dirceu"; e 1% para a
"companhia", ou seja, Renato Duque e seus gerentes. Moura também
ficava com um porcentual que variava dependendo do contrato. "O Silvio
(Pereira) mesmo falou: 'Olha esse dinheiro é do Zé Dirceu'". Moro, então,
o questiona: "O Silvio afirmou expressamente que o dinheiro era para o
Dirceu?", ao que ele responde: "Sim".
Em seus depoimentos à Justiça, o
ex-ministro, que foi condenado no mensalão, negou ter indicado Duque ao cargo e
ter recebido propina de contratos da estatal.

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