Sozinha, a Petrobras não tem como
investir para explorar a riqueza do pré-sal - e petróleo no fundo do mar não
gera empregos nem arrecadação
O Senado aprovou na última
quarta-feira o projeto de lei que acaba com a obrigatoriedade da Petrobras de
ter participação mínima de 30% nos consórcios do pré-sal e de ser a operadora
única nos campos de exploração. Trata-se de uma evolução. A chamada Lei da Partilha,
promulgada no governo Lula, em 2010, foi criada pretensamente para
"proteger o patrimônio nacional do interesse privado", mas só serviu
para desacelerar o segmento de óleo e gás e sobrecarregar a Petrobras de uma
tarefa que nenhuma petroleira no mundo conseguiria realizar sozinha, conforme
pontuaram especialistas ouvidos pelo site de VEJA: explorar a ainda inestimável
camada do pré-sal.
Para os defensores do projeto, de
autoria do senador José Serra (PSDB-SP), não faltam argumentos a favor.
"Quem se beneficia é o Brasil, as pessoas e a própria Petrobras, que vai
poder escolher onde quer entrar, sem prejudicar a sua saúde financeira",
diz o presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires. "A
obrigatoriedade não é boa para ninguém. (A liberação) traz investidores, que
geram emprego e receita fiscal."
Desde a implementação do regime de
partilha, apenas um leilão foi realizado, no Campo de Libra, em outubro de
2013. E apenas onze das 40 maiores empresas do mercado se inscreveram para participar
dele. Segundo estimativas do setor, a Petrobras dispõe de reservas capazes de
extrair mais de 46 bilhões de barris de petróleo.
"Isso representa 40 vezes
aquilo que a Petrobras produz anualmente", disse o senador Ricardo Ferraço
(sem partido-ES), relator do projeto. "Para explorar tudo isso, a
Petrobras precisaria investir 400 bilhões de dólares. Agora, como é que a
Petrobras, que tem uma dívida de 400 bilhões de dólares, vai investir outros
400 bilhões? Numa conjuntura como essa o Brasil só está perdendo
oportunidades."
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O diretor-executivo da Associação
Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Alberto Machado,
faz coro. "Na medida em que você não tem como a Petrobras participar dos
leilões, e, por conta disso, os leilões ficarem bloqueados, então, obviamente o
mercado será perdido", afirma. Segundo ele, muitas empresas que investiram
em instalações estão ociosas. ""Se não tiver novas licitações e
blocos, elas postergam investimentos."
Saudável e competitivo - A
consequência imediata da mudança nas regras seria a abertura do segmento para o
investimento estrangeiro, tornando-o mais competitivo e saudável. Ao analisar
esse aspecto, os analistas fazem uma conta rápida: ao ampliar o leque de
fornecedores, intensifica-se a exploração de petróleo no país, resultando em
mais e renda para a União.
Ferraço ainda lembra que o regime
de partilha tem levado o Brasil a perder relevância no segmento de exploração
em relação ao resto do mundo. Em 2014, afirma, os investimentos no setor
totalizaram 700 bilhões de dólares no planeta. No Brasil, ele foi de 40 bilhões
de dólares - ou 6% do total.
"Não existe uma única empresa
no globo que é capaz de ser operadora única do pré-sal. Ao ter múltiplos
operadores, o país ganha porque cria oportunidade de ter várias empresas
investindo nele". diz o secretário-executivo de exploração e produção do
Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), Antônio
Guimarães. "Quando acontece um leilão, vencem as empresas que oferecerem
mais para o país."
Os especialistas ainda apontam que
o momento de crise financeira é propício para mudanças. Na justificativa do
projeto, o senador José Serra destaca as dificuldades financeiras que a estatal
tem enfrentado nos últimos tempos, sobretudo por causa dos desdobramentos da
Operação Lava Jato. A própria diretoria da Petrobras vê com simpatia a
proposta, uma vez que não tem caixa suficiente para bancar investimentos e
disputar futuros leilões que venham a ser realizados pelo governo.
O plano de negócios da empresa
para os próximos quatro anos prevê menos investimentos que nos quatro anos anteriores
e a venda de pelo menos 15 bilhões de dólares em ativos até 2017. "Em um
momento de grandes cortes nos investimentos e questionamentos sobre a ética na
gestão da empresa, é muito importante que ela assuma a responsabilidade apenas
pelas operações que realmente tenha condições técnicas e financeiras para
sustentar", diz Gerardo Portela, especialista em gerenciamento de riscos
na indústria de petróleo e gás e autor de dois livros sobre o tema.
O Projeto de Lei do Senado
131/2015 ainda segue para apreciação na Câmara e, depois, à sanção
presidencial.
(Com reportagem de Teo Cury)
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