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Deltan Dallagnol, procurador da República, em março
de 2015 (Foto: André Dusek/Estadão Conteúdo/Arquivo) |
Deltan Dallagnol defende mudanças
na lei para aumentar punições. Ele falou ao G1 sobre o Dia Internacional de
Combate à Corrupção.
Para o procurador da República e
coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato no Paraná, Deltan
Dallagnol, a maior efetividade no combate à corrupção no Brasil passa
pela aprovação de medidas mais duras de punição aos envolvidos nestes crimes. Em
entrevista ao G1, o procurador afirmou que “o Brasil não é
propriedade privada dos corruptos”.
Nesta quarta-feira (9) é celebrado
o Dia Internacional de Combate à Corrupção. A data será lembrada pelo
Ministério Público Federal (MPF) em Brasília com um balanço dos resultados
alcançados em 2015 no enfretamento à corrupção, além da divulgação do “Ranking
Nacional dos Portais da Transparência”.
O MPF elaborou uma campanha
nacional contra a corrupção no país. O órgão quer recolher 1,5 milhão de
assinaturas para o projeto que cria medidas mais duras para combater a prática.
Uma das medidas quer transformar corrupção em crime hediondo além de aumentar a
pena prevista em lei. Só após a coleta de assinaturas, o MPF vai encaminhar o
projeto para o Congresso Nacional. Até as 8h desta quarta-feira (9), tinham
sido colhidas 842. 614 assinaturas.
Na entrevista, Deltan Dallagnol
falou que a impunidade é dos principais propulsores da corrupção, defendeu a
delação premiada como recurso de investigação e fez uma avaliação dos trabalhos
da Operação Lava Jato, dentre outros temas. Leia a íntegra:
G1 - Recente pesquisa do
instituto Datafolha mostrou que, pela primeira vez desde 1996, a corrupção foi
apontada como a maior preocupação dos brasileiros. Ao que o senhor atribui esse
resultado? Há mais corrupção hoje do que em outros tempos, ou há um combate
mais efetivo?
A corrupção não é um problema
próprio de um partido ou de um governo; é pluripartidária e ocorre nos níveis
municipal, estadual e federal"
Deltan Dallagnol
Deltan Dallagnol -
Estudos nacionais e internacionais sobre a corrupção no Brasil apontam que ela
é endêmica, sistemática e vem de longa data. A corrupção não é um problema
próprio de um partido ou de um governo; é pluripartidária e ocorre nos níveis
municipal, estadual e federal. Infelizmente, é muito difícil descobrir e
comprovar a corrupção no Brasil – daí a importância da delação premiada como
pontapé inicial de uma investigação.
A percepção da corrupção como o
principal problema brasileiro é fruto, provavelmente, de uma conjunção de
fatores, como polarização política, crise econômica e as sucessivas revelações
do caso Lava Jato, que tem mantido o assunto na pauta da imprensa. A
conscientização acerca dos males que a corrupção causa, afetando diversos serviços
essenciais, como educação, saúde e segurança, que também estão dentre as
principais preocupações do brasileiro, abre uma janela de oportunidade para
promovermos mudanças a fim de que nós e as futuras gerações tenhamos um país
mais justo, com menos corrupção e menos impunidade.
G1 - Neste contexto, é possível
falar em um fortalecimento e independência das instituições?
As leis melhoraram apenas na
primeira das duas etapas do combate judicial à corrupção, que é a da
investigação. A segunda etapa, em que a pessoa responde à acusação criminal
perante um juiz e tribunais, é uma verdadeira máquina de impunidade"
Deltan Dallagnol
Deltan Dallagnol - Com
certeza. O combate mais intenso à corrupção decorre de um amadurecimento das
nossas Instituições e de nossa democracia desde a Constituição de 1988, bem
como da evolução das leis. Contudo, as leis melhoraram apenas na primeira das
duas etapas do combate judicial à corrupção, que é a da investigação. A segunda
etapa, em que a pessoa responde à acusação criminal perante um juiz e
tribunais, é uma verdadeira máquina de impunidade.
Segundo um estudo acadêmico sobre
a corrupção publicado pela Fundação Getúlio Vargas, o fator mais importante
para inibir a corrupção é uma alta probabilidade de punição; o segundo fator
mais relevante é uma pena adequada. Não temos nenhuma das duas coisas e os
autores concluem que a corrupção compensa no Brasil. E é verdade. A ação penal
461 contra Paulo Maluf acaba de prescrever no Supremo Tribunal Federal. No
Propinoduto, a corrupção já prescreveu também. Poderíamos citar inúmeros casos
“derrubados” pela prescrição, que é uma espécie de cancelamento do caso
criminal e do crime pelo decurso do tempo.
Dentro desse contexto, o
Ministério Público ofereceu à sociedade dez medidas contra a
corrupção, que têm três objetivos centrais: prevenção (evitar que a
corrupção aconteça), uma punição adequada e que saia do papel, e a criação de
instrumentos para recuperar o dinheiro desviado de modo satisfatório.
G1 - As dez medidas de combate
à corrupção propostas pelo MPF recentemente passaram da metade das assinaturas
que precisam para virar projeto de iniciativa popular. Nas redes, há alguma
mobilização em torno da hashtag #corrupção. O resultado da coleta de
assinaturas está dentro da expectativa? Para quando o órgão projeta atingir o
número necessário e encaminhar os projetos ao Congresso?
Deltan Dallagnol - A coleta
de assinaturas supera nossa expectativa. O ritmo de assinaturas colhidas está
três vezes superior ao da Ficha Limpa e continua acelerando. Dentro de uma
projeção conservadora, o número poderá ser alcançado em meados de 2016. Algumas
pessoas surpreendem-se com a relativa demora, em razão de ser um tema tão
importante para o país.
O fato é que existe certa
distância entre boas intenções e ações, não só porque é difícil sair da
inércia, mas também em razão de um certo cinismo, que é um dos efeito da
corrupção e significa a descrença no funcionamento de nossas instituições.
Cinismo é a crença de que o Brasil não tem jeito.
O Brasil não é propriedade privada
dos corruptos, essa terra é nossa"
Deltan Dallagnol
Precisamos entender que temos em
nossas mãos o poder de, juntos, como sociedade, mudar nosso país. O Brasil não
é propriedade privada dos corruptos, essa terra é nossa. Vale a pena lutar pelo
país independentemente do resultado, como lutamos pelo bem-estar de quem
amamos. Nossa fé e determinação nos trarão um país melhor. A janela de
oportunidade está aberta e é hoje que decidimos o país que teremos amanhã.
G1 - Há diversos parlamentares
investigados no esquema de corrupção apurado pela força-tarefa da Lava Jato,
alguns deles já denunciados. Há a preocupação de que isso atrapalhe a
tramitação das medidas de combate à corrupção na forma de projetos de lei?
Deltan Dallagnol - Há,
sim. Se você é um corrupto, você não vai querer que as dez medidas virem lei, não
é? Entretanto, como eu disse, o Brasil não é terra de ninguém. Os
políticos são representantes do povo e, se o povo mostrar, por meio de
assinaturas e cartas, apoio maciço às dez medidas, eu creio que elas passarão.
A corrupção afeta negativamente a
democracia, porque os governantes passam a agir para atender interesses
próprios, deixando de lado o governo para o povo. Nossa intenção é que esse
problema seja curado com mais democracia, do tipo participativo, com projetos
de lei de iniciativa popular. A Ficha Limpa foi aprovada porque vivemos numa
democracia. Muitas pessoas duvidavam que passasse porque ela prejudicaria
vários parlamentares, mas a pressão popular promoveu sua aprovação.
Neste momento, temos de confiar em
nossas instituições e nos preocupar em difundir as propostas na sociedade para
que esta, encampando-as, mostre aos parlamentares ampla adesão, por meio da
coleta de assinaturas de cidadãos e cartas de apoio de entidades da sociedade
civil organizada.
G1 - Caso as medidas já
estivessem em vigor desde o início da Operação Lava Jato, os resultados
colhidos até o momento poderiam ter sido maiores?
Deltan Dallagnol -
Caso as medidas estivessem em vigor, teríamos, provavelmente, Lava Jatos por
todo o país. O motor da Lava Jato são as colaborações premiadas, que só são
feitas pelo réu quando ele acredita que será punido. De fato, a colaboração
implica a assunção de culpa, uma pena – ainda que reduzida – e a devolução do
dinheiro desviado. Porque a regra no país é a impunidade absoluta do corrupto,
ele dificilmente aceita colaborar.
Se tivéssemos várias Lava Jatos,
muito mais corrupção seria revelada e haveria uma reação mais intensa ainda
contra esse problema. Além disso, no caso Lava Jato os resultados seriam também
melhores, não só pelo incentivo maior à colaboração, mas porque os processos
seriam mais ágeis, partidos políticos seriam responsabilizados pela corrupção,
a recuperação do dinheiro seria mais eficiente e conseguiríamos acusar
políticos que enriqueceram ilicitamente mesmo sem ter de enfrentar a
dificuldade de descobrir qual foi o ato corrupto específico que ele praticou.
G1 - As dez medidas de combate
à corrupção colocam como prioridade o aumento da punição para desestimular os
crimes. Por outro lado, há um número grande de delatores na Operação Lava Jato
que gozam de benefícios como, por exemplo, prisão domiciliar e penas reduzidas.
O senhor acha que um número grande de acordos pode contribuir para a visão
geral de punições brandas?
Deltan Dallagnol - As
colaborações são o motor da Lava Jato. Sem elas, no tocante à corrupção, ainda
estaríamos processando apenas Paulo Roberto Costa e Alberto Youssef pelo desvio
de aproximadamente R$ 26 milhões. As colaborações permitiram oferecer acusações
contra mais de uma centena de outros réus por propinas que envolvem mais de R$
6 bilhões.
É claro que, quando se faz um
acordo [de delação premiada], abre-se mão de algo, de uma parte da punição.
Contudo, abre-se mão de algo por muito mais"
Deltan Dallagnol
É claro que, quando se faz um
acordo, abre-se mão de algo, de uma parte da punição. Contudo, abre-se mão de
algo por muito mais. Além disso, tal é a impunidade nos processos judiciais no
nosso país que, no Caso Banestado, os únicos punidos dentre centenas de réus foram,
justamente, os colaboradores. O resto dos réus está cavando sua impunidade nos
labirintos dos tribunais.
G1 - As prisões preventivas são
criticadas por parte das defesas de investigados da Lava Jato. Há quem diga que
o objetivo é “forçar” acordos de colaboração. As medidas do MPF buscam, no
entanto, criar uma nova hipótese de prisão preventiva. Qual tem sido
importância desse recurso para a investigação?
Deltan Dallagnol - As
prisões preventivas não são feitas para investigar, mas para proteger a sociedade
quando a liberdade do réu, ao longo do processo, representa um risco. É isso
que aconteceu na Lava Jato. A alegação de que prisões foram feitas para obter
colaborações é insustentável por três razões. Primeiro, mais de 70% dos acordos
foram feitos com réus soltos. Segundo, há vários casos de réus presos há meses
por todo o país, sem que tenham decidido colaborar. Por fim, o Ministério
Público jamais procurou um réu para obter a colaboração, é sempre o contrário.
Colaborações foram buscadas pelos
réus como estratégia de defesa em razão do medo de punição efetiva, porque a
Lava Jato é um ponto fora da curva e a perspectiva de prisão ao fim do processo
decorre da pressão da opinião pública, da consistência das provas, da
regularidade dos procedimentos adotados e da sombra do mensalão, em que Marcos
Valério foi recolhido à prisão após ser condenado a cumprir cerca de 40 anos.
Assim, prisões não são instrumento de investigação.
Agora, as colaborações são
instrumentos essenciais como pontos de partida da investigação, capazes de
quebrar o acordo de silêncio e trazer à tona situações de corrupção. A partir
delas, são colhidas outras provas que, se forem suficientemente boas,
permitirão uma acusação criminal.
G1 - Os trabalhos de
investigação da Lava Jato estão próximos de completar dois anos. Com o que já
se tem em mãos, é possível prever quanto tempo mais deve durar essa
investigação?
Deltan Dallagnol - Se
fossemos trabalhar apenas o material que temos em mãos, as investigações ainda
durariam anos. Algumas pessoas apresentam expectativas em relação ao que será
revelado ou quais são os próximos passos, mas a questão que coloco é: já não
sabemos o suficiente? Uma doença é primeiro diagnosticada para, em seguida, ser
tratada. Já não temos um diagnóstico? Nosso principal foco, agora, deve estar
no tratamento, contudo, pouco ou nada foi feito para mudar as condições
sistêmicas que hoje favorecem a corrupção no Brasil desde que a Lava Jato veio
à tona.
Precisamos agir para promover
mudanças. Em minha perspectiva, esse deve ser nosso objetivo central agora,
como sociedade.
G1 - A Lava Jato apurou que
parte do esquema de corrupção ocorria através das chamadas “doações oficiais”
aos partidos. Para as eleições de 2016, há a perspectiva de que as empresas não
poderão fazer doações às campanhas. Há visões otimistas, que acreditam que isso
resultará em menor risco de corrupção, porém, há também a preocupação com o
incentivo à formação de caixa 2. Qual a percepção do senhor sobre essa mudança
no processo eleitoral?
Deltan Dallagnol - A
mudança vem para o bem. Os maiores doadores de campanhas eram, usualmente,
pessoas jurídicas. A partir do momento em que o candidato se elege, se ele
quiser se eleger novamente e quiser contar com as mesmas doações, seu papel
passa a ser fazer seu financiador feliz. Isso distorce a representatividade.
Congressistas passam a representar primordialmente os poucos e maiores
doadores, em detrimento da sociedade.
Além disso, as doações não seguiam
uma preferência partidária, eram feitas a todos os candidatos com potencial
para serem eleitos. Isso indica que não se tratavam de doações guiadas por
programas de governo, mas sim de uma política de reciprocidade, esperando-se
que benefícios pudessem advir dos pagamentos.
Agora, essa mudança não é a única
de que precisamos. Necessitamos também de mudanças no sistema eleitoral e
político para baratear as campanhas, como aquelas propostas pelo Movimento de
Combate à Corrupção Eleitoral.
G1 - De maneira geral, o senhor
acredita que os resultados da Operação Lava Jato podem ter influência já nas
eleições municipais de 2016?
Deltan Dallagnol -
Tenho ouvido que muitas pessoas estão mais receosas de pagar propina e cometer
crimes empresariais depois da Lava Jato. A demanda por programas de
conformidade ou compliance também aumentou no mercado, o que é um bom sinal,
porque indica que as empresas querem ficar longe de práticas corruptas.
Contudo, a Lava Jato, por
enquanto, é um ponto fora da curva. Para consolidarmos os avanços, precisamos
de alterações no sistema, como aquelas propostas pelo Ministério Público.
Recentemente, num vídeo que se tornou viral, disse que muitas pessoas na
sociedade depositam suas esperanças em nós. Nós, da Lava Jato, depositamos
agora nossas esperanças na sociedade, para mudanças sejam feitas e a justiça
possa prevalecer neste e em outros casos criminais.

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