Expectativa é a de que, com mais
carne saindo do País, o mercado interno sinta os efeitos
O principal parceiro comercial do
Brasil, a China, vai voltar a comprar carne bovina brasileira, após
um embargo que durou três anos. Segundo o Ministério da Agricultura, nove
frigoríficos já estão autorizados a exportar e outros 17 deverão receber o aval
até o mês que vem. Você sabe o que isso muda na sua vida?
Essa liberação do governo chinês
deve afetar o bolso do consumidor e pode custar para o brasileiro.
A regra é simples: a velha lei da
oferta e da procura. O dólar alto — hoje acima da casa dos R$ 3 — vai estimular
os produtores a mandar a carne para fora, já que o retorno será maior.
Com isso, a oferta para o mercado
interno pode cair. Aí, o que chegar à prateleira do supermercado estará com um
preço acima do que se encontra hoje.
Segundo o economista André Braz,
do Ibre/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), pelo
perfil do mercado externo, a alta de preços pode atingir a carne de segunda.
— Em geral, a gente exporta mais
carnes ricas em gordura, de segunda. Então, essas carnes podem subir de preço e
encostar um pouco na carne de primeira. A carne de segunda também tem seu
papel. Ela não é só direcionada para o público de baixa renda, como se imagina.
É usada para o preparo de diferentes pratos e tem espaço em qualquer orçamento.
Se esse tipo de corte subir de preço, causa o mesmo impacto que a carne de
primeira.
Carne cara
O outono e o inverno brasileiros
são uma época em que os rebanhos começam a ter menos pasto, por causa do
período seco em boa parte do País. Assim, os pecuaristas gastam mais com ração
para engordar o gado, fatores que também influenciam no preço final da carne —
que já está mais cara para o brasileiro.
A carne terminou 2014 custando
22,21% a mais do que em 2013, segundo o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor
Amplo), que mede a inflação oficial no Brasil. Alguns economistas atribuem
parte dessa alta a um fato que aconteceu no meio do ano: a Rússia deixou de
comprar carne dos Estados Unidos e de países europeus, o que abriu uma grande
possibilidade de exportação para os pecuaristas brasileiros.
Para Braz, o cenário atual não é
favorável para imaginar que as carnes vão ficar mais baratas.
— A carne bovina é um dos itens do
grupo alimentação que mais subiram nos últimos 12 meses [encerrados em abril].
Ainda que o preço esteja estável, ela já acumula alta superior a 10%. Essa
maior demanda não deve favorecer uma desaceleração no preço da carne ou um
recuo dessa taxa acumulada.
Tem saída?
Na contramão da opinião do
economista da FGV, o conselheiro e economista do Cofecon (Conselho Federal de
Economia) Róridan Duarte não aposta que as vendas de carne para a China causem
algum impacto no mercado brasileiro.
— A concorrência é muito grande.
Há hoje grandes e médios frigoríficos que disputam esse mercado interno. Até
pode ter um ou outro que migre para o mercado externo, mas outro vai suprir
essa demanda. Tem grandes frigoríficos que o objeto de negócio é a exportação.
Tem um tipo de corte específico, que é diferente de vender para um supermercado
aqui. Então, mudar de estratégia não é assim simples.
Duarte acrescenta que, com o
pagamento da carne feito em dólar, o setor terá mais condições de investir,
garantindo uma produção interna e externa no futuro.
— O objetivo é exportar. Isso
estimula o aumento da produção e da produtividade.
A China proibiu a carne bovina
brasileira em 2012, após uma suspeita de vaca louca que não foi confirmada. A
liberação das exportações já havia sido anunciada no ano passado durante visita
do presidente Xi Jinping.
O documento que faltava para
retomar o comércio foi assinado nesta terça-feira (19), pelo primeiro-ministro
chinês, Li Keqiang, em Brasília. A ministra da Agricultura, Kátia Abreu, já
marcou viagem oficial à China para o mês que vem. Na pauta, estará a retomada da
fatia do mercado de carne brasileira.
Hong Kong, um território
administrativo da China, foi responsável por quase 21% da carne brasileira
vendida in naturapara o exterior em 2014. Esse fato contribuiu para
decisão do governo chinês.
O R7 procurou a
Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) para
comentar o fim do embargo chinês. Até o fechamento desta reportagem, porém, a
entidade não havia emitido posicionamento.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigado pelo seu comentario.
Fique sempre ligado do que acontece em nossa cidade!