Em meio a crise política inédita, presidente do Chile troca gabinete | Rio das Ostras Jornal

Em meio a crise política inédita, presidente do Chile troca gabinete

A presidente do Chile, Michelle Bachelet.
(Foto: Carlos Pazos / Reuters)
Escândalos de corrupção afetam políticos de diferentes partidos e o filho de Michelle Bachelet; popularidade do governo chega ao patamar mais baixo desde seu início.
Na tentativa de contornar uma crise sem precedentes, a presidente do ChileMichelle Bachelet, surpreendeu os chilenos na noite da quarta-feira (6) ao anunciar a renúncia de todos os seus 23 secretários de Estado e ministros.
A crise foi gerada a partir de denúncias de corrupção que envolvem políticos de diferentes partidos, incluindo integrantes da base governista, a Nueva Mayoría - de centro-esquerda -, e o filho da presidente, Sebastián Dávalos.
Dávalos, que trabalhava na Presidência e era homem de confiança no governo da mãe, renunciou em fevereiro após ter sido acusado de suposto tráfico de influência para conseguir um empréstimo de US$ 10 milhões para a compra de terras.
O caso, conhecido como "Noragate", afetou diretamente a popularidade da presidente, segundo institutos de pesquisa.
A Justiça investiga também o chamado "caso Penta", que consistiria na emissão de notas fiscais falsas por parte de poderosos grupos empresariais do país para desvio de dinheiro para campanhas políticas e outros setores.
Confiança
Analistas ouvidos pela BBC Brasil concordam que as denúncias de corrupção forçaram a presidente a anunciar a inesperada reforma ministerial.
"Os escândalos afetaram seu bem mais precioso, a confiança dos chilenos nela (Bachelet)", disse o cientista político Ricardo Israel, professor da Universidade Autônoma do Chile e ex-candidato presidencial.
Os escândalos desencadearam outros fatos inéditos no país, como a transmissão ao vivo dos processos dos envolvidos, entre eles políticos e empresários de sobrenomes tradicionais.
O professor de Ciências Política da Universidade de Valparaíso, Guillermo Holzmann, lembra que a presidente chegou a formar uma comissão especial de notáveis para que apresentassem propostas por maior transparência e contra corrupção.
O trabalho, disse, foi apresentado por Bachelet no fim do mês passado e ela parecia ter "recuperado espaço político". Mas, segundo Holzmann, a iniciativa pode ter sido insuficiente diante da onda de denúncias.
"A presidente recuperou espaço e condução política, mas não o suficiente para superar o ambiente de governabilidade complexa, vazios institucionais e liderança política", afirmou.
E sem "um plano claro" - na opinião de Holzmann e Israel -, a reforma ministerial também pode ser insuficiente para reverter o mal-estar político e a brusca queda no apoio popular ao governo e à presidente.
Mas Holzmann ressalta que, apesar das denúncias, não têm sido observados protestos massivos no país.
Surpresa e reformas
A onda de problemas tem surpreendido políticos e chilenos em geral.
"Os casos de corrupção são fatos aos quais não estávamos acostumados no Chile e que viraram os principais assuntos no país", disse à imprensa o ex-candidato a presidente e ex-aliado de Bachelet Marco Enríquez-Ominami, durante visita recente a Buenos Aires.
"Por mais que eu queira abordar temas que fazem parte das reformas históricas implementadas no primeiro ano de governo de Bachelet, não consigo. Todos querem falar sobre os escândalos."
Segundo ele, a presidente conseguiu, no ano passado, aprovar reformas que representaram "avanços esperados há mais de 25 anos". "Mas agora o país está paralisado. A classe política está preocupada com a Justiça e não com o futuro. A cada hora surgem mais e mais denúncias", disse.
Entre as reformas realizadas pela presidente estão mudanças no sistema educativo, a reforma tributária e a que permite a união civil entre pessoas do mesmo sexo. Debates sobre novas reformas estavam previstos para este ano, mas as denúncias de irregularidades, disse Ominami, dominam a agenda política do país.
Ele afirmou ainda que acredita "na honestidade" da presidente, mas a critica por ter "demorado a reagir" quando o nome de seu filho apareceu nas denúncias.
Na quarta-feira, Bachelet informou que decidiria em 72 horas quais autoridades continuarão ou deixarão seu governo, o qual completou um ano em março passado.
Nesta quinta, o Palácio presidencial de La Moneda informou, de acordo com a imprensa local, que o ministro das Relações Exteriores, Heraldo Muñoz, seguirá no cargo.
Ele está participando das disputas com a Bolívia no Tribunal Internacional de Haia após o governo do presidente Evo Morales ter apelado contra o Chile por uma saída "soberana" ao mar.

Nesta quinta-feira, uma nova pesquisa de opinião, do instituto CEP, apontou que a imagem positiva do governo caiu para o patamar de 29% - o mais baixo da sua gestão. Outro levantamento recente, do Adimark, indicou que a popularidade da presidente registra "seu patamar mais baixo", com 35%.
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