Ministério
da Justiça suspendeu viagens para São Paulo.
Dois ônibus
com imigrantes haitianos e senegaleses saíram do abrigo mantido pelo governo do
Acre, em Rio Branco, com destino à região Sul do Brasil, nesta quinta-feira
(21). Os veículos, com 45 pessoas cada,
devem deixar imigrantes em Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Curitiba (PR)
e Florianópolis (SC), uma viagem com previsão para durar até cinco dias. Os
ônibus saem dois dias após a suspensão do apoio federal para viagens de
imigrantes do Acre para São Paulo (SP), anunciada na terça-feira (19).
Ao todo, 168
imigrantes deixaram o Acre, nesta quinta-feira (21). Segundo o porta-voz do
governo do Acre, Leonildo Rosas, 78 deles por conta própria. Porém, o abrigo ainda possui 519 pessoas,
mais que o dobro da capacidade, que é de 240.
Estratégia
De acordo com
o coordenador do abrigo em Rio Branco, Antônio Crispim, com a suspensão das
viagens para a região Sudeste, alguns imigrantes estariam pensando em
alternativas para conseguir chegar até São Paulo.
"Recebemos
a informação que alguns imigrantes estariam traçando uma estratégia de descer
em Curitiba para de lá ir até São Paulo, porque é mais perto. Mas não é algo
que orientamos", enfatiza.
'Quero
trabalhar para poder criar meus filhos'
A maioria
são haitianos, mas entre os imigrantes existem ainda dominicanos e senegaleses
com histórias de vida diferentes, mas uma coisa em comum: são pessoas que
enxergam no Brasil algo que não conseguem encontrar mais em seus países de
origem, oportunidades de emprego.
Esse é o
caso do imigrante senegalês, Bada Fam, de 40 anos, que segue para Cuiabá (MT),
onde espera encontrar um irmão e emprego. "Meu irmão vive lá há dois anos.
Aqui no Brasil existe trabalho, lá no
Senegal não", diz.
Quem também
afirma isso é o haitiano Michel
Lotissaint, de 42 anos. "No Haiti tem trabalho, mas não é
suficiente para todos", lamenta.
As
dificuldades na terra natal foram o que impulsionaram a haitiana Jeancelia
Préstil, de 34 anos, que deixou os quatro filhos com a irmã no Haiti para
encontrar o marido, que vive há um ano e meio em Porto Alegre (RS). "Venho
para procurar trabalho e poder criar meus filhos", afirma.
Entenda o caso
O Ministério
da Justiça anunciou, na terça-feira (19), que um acordo com o governo acreano
suspendeu o envio de imigrantes haitianos para a cidade de São Paulo. Segundo o
ministério, a transferência "está suspensa até que ações referentes a essa
questão estejam bem coordenadas entre os vários órgãos do governo federal,
estados e municípios".
Inicialmente,
a pasta havia informado que a transferência estava proibida para todos os
estados do país. Às 22h10 da terça-feira, porém, o ministério afirmou que o
acordo diz respeito apenas à cidade de São Paulo.
Em nota, a
Prefeitura de São Paulo informou que não havia sido informada sobre a chegada
de, aproximadamente, 1 mil imigrantes e, por isso, não tinha estrutura para
recebê-los. Só na segunda-feira (18), em torno de 80 haitianos desembarcaram na
cidade.
"É
difícil receber estes haitianos sem termos 15 a 20 dias de antecedência para
nos preparamos. São Paulo recebe bem os imigrantes, mas precisa de uma
antecedência para planejar, até para conforto dos imigrantes", disse o
prefeito Fernando Haddad em entrevista à rádio CBN.
Já no dia 14
de maio, o governo do Acre se manifestou por meio do porta-voz oficial,
Leonildo Rosas. Ele reforçou o informe do Ministério da Justiça sobre a
continuidade das viagens para outras cidades e a suspensão das que estavam
programadas para São Paulo.
"Houve
um acordo comum entre os entes envolvidos – governo federal, São Paulo e Acre –
para que haja uma suspensão temporária na ida desses imigrantes, até que se
defina o fluxo. O convênio com governo para a ida para outros estados do
Centro-Sul permanece. Vale destacar que o destino não é definido pelo governo,
os imigrantes dizem para que lugares querem ir", afirmou na ocasião.
Rosas
comentou ainda a reclamação do prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, sobre
não ter sido informado quanto à chegada de imigrantes. Segundo o porta-voz, o
estado também não é notificado sobre a chegada das pessoas.
"Os
imigrantes quando chegam ao Acre não notificam. Essa medida de informar os
estados é do governo federal. Não cabe ao Acre fazer essa mediação. Nós
acolhemos os imigrantes. Eles definem para onde vão e o governo federal faz
essa mediação", disse.
Com a
suspensão das viagens para São Paulo, um aviso foi afixado na entrada do abrigo
para imigrantes mantido pelo governo do Acre, em Rio Branco. Entre as seis
cidades que podem ser escolhidas estão Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba,
Porto Velho, Cuiabá e Campo Grande.
Aumento no
número de vistos e combate aos coiotes
O ministro
da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou nesta quinta-feira (21) que o Brasil
irá aumentar o número de vistos para que haitianos entrem no Brasil de forma
legal. Ele, no entanto, não informou de quanto será o aumento. De acordo com o
ministro, atualmente, O Brasil emite mais de 100 vistos por mês para cidadães
do Haiti. Cardozo explicou ainda, que a decisão visa evitar que os haitianos
entrem no país de forma ilegal por meio de organizações criminosas.
Segundo o
ministro, o governo irá combater de forma "dura" a ação de coiotes,
pessoas que cobram para fazer o transporte ilegal de imigrantes para dentro de
um país. Cardozo informou também que irá visitar os países vizinhos Equador,
Peru e Bolívia para "articular medidas em conjunto" de combate à ação
dos coiotes.
A decisão
foi anunciada após uma reunião entre o Cardozo, o governador do Acre, Tião
Viana, o ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e o Ministro das Relações
Exteriores, Mauro Vieira.
Rota de imigração
Imigrantes
chegam ao Acre todos os dias através da fronteira do Peru com a cidade de Assis
Brasil, distante 342 km da capital. A maioria são imigrantes haitianos que
deixaram a terra natal, desde 2010, quando um forte terremoto deixou mais de
300 mil mortos e devastou parte do país. De acordo com o governo do estado,
desde 2010, mais de 32 mil imigrantes entraram no Brasil pelo Acre.
Eles vêm ao
Brasil em busca de uma vida melhor e de poder ajudar familiares que ficaram
para trás. Para chegar até o Acre, eles saem, em sua maioria, da capital
haitiana, Porto Príncipe, e vão de ônibus até Santo Domingo, capital da
República Dominicana, que fica na mesma ilha. Lá, compram uma passagem de avião
e vão até o Panamá. Da cidade do Panamá, seguem de avião ou de ônibus para
Quito, no Equador.
Por terra,
vão até a cidade fronteiriça peruana de Tumbes e passam por Piura, Lima, Cusco
e Puerto Maldonado até chegar a Iñapari, cidade que faz fronteira com Assis
Brasil (AC), por onde passam até chegar a Brasiléia.

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