Ainda um ser humano normal. Um craque, um gênio, mas ainda
um ser humano normal. Se ganhar uma Copa do Mundo é o passaporte para a
eternidade no futebol, Lionel Messi terá que esperar mais quatro anos, na
Rússia, para entrar no hall dos vencedores da disputa mais importante do
planeta. No Brasil, o argentino fez seu melhor Mundial. É verdade. Tanto que,
de cabeça baixa, recebeu um discutível troféu de craque da competição. Mas
também é verdade que foi pouco. Viveu de lampejos decisivos na primeira fase,
viu o brilho apagar depois da assistência para Di María nas oitavas de final e
não conseguiu decidir diante da Alemanha, nesse domingo, no Maracanã. Neste
caso, comparar é preciso, e Maradona segue intocável no posto de lenda para os
hermanos.
- Não me interessa (o prêmio de melhor da Copa). Queria
levantar a Copa, levar para a Argentina e comemorar com todo o povo. Falo para
os argentinos que tentamos e não tivemos a sorte de outras partidas. Faltou o
gol - disse Messi.
Na derrota por 1 a 0 para os alemães na prorrogação, o que
viu em campo não foi um Messi muito diferente das seis partidas anteriores na
Copa do Mundo. Um Messi de lampejos, de longos apagões e arrancadas que
arrepiavam até o mais frio germânico. Lionel teve em seus pés a bola do jogo,
logo no primeiro minuto do segundo tempo, e falhou. Dentro da área, chutou para
fora a chance da consagração, a chance da eternidade e, provavelmente, também
seu quinto troféu de melhor do mundo.
Nos 120 minutos, correu 10,7km e finalizou quatro vezes (das
10 do time), todas para fora. Tentou ainda 46 passes, com 28 acertos (um índice
baixo de 61%). Números, números, números. Nada disso importa, na verdade.
Faltou o gol, faltou decidir. Em três Copas do Mundo na carreira, Messi marcou
quatro gols e deu cinco assistências. Maradona fez mais do que isso somente em
1986, quando levou os hermanos ao bicampeonato do mundo: cinco tentos e cinco
passes decisivos para gol. Diego pode até não ser melhor do que Pelé, mas a
história prova que ainda é melhor que Messi. Pelo menos pelos próximos quatro
anos.
- Fazia muito tempo que a Argentina não passava das quartas
e chegamos na final, mas fica a decepção de não ganhar a partida. Estivemos
muito perto. Isso nos deixa na bronca, mas saímos de cabeça em pé.
Messi até se destaca, mas não decide
Cinco minutos para despertar. Cinco minutos para começar a
brincadeira. Cinco minutos e cinco segundos até o primeiro toque na bola.
Lionel Messi começou em ritmo lento a partida. Poderia estar estudando o que
acontecia nos dois lados, se poupando para boas oportunidades ou somente
apagado mesmo. Não dá para prever o que se passa na cabeça do craque. Com a
saída de bola para Alemanha, o camisa 10 argentino demorou para entrar no jogo.
Antes mesmo do primeiro minuto, viu uma disputa forte de bola a centímetros de
seu corpo, mas se recusou a colocar o pé.
A Alemanha tinha a posse de bola, a Argentina se salvava com
chutões, e Messi praticamente não saía do grande círculo. Aos cinco, a bola, enfim,
chegou aos seus pés. Não saiu nenhum lance muito produtivo, mas foi suficiente
para levantar a torcida argentina. Dominou com estilo chutão da defesa e
encarou Hummels e Höwedes. A dupla, por sinal, o perseguiria o tempo todo, e no
primeiro embate Lionel os chamou para dançar. Fez que foi, voltou, e a galera
gritou. Depois, um toquinho para trás.
A esta altura, Higuaín já tinha finalizado com perigo
cruzado para uma Argentina que repetia a estratégia da semifinal com a Holanda:
nove homens na defesa e bola para Pipita e Messi na frente. Em muitos momentos,
Enzo Pérez e Lavezzi chegavam para dar intensidade nos contragolpes. O primeiro
bom momento de Leo aconteceu aos oito, quando bateu Hummels com facilidade,
invadiu a área e tocou para trás. Schweinsteiger afastou. Messi não participava
muito do jogo, mas quando participava era no padrão Messi.
Preso na intermediária, poucas vezes invadia a área. Parecia
não querer gastar energia à toa, e tentava armar as jogadas quando tinha raros
espaços. Nem no gol anulado de Higuaín ele correu sem necessidade. Logo olhou
para o auxiliar, viu o impedimento e lamentou colocando a mão na cabeça. Pouco
depois, dialogou com a mão na boca com Andre Stefani, mas o lance foi bem
anulado.
Aos poucos, "La Pulga" participava mais da partida
e a quase sempre conseguia ficar no mano a mano com os rivais. Assim, errou
passe para Higuaín já dentro da área, ao parar mais uma vez em Schwein. Logo em
seguida, invadiu a área, ganhou mais uma vez de Hummels e tocou de biquinho na
saída de Neuer. Boateng fez o corte antes de Lavezzi, já na pequena área. Era o
ato final do craque no primeiro tempo.
Gol perdido, ânsia de vômito e apagão
Na volta do intervalo, Messi não teve tempo para se poupar
nem esperar nada. O relógio ainda nem marcava dois minutos, e o craque teve nos
seus pés uma das melhores chances da partida. Passe precioso de Biglia, e o
camisa 10 estava ali, diante de Neuer, diante da história. O chute saiu cruzado
para fora (veja no vídeo acima). Messi esteve a centímetros de encaminhar o
passaporte para ser o maior jogador argentino de todos os tempos.
A chance desperdiçada parece ter deixado Leo abatido. Daí
até o minuto 25, ele sumiu do jogo, se escondeu e quase vomitou no gramado. O
grande círculo voltou a ser seu habitat, uma zona improdutiva. O espaço em que
Messi se sente melhor em campo é aberto pela direita, na intermediária,
arrancando em diagonal para o centro do campo. E foi assim que o camisa 10
voltou para a partida com chute perigoso. A parte azul e branca da Argentina
acordou.
Da arquibancada, vinha o som de reverência: "Meeessi!
Meeessi!", seguido do canto que diz que pelas mãos do craque a Argentina
daria a volta olímpica. Em campo, mais uma arrancada. Messi dominou, arrancou,
deixou três para trás e ao encarar Boateng esticou muito a bola. Neuer saiu do
gol e fez a defesa.
A partir dos 30 do segundo tempo, as equipes passaram a não
se arriscar. Ninguém podia errar, ninguém queria ser o vilão. Nem mesmo Messi.
Já nos acréscimos, o craque tentou drible no meio-campo e foi desarmado. A
Alemanha esboçou contragolpe, mas ele correu como poucas vezes nessa Copa para
marcar e fez o desarme. Nos 90 minutos, ninguém brilhou. Nem Messi.
Chute nas alturas sepulta chance argentina
Nos 30 minutos mais importantes da carreira, Messi se apagou
ou apenas cansou. Com a Argentina muito recuada, o camisa 10 só olhava para o
alto em busca da bola que passava depois de chutões da defesa. Alguns deles até
encontraram Agüero e Palacio. O atacante do Inter de Milão até teve grande
chance na frente de Neuer e perdeu. Se fosse Messi...
- É um tristeza grande terminar dessa maneira. Acho que
merecíamos mais. Se eles tiveram mais a bola, acho que as situações mais claras
foram nossas. Não pudemos converter, não soubemos definir. Se fizéssemos o gol,
mudaria tudo.
A Alemanha sufocava, pressionava, e Messi não conseguia
puxar sua equipe para o ataque. Do meio-campo, perto do grande círculo, espaço
onde mais esteve durante todos os 120 minutos, viu Götze matar no peito e
emendar de voleio. Gol de Alemanha. Com as mãos na cintura, apenas abaixo a
cabeça e lamentou.
O destino ainda lhe reservou uma última oportunidade. Nos
acréscimos, uma falta na intermediária. O mundo de olho em Messi e chute na
arquibancada. Não deu. A eternidade ficou para próxima. A Rússia dará mais uma
chance a Lionel.
Os números de Messi na Copa do Mundo de 2014:
Jogos: 7
Minutos em
campo: 693
Gols: 4
Assistência:
1
Faltas
cometidas: 6
Faltas
sofridas: 18
Cartões
amarelos: 0
Cartões
vermelhos: 0

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