| (Foto: Divulgação) |
Expedição deve durar 2 anos e percorrer ao menos 20 países.
Um casal
de brasileiros assumiu a responsabilidade de contribuir com a ciência para
obter mais detalhes sobre o impacto do plástico nos oceanos. Eles resolveram
dar a volta ao mundo a bordo de um veleiro para colher amostras da água, que
poderão fornecer detalhes sobre a atual situação dos mares.
Os
paulistas Marcela Rocha e Danilo Mesquista embarcam nesta terça-feira (25), dia
de Natal, na primeira etapa da “Expedição 4 Ventos", que deve durar pelo
menos 2 anos e pretende percorrer 48,2 mil km, passar por ao menos 20 países e
cruzar os Oceanos Pacífico, Atlântico e Índico.
Em
parceria com o Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), eles
recolherão amostras para auxiliar na investigação do microplástico, partículas
de 5 milímetros de materiais orgânicos sintéticos que ficam na superfície do
mar e ameaçam a biodiversidade.
A paixão
pelo mar, aliada ao hobbie do casal por aulas de mergulho, desenvolveu a
preocupação em preservar o universo marinho -- cuja perda da biodiversidade fez
acender um alerta mundial.
Segundo o
Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), 13 mil partículas de
lixo plástico são encontradas em cada quilômetro quadrado do mar, mas o
problema é maior no Norte do Pacífico.
As
partículas plásticas estão s
endo aspiradas pelas criaturas do mar e pelas aves,
e a mistura é rica em produtos químicos tóxicos. Pássaros e peixes morrem de
inanição por confundirem as partículas plásticas com alimento. Estudos já
comprovaram que até mesmo os plânctons, a base da cadeia alimentar, estão sendo
impactados.
A coleta das micropartículas será feita por uma rede especial
desenvolvida pela USP em parceria com a Administração Nacional dos Oceanos e da
Atmosfera (NOAA, na tradução do inglês), instituto do governo dos EUA.
Chamada de
rede de Nêuston, o equipamento vai recolher o plástico da superfície marinha e
as amostras serão enviadas, sob refrigeração, para os laboratórios da USP.
“Acreditamos que o estudo pode contribuir para a constatação sobre a realidade
das águas do planeta, além de um plano de prevenção para a preservação da vida
marinha”, explica.
O veleiro
Um Gulfstar 37 pés será o meio de transporte do casal – que já se prepara psicologicamente para a convivência no isolamento. “O Danilo já me alertou que se a TPM pegar pesada, vou para o bote de salvamento”, brinca Marcela, que é radialista e abandonou a profissão pelo projeto (mesma decisão tomada por Danilo, também radialista).
Preparado
com um dessalinizador (que transforma água salobra em potável), além de ser
autossuficiente em energia, graças a um painel solar e um gerador eólico, o
barco terá comunicação via satélite, internet e telefone, com o apoio de uma
empresa de telefonia móvel.
O navio
sairá de Miami em direção a Cuba, atravessando o Mar do Caribe rumo ao Panamá,
onde terão acesso ao Oceano Pacífico, com foco na parte Sul. Depois, cruzarão
parte da Ásia, acessando o Oceano Índico, até o Cabo da Boa Esperança, na
África do Sul, onde entram nas águas do Atlântico Sul, rumo ao Brasil. A
previsão é que veleiro chegue em águas brasileiras em fevereiro de 2015.
Segundo
Marcela, a expedição visitará áreas ainda inóspitas, carentes de estudos,
principalmente aquelas do Pacífico Sul e Atlântico Sul. Ela afirma que a ilha
de Lixo conhecida como “Grande Porção de Lixo do Pacífico”, localizada entre os
EUA, Canadá e o Havaí, não será alvo da pesquisa.
Desafio
mundial
A proteção dos oceanos se tornou uma das principais bandeiras da Organização das Nações Unidas (ONU). Neste ano, durante a conferência Rio+20, países negociaram a criação de regras mais duras para preservação marinha, com o objetivo de proteger a biodiversidade e não impactar a segurança alimentar.
Rosalinda
Montone, professora do Instituto Oceanográfico da USP e responsável por
analisar as partículas de poluentes recolhidas em alto mar, disse que esses
fragmentos podem impactar a cadeia alimentar dos oceanos.
Ela
ressalta a importância da expedição e disse que a captação de amostras é uma
das partes mais difíceis do projeto. “Vamos depender muito de coleta,
considerada uma parte crítica e cuidadosa”, disse.
Ela afirma
que o objetivo da parceria entre o IO e a expedição é realizar um mapeamento
dos pontos do planeta onde ocorrem alta concentração de partículas de plástico.
“Temos que pensar no uso do plástico no continente, não no mar. Certamente será
um dos grandes desafios da humanidade”, explica a pesquisadora.
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